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Visto de Macau

Linhas em jeito de diário. Inspiração. Homenagem a espíritos livres. Lugar de evocação. Registo do quotidiano, espaço de encontros. Refúgio de olhares. Espécie de tributo à escrita límpida, serena e franca de Marcello Duarte Mathias.



Sexta-feira, 07.03.14

macau

 

Mas? ¿tú? ¿Volver? Regresar no piensas,
Sino seguir libre adelante,
Disponible por siempre, mozo o viejo,
Sin hijo que te busque, como a Ulises,
Sin Ítaca que aguarde y sin Penélope
Peregrino, Luís Cernuda (1902-1963)
 
Voltar a reconhecer uma cidade é como voltar a pensá-la. Para pensar uma cidade, como se pensa a liberdade, é preciso tê-la conhecido antes de a podermos reconhecer no presente. É preciso senti-la, percorrê-la como se fosse o corpo de uma mulher que se descobre, apaixonarmo-nos sem remorso. Ou, como as amizades juvenis que se tornam em amores tardios, ter a noção dos seus contornos antigos, da forma como evoluiu e se tornou adulta. Macau é hoje uma cidade que não cabe no seu corpo. Como um corpo volumoso que sendo incapaz de manter a elegância tenta que a voluptuosidade de outros tempos disfarce a fealdade recente que à viva força quer acomodar num tailleur de Dior, depois de durante anos andar enfiada em calças de Lycra.
A liberdade sente-se. A liberdade respira-se. A liberdade é uma realidade tangível mesmo para quem não consiga defini-la. E mede-se por parâmetros que conjugados nos dão uma ideia sobre a sua profundidade e amplitude. Do mesmo modo que uma cidade. E tudo o que em termos individuais nos apega à liberdade reflecte-se no modo como vivemos uma cidade.
Não há cidades livres onde os seus cidadãos não se sintam livres, onde a sua vida seja submetida a constrangimentos insuportáveis ou a moinhas recorrentes, onde a sua liberdade de movimentos se sinta oprimida pela desvalorização da sua qualidade de residentes, de amantes que com ela partilham o corpo e deixam de neste se reconhecer, como se de repente se transmutassem num corpo estranho dentro daquele que por amor lhes pertence e com o qual se habituaram a conviver.
Não há cidades livres, cosmopolitas ou de turismo onde os seus cidadãos não se sintam livres. Onde o ar que respiram, a fluidez dos seus caminhos, a arrumação dos seus passeios ou a liberdade de movimentos não sejam os elementos essenciais da qualidade do sangue que os percorre.
Um espaço tem de se sentir organizado para que quem o habita saiba quais são as suas medidas. Para que um fato de bom corte confeccionado com os melhores tecidos não descaia nos ombros, nem encolha com as primeiras gotas de água, deixando à vista de todos as suas insuficiências, as costuras mal cosidas, as pregas inconsequentes, as entretelas de má qualidade.
Esta não foi a cidade que conheci. Não lhe reconheço os espaços onde o meu corpo se habituou a anichar-se. E sinto-lhe hoje o peso do ar nos caminhos que percorro, a gordura misturada no seu sangue, entupindo as artérias, numa organização sem sentido de um espaço cuja agradabilidade se liberta num qualquer postal.
Voltar a pensar Macau é voltar a torná-la livre. Para quem nela vive e para quem chega. É voltarmos a apaixonarmo-nos pelas suas curvas, pelos contornos que o tempo lhe deu. É convocarmos um laborioso costureiro, um estilista sensato e sensível, que pela arte e pelo gosto lhe construa uma segunda pele, onde a textura de um corpo ainda jovem possa voltar a brilhar, sem protuberâncias estranhas e desconsoladas.
A pureza do seio farto e acolhedor que se descobre não pode ser ofuscada pela marca da fuligem que escapou da manápula suja de quem a percorreu. Um curto momento de deleite não pode ser transformado numa viagem prensada entre dois espirros e uma pisadela, numa correria sem sentido e infrutífera atrás de um indisposto e rude taxista, onde a simples procura de um lugar para parar não seja transformado num passatempo de pobres sem abrigo.
A opulência de um porto, a qualidade de vida de uma cidade, a riqueza de uma região, vê-se no rosto de quem aí trabalha, de quem aí circula, de quem vive os seus espaços, de quem aí ama e se deixa amar. Como Veneza num retrato de Morris.
Quinze anos volvidos, Macau é uma amante que precisa de atenção. Que não pode ser tratada como a concubina de quem governa, ou emprestada a quem chega para dela se servir.
Os diamantes são eternos, dizem. A paixão, por muito infinita que seja no verso do poeta, sabemos todos que não dura mais do que o tempo de uma vida. E a liberdade, esse corpo com o qual todos gostamos de nos envolver e sem o qual não podemos passar, não pode ficar prisioneira de um cheque amarelecido com o tempo. Macau precisa de um amante que olhe para ela, que circule com ela, que a envolva e lhe devolva o conforto à sua pele.

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por Sérgio de Almeida Correia




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