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Visto de Macau

Linhas em jeito de diário. Inspiração. Homenagem a espíritos livres. Lugar de evocação. Registo do quotidiano, espaço de encontros. Refúgio de olhares. Espécie de tributo à escrita límpida, serena e franca de Marcello Duarte Mathias.


Terça-feira, 21.02.17

factos

Pois é, contra factos não há argumentos. Má vontade sim, há muita. E "cotovelite aguda".

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por Sérgio de Almeida Correia

Terça-feira, 21.02.17

cgd

 

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 (foto economia online)

Afastado como estou das confusões da política à portuguesa, tenho-me limitado a acompanhar à distância o que por Portugal vai acontecendo, fazendo fé nos relatos que me vão chegando, no que me é oferecido pela RTPI e, em especial, pela imprensa. E sobre o que tenho ouvido, visto e lido bem posso dizer que não estou nada satisfeito porque os anos passam e quase tudo continua na mesma. Em particular no que diz respeito ao comportamento dos partidos e dos agentes políticos.

Mas antes disso, convém dizer que resolvi fazer uma visita até aqui para vos dizer o que penso do "affaire" CGD/Centeno. A novela já vai longa e é tempo de se colocar um ponto final na bagunçada. Chafurdar na lama normalmente não acrescenta limpeza aos intervenientes, nem claridade ao que que lá se busca.

Não haverá português que ao ouvir falar da CGD, para todos os efeitos o maior banco nacional e uma entidade que faz parte de um grupo empresarial em que o Estado tem um papel determinante, que não pense logo no que há décadas vem acontecendo com aquela casa em matéria de distribuição de lugares a correligionários políticos e empresariais, contribuição para algumas reformas chorudas e atribuição de créditos para negócios mais do que duvidosos que depois acabam sendo pagos por todos os portugueses e enrodilhados nos meandros das investigações do Ministério Público. Gente ligada ao CDS/PP, ao PSD e ao PS, pelo menos estes, que me lembre, tem passado pela CGD como se o banco fosse uma sucursal dos próprios partidos onde é necessário colocar capatazes, amigalhaços e compadres para agradecer os respectivos favores políticos e garantir financiamentos a afilhados que de um momento para o outro resolvem ser "empresários". À nossa custa.

O que recentemente aconteceu com o ministro das Finanças e António Domingues nunca deveria ter acontecido e não é pelo facto do Primeiro-Ministro se chamar António Costa ou o PS ser governo que existe atenuante para o que aconteceu. O caso é revelador de uma inépcia política inqualificável por parte do ministro das Finanças, só justificável pela sua própria inexperiência e voluntarismo. Mário Centeno quis resolver um problema, dar uma gestão mais profissional à CGD, só que fê-lo da forma mais desastrada possível de que há memória.

Dou de barato que o ministro não é um político de carreira, que a sua experiência político-partidária era igual a zero e que apenas estava preocupado com a situação do banco e a obtenção de uma solução que servisse os interesses da instituição e dos portugueses. Quanto ao escolhido, o banqueiro Domingues, como é normal quando se convida qualquer pessoa para mudar de um emprego para outro, procurou obter as melhores condições remuneratórias possíveis, mantendo o sigilo que lhe parecia conveniente e assegurando uma equipa da sua confiança. Até aqui tudo normal. O que aparentemente se tratava de uma situação corriqueira complica-se, daquilo que me foi dado perceber, quando Domingues resolve fazer exigências que à partida deveria ter tido o bom senso de nem sequer pensar nelas. Domingues saía de um pequeno banco para uma entidade de muito maior dimensão, pelo que presumo que curricularmente, mesmo para um banqueiro, não seja coisa despicienda. Quando se passa de um estaminé de bairro para um empório peninsular as responsabilidades aumentam e a projecção é outra. Isto também tem um valor. Em todo o caso, não me parece que as condições remuneratórias oferecidas pelo banco público fossem más, nem pareceu que fosse essa a razão da disputa.

