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Visto de Macau

Linhas em jeito de diário. Inspiração. Homenagem a espíritos livres. Lugar de evocação. Registo do quotidiano, espaço de encontros. Refúgio de olhares. Espécie de tributo à escrita límpida, serena e franca de Marcello Duarte Mathias.



Segunda-feira, 10.03.14

stones

 

Don't need a whore
I don't need no booze

Don't need a virgin priest
But I need someone I can cry to
I need someone to protect
Making love and breaking hearts
It is a game for youth
But I'm not waiting on a lady
I'm just waiting on a friend

(Waiting on a Friend, Jagger & Richards)


Do rock´n roll diz-se que nunca morrerá. Previsão que, por muitos anos que o Senhor ainda entenda me dar, e que espero não desmerecer, dificilmente poderei vir a comprovar. Enquanto aguardava a minha vez, no concorrido McSorleys´s, veio-me à memória a lembrança de há quase onze anos quando um amigo teve a gentileza de me dispensar os seus dois bilhetes, que tarde e a más horas fui levantar, 300km depois de sair do escritório, para poder ir a Coimbra festejar o meu aniversário “com” os Rolling Stones. Não me passava pela cabeça que em 2014 seria espectador de mais uma digressão da banda que no ano em que nasci tocava “gigs” nos arredores de Londres. Menos ainda pensaria, alguma vez, assistir a um espectáculo com ar condicionado e lugares marcados desde Dezembro do ano passado, como se fosse assistir a uma conferência, onde todos os espectadores são obrigados a passar pelos corredores de mármore, os tapetes e os lustres de um centro comercial e de um hotel de cinco estrelas pintado com cores e tons do período áureo de Veneza.Tirando esses pormenores, que um dia farão parte da memória de quem os viveu, a minha vida acompanha a dos Stones há mais ou menos cinco décadas. Ou seja, praticamente desde que passei a ter um lugar à mesa dos meus pais com direito a faca, garfo e todo o resto do arsenal. Depois tive a sorte, como muitos dos que me lêem, de pensar que estava apaixonado ao som de Angie, sem saber se gostava mais da miúda que nunca mais vi depois desse dia, se da música a cheirar a combustível debitada por uma velha aparelhagem numa das muitas festas de garagem que encheram a minha década de Setenta. E pela vida fora, fosse a propósito de mais um disco, de um filme de Scorcese ou de uma pintura de Wharol, os Stones passaram a fazer parte do meu círculo familiar e de amigos, convivendo com todos nós em papel couché, algodão, autocolantes rafeiros, vinil, cassetes, cd’s, dvd’s e, mais recentemente, numa coisa chamada mp3. Era, pois, natural que a expectativa fosse grande no momento em que a banda celebra os seus cinquenta anos de carreira e se adivinhava a oportunidade, surgida por mero acaso e fruto das voltas que a vida teima em dar, de reencontrar Mick Jagger e a sua gente na que, desde a noite passada se tornou, quer queiram quer não, na “mítica” Arena do Cotai. Sim, porque depois do que alguns milhares de pares de olhos e ouvidos acompanharam, o concerto de Macau da “14 On Fire” tour já faz parte da história dos Stones e dos seus seguidores.

Ainda mal refeito dos poderosos acordes da Sinfónica de Londres e da “Titan”, de Mahler, dois dias depois, ao início da noite, o avião dos Stones aterrava na pista do Pac-On, enquanto a banda undercover despachava num hotel do Cotai. Sim, porque no dia seguinte, o discretíssimo Charlie Watts resolveu visitar, sem se fazer anunciar a, talvez a mais, acolhedora catedral gastronómica da Taipa. Lugar onde o nosso amigo João Carvalho tantas vezes fazia questão de ir. No dia seguinte seria a vez do próprio Mick Jagger seguir-lhe os passos.

N’ “O Santos”, do qual também se dirá um dia que é como o rock’n roll – “it’s only food, but I like it” – não consta que haja nenhum exemplar de Aftermath ou de Sticky Fingers, nem mesmo de Some Girls, e talvez por isso mesmo é que o alinhamento das músicas não tenha sofrido grandes alterações relativamente ao concerto do Tokyo Dome. Sabia-se que pelo menos uma das músicas que iria ser tocada resultaria da votação do público, pelo que a Cotai Arena viu arrancar, logo a seguir às explosões do vermelho, êxitos como Jumpin’Jack Flash, You Got Me Rocking e It’s Only Rock ´N´Roll, a que se seguiram Tumbling Dice e Wild Horses (em Tóquio fora Ruby Tuesday).

À medida que o pavilhão aquecia e as cadeiras começavam a vibrar e a mexer-se, seguindo a euforia da zona vip, por onde Jagger incansável já circulava, entraram canções como a mais recente Doom and Gloom, e logo depois Gett of My Cloud (votação do público) e Honky Tonk Women, antes de se iniciar numa sequência que fez transbordar a timidez do público. Slipping Away, com Keith Richard e o convidado Mick Taylor a tomarem conta da audiência, antecedendo o disparo de Before They make Me Rub, Midnight Rambler e Miss You.

A partir daqui, um concerto que já era magnífico pelo som e pela cor, passou à categoria de inolvidável, tomando por boas as opiniões de quem viu os Stones, em Londres, Alvalade, Coimbra, Madrid, Hong Kong, Sidney e em muitos outros locais.

Foi então tempo de ouvir a mais bela canção alguma vez tocada ao vivo pelos Stones, numa performance encomendada aos deuses. Paint It Black, uma marca em qualquer concerto dos Stones graças à magia de Richards e ao sempre surpreendente arrebatamento de Jagger.

A partir daí seria impossível voltar atrás. O comboio seguiu ao som de Gimme Shelter, Start Me Up, Sympathy For the Devil e Brown Sugar, antes das despedidas com You Can´t Always Get What you Want, acompanhado pelo coro da Hong Kong Chinese University e uma versão arrebatadora de (I Can’t Get No) Satisfaction, com o agora incontornável Mick Taylor a recordar despiques de outros tempos.

Tal como a fulgurante Deneuve, perante os olhares indiscretos do New Yorker Magazine, aos setenta anos só os grandes se arriscam manter-se em palco, enfrentando sem medo os focos nas rugas e nas sombras que o tempo teceu. Sem playback, com o corpo, a voz e as mãos que Deus lhes deu. E os Stones provaram, se é que alguma coisa havia a provar, que, qualquer que seja o salão onde actuem, não esquecem a sua condição de banda popular, fazendo questão de sublinhá-lo de forma fulgurante. No fim, as rolhas de Dom Pérignon que o Café Deco e a sua banda fizeram saltar, prolongando o concerto noite fora, não celebravam o final de uma noite perfeita. Elas expressaram a esperança de que um dia voltem. Se não for pela água do Lilau, então que seja pelas amêijoas do Santos. E se não for para cantar, que seja para nos contarem as suas memórias. Quem tão bem recebe quem de tão longe vem, sem nada lhe pedir em troca, sabe que não vale a pena medir o tempo. Vista da Lua, a muralha fala por si. Em português, mandarim, cantonense ou inglês, os Stones rolarão pela eternidade.

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por Sérgio de Almeida Correia




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