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Visto de Macau

Linhas em jeito de diário. Inspiração. Homenagem a espíritos livres. Lugar de evocação. Registo do quotidiano, espaço de encontros. Refúgio de olhares. Espécie de tributo à escrita límpida, serena e franca de Marcello Duarte Mathias.



Quinta-feira, 17.10.13

a terceira posição

Escreveu Garrett que são três as posições em que um homem público se pode colocar. Do lado do poder que reina, a posição mais fácil e mais brilhante, aquela em que imperam os aplausos; a posição dos que aparentando "integridades de Catão" esperam pela recompensa, e a dos homens inteiros descritos por Horácio, aquela por que ele optou e que traz consigo toda a espécie de vexames, degredos, cárceres e calúnias. É a posição do "homem de ninguém", a do prisioneiro da sua consciência.

 

Não serei tão dogmático quanto Garrett, embora não me custe reconhecer a justeza das suas afirmações. Conciliá-las com os dias que vivemos é que não será fácil. Eu diria que as três posições de Garrett corresponderão a uma espécie de tipos puros do modelo weberiano aplicados ao homem público, ao político. Os tipos ajudam-nos a compreender a realidade. Por vezes também deformam a nossa concepção do mundo. Deve ser esse o meu caso. Vivo num mundo onde já não há tipos puros. Talvez por isso também eu leve uma vida inteira, como alguém já escreveu, a corrigir um erro de trajectória. Esta é que é a verdadeira terceira posição.

 

A virtude deve estar algures entre Cícero e Horácio. Em qualquer caso, muito longe de Catão. Se não for assim será impossível corrigir os erros de trajectória e encarar a realidade sem sofrimento.

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por Sérgio de Almeida Correia

Quinta-feira, 17.10.13

confrontação

Recordo Maria Filomena Mónica. À medida que avançamos na idade, e não é preciso avançar muito, somos confrontados com o desaparecimento de outros. No curto espaço de duas semanas vi partirem, sem sequer ter tido a possibilidade de lhes dar um abraço ou um beijo, dois que muito tinham a dar-nos e de quem era legítimo esperar muito mais. O grande Unamuno, numa das suas obras-primas, falava de um sentimento trágico da vida. Não me parece que deva ser assim. Conhecendo as leis da vida e da morte não será possível transformar a segunda na primeira. Mas talvez seja possível encarar a segunda como um complemento da primeira. Não há aqui nada de místico, nem de paróquia. A confrontação com a dor é um daqueles momentos em que nos despojamos de todos os dogmas, de toda a aprendizagem passada e assimilada, e somos capazes de olhar para os que partem e para nós num plano exterior à nossa relação com os que partiram. Quem sabe se hoje, havendo vida do outro lado, não estarei mais próximo dos que partiram? Talvez um dia eles me possam responder. Até lá, espero que, pelo sim pelo não, o M. e a I. continuem a zelar por nós. Como sempre fizeram enquanto cá estiveram.  

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por Sérgio de Almeida Correia




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