Onde parece que as coisas se desalinham é quando o banqueiro pretende obter para si um regime de excepção, claramente à margem do legalmente aplicável, e o ministro, vou admiti-lo em função do que veio a público e do que referiu Lobo Xavier, resolve dar-lhe trela em vez de liminarmente cortar a direito e dizer ao senhor Domingues que tivesse juízo, directamente ou através de um dos seus secretários de Estado. Não o fez quando o devia ter feito e foi por essa razão que chegámos ao ponto onde estamos. Domingues esteve muito mal quando se lembrou de propor ao ministro a desobrigação da entrega das declarações de património como uma das condições para aceitar o desafio de liderar a gestão da CGD e convidar os restantes membros dos órgãos sociais. Domingues sabia quais eram as condições vigentes para liderar o banco público e devia ter tido a vergonha, já que do ponto vista cívico não deixa de ser uma vergonha, mais a mais vinda de quem está na sua posição, de alguém que faz parte de uma elite nacional, de não propor isso ao ministro. Como se sabe, a educação, o dinheiro e a excelência do desempenho profissional nem sempre dão bom senso e qualquer um de nós está sujeito a ter um momento menos feliz. Ele teve ali o seu.

Posto isto, o que veio a seguir já é do domínio da chicana política em que são useiros e vezeiros alguns dos nossos maiorais partidários. Aquilo que sucedeu não serve para desqualificar tecnicamente Mário Centeno, cujos resultados são incontornáveis (não obstante o crescimento da dívida, mas este é mal que quem o precedeu também não conseguiu controlar em tempos de austeridade), mereceram aplauso em Bruxelas, declarações encomiásticas dos comissários Moscovici e Carlos Moedas, pelo menos destes, e o silêncio de Wolfgang Schäuble, o tal que dizia que Portugal estava no bom caminho até entrar o actual governo e que até agora, perante o défice mais baixo da história da democracia portuguesa e os números que foram conhecidos mantém um envergonhado e comprometido recato.

O Primeiro-Ministro protegeu o seu ministro, como faria qualquer outro no seu lugar e isso não lhe pode ser censurado. Não é a mesma coisa, convenhamos, que proteger quem tem licenciaturas de favor, usou a política para se promover e enriquecer ou andar a promover vistos gold. Nem é a mesma coisa que andar de braço dado com os Duartes Limas, os Loureiros e a maltosa do BPN e da SLN para depois só andar preocupado com as mentiras de um tipo como o Sócrates, a ponto de ter necessidade de lhe dedicar uma sebenta.

O Presidente da República fez o que lhe competia. Ficou zangado. Eu também ficaria, mas como o próprio sabe, no lugar em que está, por vezes, também tem de dar alguns mergulhos e engolir alguns sapos. Nessa matéria também não é nenhuma virgem e ele sabe como se há-de proteger.

Mal, muito mal, estiveram os partidos da oposição. E sobre o que Passos Coelho, Assunção Cristas e a sua malta andaram a dizer, e a sua preocupação em divulgarem os sms trocados entre Centeno e Domingues, gostaria de dizer uma coisa. Eu, como todos os portugueses, temos todo o interesse em conhecer o conteúdo dessas comunicações. Considero-as de interesse público e penso que são relevantes por razões de transparência e higiene da nossa democracia. 

Convirá, porém, dizer que considero perfeitamente aceitável a posição do PS e dos partidos que apoiam o Governo, tendo presente o passado próximo e aquilo de que a Oposição já se esqueceu. Não foi assim há tanto tempo como isso que Passos Coelho, quando confrontado com os pagamentos da Tecnoforma e a trapalhada das suas deslocações e das despesas de representação veio dizer, também perante factos de relevante interesse público, que não estava disposto a autorizar o "striptease" das suas contas bancárias, querendo à viva força que se confiasse na palavra de quem já fora apanhado em diversas "inverdades" e mentira descaradamente aos portugueses quando andou a convencê-los para lhe darem o seu voto. Foi a própria Assunção Esteves, ao tempo presidente da Assembleia da República, quem protegeu Passos Coelho e impediu o acesso do PCP aos documentos que clarificariam a situação do então primeiro-ministro, a qual até hoje, pelo menos para mim, continua por clarificar e envolta em muitas dúvidas. É bom recordá-lo.

E também que o PSD e o CDS/PP enquanto foram poder inviabilizaram todos os inquéritos em que a sua gente esteve envolvida. O caso mais escandaloso foi aquele que dizia respeito à ex-ministra das Finanças. Agora fazem-se de virgens ofendidas, esquecendo que em Julho de 2013, a audição que tinha sido requerida com carácter de urgência pelo Bloco de Esquerda (BE) fora por eles chumbada. Em causa estava, recordo, a acusação de que Maria Luís Albuquerque faltara à verdade e eram públicas informações de que recebera informação por escrito, designadamente do Director-Geral do Tesouro e Finanças, sobre a situação das perdas potenciais dos swaps. Em 25 de Julho de 2013, o Público referiu que "os emails enviados pelo ex-director-geral do Tesouro e Finanças, Pedro Felício, à agora ministra das Finanças em Junho e Julho de 2011 já continham informação sobre swaps e indicavam uma perda potencial de 1,5 mil milhões", acrescentando-se que "a troca de emails diz respeito aos dias 29 de Junho, 18 de Julho, 26 de Julho e 1 de Agosto". Até hoje estou para ler esses emails e para saber se Maria Luís Albuquerque mentiu, como acredito que aconteceu, ou se fez o que devia.

Que agora não seja possível ter acesso aos sms e às respostas que terão sido dadas por Mário Centeno a Domingues é mau para as nossas instituições e para a nossa vida democrática. Não concluo que tudo do que foi dito e veio a público seja verdade, pelo que importa por isso mesmo lembrar que aqueles que vêm agora armar um escarcéu por causa dos sms trocados entre Centeno e Domingues – sendo certo que não é o facto de um tipo escrever a um ministro a dizer o que quer que permite retirar qualquer assentimento do destinatário quanto às exigências que fez se nada for dito nesse sentido –, são os mesmos que no passado protegeram Dias Loureiro no Conselho de Estado e Miguel Relvas no Governo, e que inviabilizaram o esclarecimento das situações envolvendo Passos Coelho e a Tecnoforma e Maria Luís Albuquerque e os swaps.

É uma chatice ter de vir falar nisto nesta altura, só que perante tudo o que se tem escrito sobre este assunto e o circo que se montou, talvez seja altura de dizer que se o PSD e o CDS/PP tivessem tido então uma atitude decente, talvez agora estivéssemos todos, a começar pela Oposição, em posição de exigir, com outra autoridade, o conhecimento público das comunicações trocadas entre Mário Centeno e António Domingues.

Para mal dos nossos pecados, não têm agora de que se queixar. É pena, mas depois do que fizeram também não merecem outra coisa.

Quanto ao futuro, presente o sucedido, o que sugiro é que os partidos se entendam em sede parlamentar e acautelem a forma como deverão amanhã proceder  perante situações idênticas. Não é só no futebol, em relação aos árbitros e aos artistas da bola, que devemos ser lestos a exigir responsabilidade, respeito e fair play. Temos obrigação de também os exigir na política e aos partidos. Isto se não quisermos que as futuras gerações tenham vergonha de nós. E se tivermos vontade de nos corrigirmos, evidentemente.

De outro modo, pode ficar tudo na mesma. Como sempre. Como até aqui. Entregue à gandulagem que medra encostada aos partidos e à democracia. Ninguém estranhará. Talvez um dia.

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por Sérgio de Almeida Correia

Sexta-feira, 10.02.17

kapok

"At least 15 out of the 20 most generously funded organisations can be traced in one way or another to a legislator or member of the EC.", Eric Sautedé, The facts, just the facts, Macau Daily Times

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por Sérgio de Almeida Correia

Quinta-feira, 09.02.17

ligações

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Não sei se todos já se aperceberam, mas num curto espaço de tempo desapareceu das vias públicas da cidade uma montanha de lugares de estacionamento automóvel de superfície, sem que tenham sido substituídos por novos espaços para a mesma finalidade. Eliminaram-se os parques e fizeram-se crescer os passeios, ainda que isso ocorra em zonas sem ou praticamente nenhum movimento de peões que justifique as obras e o alargamento. O que acontece em prejuízo dos cidadãos automobilistas e em zonas comerciais. Ao mesmo tempo dá-se dinheiro a ganhar aos senhores que produzem os horríveis aros metálicos verdes que passaram a "enfeitar" todas as artérias, mesmo em zonas onde existem nas bermas linhas contínuas amarelas indicativas da proibição de estacionamento.

Eu não acredito que sejam só coincidências porque os que beneficiam com o que se está a passar são os que sempre beneficiaram: os empreiteiros que fazem as obras, os concessionários dos silos automóveis, a PSP, e às vezes, também, os vendedores das câmaras de filmar que contribuem para ir transformando Macau no sucedâneo de um estado policial. A gente de sempre.

Por outro lado, são instalados novos parquímetros, sem que perceba muito bem a razão para a substituição dos anteriores, que funcionavam razoavelmente bem e cumpriam a sua função. Ainda pensei que como os antigos não davam recibo estes agora passassem a emiti-lo. Pura ilusão. Um tipo paga, alguém mete ao bolso, e quem paga fica sem recibo e não tem maneira de provar que pagou.

Este problema dos recibos, infelizmente, parece estar generalizado e afecta, inclusive, os próprios serviços públicos. Ainda há dias fui ao Centro Ecuménico "Kun Iam", na Av. Dr. Sun Yat-Sen, no NAPE, e aproveitei para comprar um dos livros que se vende na pequena loja aí existente, explorada pelo Instituto Cultural de Macau (ICM). Pagar paguei, recibo é que nem vê-lo. Ainda perguntei pelo dito, mas a funcionária, à laia de uma qualquer mercearia, limitou-se a encolher os ombros e a lançar numa folha de papel a venda que acabara de efectuar.

O mal é geral, está a espalhar-se e nem as gasolineiras escapam a esta nova moda da eliminação dos recibos. Quanto aquelas, que até há pouco tempo emitiam recibos manuscritos onde era aposta a matrícula dos veículos que abasteciam, agora recusam-se a emiti-los e impingem ao cidadão os duplicados dos talões (nem sequer são os originais) que retiram das máquinas. E que, além do mais, sendo impressos em papel térmico, com a humidade, estão destinados a desaparecer em pouco tempo.

Nada disto é inocente e o problema não é só de (in)competência de quem manda. E não me venham dizer que os contribuintes terão de passar a fotocopiar todos os seus recibos, com os inerentes gastos em papel, tinta e electricidade para se poderem proteger perante o fisco porque dá-me logo vontade de dizer um palavrão. 

Ao contrário do que se passava no Ministério Público, onde os recibos das obras e viagens se multiplicaram alegremente durante uma década, e com a PSP, que se farta de emitir "facturas e recibos" aos cidadãos, parece que em Macau mais ninguém se importa com este assunto. Fiscalização, nesta como noutras situações em que o contribuinte necessita de ser urgentemente protegido, parece ser coisa inexistente e com a qual também não se preocupa a maioria dos deputados da Assembleia Legislativa. Para os cidadãos é uma espécie de salve-se quem puder. Para outros, como ainda agora também se viu com alguns generosos subsídios da Fundação Macau, é um "venham a nós os vossos milhões". Um dia a gente chateia-se e a casa vem abaixo.  

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(foto JTM) 

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por Sérgio de Almeida Correia

Sexta-feira, 03.02.17

westminster

Falar de democracia é falar do que se passa no Reino Unido e no parlamento britânico. Neste caso numa das suas câmaras, a House of Commons. Ontem foi votada a lei que permitirá à primeira-ministra Theresa May iniciar o processo negocial de saída do Reino Unido da União Europeia. Depois de suceder a David Cameron na liderança dos Tories, em Julho passado, May foi obrigada pelo Supremo Tribunal, na sequência de uma decisão que teve 8 votos favoráveis e 3 contra, a pedir autorização ao parlamento para desencadear o mecanismo legalmente previsto para o abandono. Na sequência dessa autorização, o assunto foi levado ao parlamento que ontem deu o seu acordo à lei e autorizou a primeira-ministra a accionar o processo do artigo 50.º do Tratado de Lisboa.

Theresa May não chegou ao poder em resultado de uma qualquer vitória eleitoral, mas em consequência do referendo conduzido pelo seu antecessor David Cameron, mas nem por isso tem menos legitimidade política de acordo com as regras vigentes em Westminster. Já se esperava que a lei fosse aprovada e isso veio efectivamente a ocorrer com uma votação esmagadora de 498 a favor e 114 contra. Entre estes últimos estão os 49 votos dos deputados do Scotish National Party. Dir-se-á que uma vez mais a democracia funcionou, embora possa haver quem estranhe o resultado desequilibrado da votação tendo em atenção a distribuição de deputados entre os diversos partidos. Mas sobre este ponto a explicação é simples: a democracia funcionou. Apesar de 47 deputados trabalhistas terem violado a disciplina de voto imposta pela direcção do Partido Trabalhista aos seus parlamentares, o Labour votou a favor.

Em tudo isto, apesar do que possa à primeira vista parecer, há uma coerência notável. Até mesmo por parte daqueles que votaram contra o diploma mantendo-se fiéis às suas convicções. E encontra explicação naquele que terá sido, porventura, um dos mais notáveis discursos dos últimos anos proferido naquela casa. Refiro-me ao discurso de Sir Keir Starmer, deputado do Partido Trabalhista eleito pelo círculo de Holborn and St. Pancras. Convido os leitores a ouvirem esse discurso na íntegra e as explicações que ele dá para o sentido de voto do Labour, apesar da sua oposição à saída da União Europeia, e que se resume numa única frase: "We are in the Labour Party, above all, democrats". E como democratas limitaram-se a respeitar a vontade do povo cumprindo o formalismo necessário.

Quando oiço as palavras de Starmer e recordo o que ele disse, ao olhar para o que habitualmente se passa em Portugal, na Assembleia da República, não posso deixar de registar o quanto estamos longe disto. O Reino Unido poderá sair da União Europeia, certamente irá fazê-lo, mas a Europa jamais se livrará do exemplo que vem do outro lado da Mancha, do espírito de Westminster. Democracia foi o que ali se passou ontem. Tomem nota.

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por Sérgio de Almeida Correia

Segunda-feira, 30.01.17

selva


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 (foto MDT)

Imagine que um destes dias quer ir ver um filme ao complexo de cinemas situado no Hotel Galaxy, em Macau. Se tiver necessidade de levar o carro, pode acontecer que esteja a chover e não é fácil acomodar toda a miudagem no autocarro, pois fique a saber que não vai poder estacionar o carro no parque onde sempre o fez porque agora esse parque é só para o "people from the Government" (sic). Mesmo que haja imensos lugares vazios nesse local, já sabe que vai ter de levar o veículo até ao parque da zona nova, próximo do Hotel J.W. Mariott. O leitor não é "people from the Government".

É claro que se depois pretender estacionar na zona D, que é a mais próxima dos cinemas, também não vai ser fácil, porque em dias festivos e fins-de-semana está sempre cheia, e o mais provável será ter de deixar a viatura nas zona A, B ou C. Depois, já sabe que terá que palmilhar até ao destino, coisa que o coração lhe irá agradecer.

Naturalmente que nessa altura já terá os bilhetes consigo, porque não está para correr o risco de chegar ao cinema, depois de todo o trabalho que teve em deslocar-se até lá, e não haver bilhetes disponíveis para a sessão que deseja. E aí, das duas uma: ou foi previamente ao local e já sabe que nessa operação vai perder pelo menos uma hora ou, como é mais normal, vai querer adquirir os bilhetes pela Internet, recorrendo à bilheteira online.

Pois é, só que ao querer comprar o bilhete pela Internet se depara com um pequeno problema. O leitor é residente em Macau, trabalha para a administração pública ou uma empresa local, recebe o salário em patacas e vai comprar um bilhete para uma sessão de cinema num estabelecimento comercial da RAEM. A entidade que lhe vai vender o bilhete é local e o leitor até está convencido de que ao comprar o bilhete pela Internet está a facilitar a vida ao vendedor, já que este não necessita de ter uma pessoa a atendê-lo, nem há problema com os trocos.

Pura ilusão. Fique então a saber que a Galaxy, desde logo, lhe vai cobrar uma comissão pela venda online. E aquilo que lhe pede a título de comissão, isto é, trocos para depois o patrão*, com o que saca aos cidadãos de Macau, fazer figura de generoso num cheque para a marcha da caridade, por cada bilhete adquirido online, tem de ser pago, evidentemente, em dólares de Hong Kong. Por cada bilhete adquirido online o leitor vai desembolsar HKD $ 8,00 de comissão. Se está a pensar comprar uma dúzia de bilhetes para a família e o casal amigo e os filhos que também vão, talvez lhe compense apanhar um autocarro ou um táxi, se conseguir, e pagar a viagem, em patacas. É capaz de lhe ficar mais barato do que render-se a esta rapinagem.

Bom, mas não é tudo. O problema agrava-se quando se apercebe que a Galaxy, uma empresa que tem enriquecido à custa de Macau, do Governo de Macau e daqueles que aqui vêm, para além da comissão em dólares de Hong Kong também só aceita pagamentos online na mesma moeda. Como o leitor é um "desgraçado" de um residente local, que recebe em patacas e tem um cartão de crédito em patacas, para além da comissão de aquisição online e de pagar em dólares de Hong Kong os bilhetes de cinema que adquire para uma sessão em Macau e a uma empresa da terra, ainda vai ter de pagar o câmbio dos bilhetes de cinema de dólares de Hong Kong para patacas. E no fim vai dar por si a questionar-se sobre se, sendo tratado desta forma, ainda há alguma vantagem nas actuais condições de vida em ser residente de Macau.

Chegado a este ponto, confesso que não sei se no Governo de Macau, em especial na área da Cultura, Turismo e Assuntos Sociais e afins ainda há alguém que pense. Quero dizer, que pense nestas coisas, nos problemas de Macau e das suas gentes. Eu sei que não deve ser fácil estar sempre ocupado com as encomendas de fogo-de-artifício, com os desfiles de cabeçudos, com os grilos, com as passadeiras vermelhas, com as adjudicações urgentes e as distribuições de subsídios, com a acomodação dos "VIP" (há de vários tipos, alguns inqualificáveis) nos eventos que promovem, e com tantas outras coisas, e ainda ter de reparar nestas porcarias que aborrecem a populaça e a fazem sentir estrangeira na sua própria terra.

Estou convencido de que talvez pudesse haver alguém, quem sabe se um desses advogados de confiança do Chefe do Executivo, que seja capaz de fazer a ponte entre a Administração da RAEM e aquele financiador que se preocupa tanto com a civilização do mundo e o respeito pelos outros, no sentido de ver se a Galaxy consegue fazer as coisas em termos menos descarados. Isto é, se possível cobrando estas pequenas coisas, como uns simples bilhetes de cinema vendidos online, em patacas, que é a moeda local.

Deve haver gente em Macau, penso eu, com capacidade informática para introduzir no site as correcções necessárias. A AMCM, que nunca repara nestas coisas, e o Turismo, que só está atento aos anúncios virtuais da Airbnb, eram capazes de não se importarem. E não seria por causa das comissões e do câmbio que os bancos de Macau iriam ficar mais pobres. Quem sabe se os bancos emissores não poderiam dar uma ajudinha na correcção do site da Galaxy, permitindo ao Sr. Lui vender, já agora, os seus produtos em patacas?

 

 * "(...) Member of the 9th National Committee of Chinese People's Political Consultative Conference, a member of the Selection Committee for the First Term Chief Executive of the HKSAR, a member of the Election Committee of the HKSAR and Member of Steering Committee on MICE (Meetings, Incentives, Conventions and Exhibitions)"

(texto editado e rectificado)

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por Sérgio de Almeida Correia

Quarta-feira, 25.01.17

bananas

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 (Chang W. Lee/ The New York Times)

O editorial desta manhã do New York Times reclama que o Presidente Donald Trump apresente as suas declarações de impostos. Como aí se escreve, o conhecimento dessas declarações permitirá obter a percepção dos contornos dos seus negócios e finanças, dando ao povo a oportunidade de saber se a criatura é tão rica quanto apregoa, se paga impostos e a que taxa, quanto é que dá para obras de caridade e, mais importante, quais são as suas ligações empresariais, com que gente faz negócios e qual o seu envolvimento com a Rússia e o Médio Oriente, tudo de maneira a que potenciais conflitos de interesses vejam a luz do dia.

Não creio que o visado esteja disposto a disponibilizar tais dados, pelo que os mesmos só poderão chegar ao conhecimento público por meios ínvios, do tipo "WikiLeaks". Ou através de uma fuga de informação, o que será sempre questionável de um ponto de vista ético e moral, já que a sua divulgação se coloca no mesmo plano das escutas ou imagens obtidas ilegalmente. Ainda que o interesse público, tal como no Watergate, se possa sobrepor aos meios utilizados para lá se chegar.

Mas, para além disso, e independentemente do interesse público que resida nessa divulgação, que segue de braço dado com algum voyeurismo, há um outro aspecto que está a montante da transparência e do cumprimento das regras saudáveis de uma democracia e que se encontra na resposta à pergunta de se saber até que ponto é necessário conhecer os dados que as declarações encerram para se fazer um juízo sobre o fulano. O comportamento de Trump antes e durante a campanha eleitoral, o discurso de posse, a forma como trata a mulher em público, desconsiderando-a e repreendendo-a ostensivamente, o modo como se refere a jornalistas e adversários políticos, a sua profunda arrogância e a ignorância evidenciada, bem como a de todos aqueles que o rodeiam, a começar pelo novo porta-voz da Casa Branca, uma espécie de australopiteco da era digital, levam-me a questionar a necessidade da apresentação pública dessas declarações.

A transparência ficaria a ganhar, seguramente, mas isso seria importante para se conhecer melhor o Presidente?

A amostra já foi mais do que suficiente. O que vai ser interessante de seguir nos próximos tempos será ver até quando os EUA e a sua opinião pública estarão dispostos a manter na Casa Branca um indivíduo que se comporta como um ditadorzeco sem nível de uma qualquer república das bananas, sendo que neste caso as bananas são os milhões de dólares e de estado-unidenses, de porta-aviões, de jactos de combate, tanques, drones sofisticadíssimos e armamento nuclear.

The Economist, ao fazer uma viagem pela Biblioteca e Museu de Richard Nixon, em Yorba Linda (Califórnia), perguntava se um mau homem pode ser um bom presidente. A mim parece-me que ter em Washington uma espécie de Duterte ou de Maduro louro com uma boquinha de enchedor de balões, de onde quando não sai apenas ar saem asneiras, não pode dar segurança a ninguém. Ainda menos aos seus concidadãos, mesmo numa república das bananas. Por isso, como no The Economist também se escreveu, a presidência não é o trabalho adequado para um tipo amoral. Quem diz a presidência diz um lugar num qualquer governo decente. De todo.

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por Sérgio de Almeida Correia

Sexta-feira, 20.01.17

doentio

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Xinhua News Agency | Sun, 2017-01-08 MACAO, Jan. 8 (Xinhua) -- Chui Sai On, chief executive of China's Macao Special Administrative Region (SAR), on Sunday expressed his deep sorrow for the passing of former Portuguese president Mario Soares and great condolences to his family.

Soares had deep relations with Macao and he would be remembered forever, Chui said, noting that Soares had visited Macao three times. (...)

 

Xi expressed deep grief over the passing of Soares and his heart-felt condolences to the relatives of the former president.

The Chinese president hailed Soares as a great statesman and an old friend of the Chinese people, who had made great contributions to the establishment of China-Portugal diplomatic relationship and its growth, as well as the settlement of the Macao issue.

China pays great attention to developing relations with Portugal, and is willing to work together with the Portuguese side to enhance cooperation in different fields, and further promote bilateral ties, Xi added. (...)” (XINHUA NEWS AGENCY, 10/01/2017, 22:11:47)

 

Chinese Premier Li Keqiang on Tuesday sent a message of condolences to his Portuguese counterpart, Antonio Costa, over the death of former Portuguese President Mario Soares.

On behalf of the Chinese government and the Chinese people, Li expressed deep grief to the Portuguese side and extended sincere condolences to Soares' family.

Soares was a highly respected statesman in Portugal and made great contributions to China-Portugal friendship and cooperation, Li said. (...)” (XINHUA NEWS AGENCY, 10/1/2017, 22:37:52)

 

Na sequência do falecimento de Mário Soares, homem de Estado, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, Primeiro-Ministro e Presidente da República portuguesa, que entre outras coisas nomeou os últimos três governadores de Macau, isto é, aqueles que prepararam e conduziram a transferência de administração de Macau para a R. P. China, José Pereira Coutinho, deputado da Assembleia Legislativa, achou por bem apresentar um voto de pesar pelo falecimento daquele português.

Tratava-se, através dessa forma singela, aliás prática normal nos parlamentos dos estados civilizados, de homenagear alguém que em vida foi importante pelas suas acções, enquanto político e homem de Estado, manifestando o reconhecimento pelo seu papel, pela amizade, a solidariedade e o acompanhamento na dor àqueles que acabaram de sofrer a perda.

À partida, nada faria prever aquilo que aconteceu. Em especial, depois do Presidente chinês, do Primeiro-Ministro da R.P.C. e do próprio Chefe do Executivo da RAEM terem transmitido as suas condolências, a sua “profunda tristeza” (“deep sorrow”) e “profunda dor” (“deep grief”) pelo falecimento de Soares, aproveitando a ocasião para sublinharem o seu papel no aprofundamento das relações com a China e com Macau, enaltecendo o seu contributo para a resolução de uma questão legada pela história, que era a questão de Macau.

Recorde-se que em todos os momentos a R.P.C. enfatizou a forma exemplar como a transição foi conduzida e a questão de Macau resolvida, pelo que seria da mais elementar justiça que a Assembleia Legislativa de Macau, pela iniciativa de Pereira Coutinho, do seu presidente ou de qualquer outro deputado, a começar pelos nomeados pelo Chefe do Executivo, tomasse a iniciativa de apresentar esse voto de pesar.

Estranhei, pois, quando ao final do dia de ontem (16/01/2017) ao ouvir as notícias me apercebi de que o voto de pesar apresentado pelo deputado Pereira Coutinho na sessão plenária da Assembleia Legislativa de Macau fora votado por apenas 20 deputados, de um universo de 33, e que daqueles que votaram só 13 o fizeram favoravelmente. Ou seja, menos de 40% dos deputados da Assembleia Legislativa de Macau votou favoravelmente o voto de pesar por Mário Soares. E, coisa nunca vista em relação a um morto que foi só o mais importante homem de Estado português do pós-25 de Abril, o único a quem Portugal concedeu, desde 25/04/1974, um funeral com honras de Estado, o voto de pesar conseguiu reunir cinco manifestações contra e fez com que faltassem à votação tantos quantos os que entenderam votar favoravelmente o pesar (13 deputados). Gostasse-se ou não do cavalheiro, Soares foi um dos que teve um papel mais decisivo para que a transição de Macau se processasse em termos susceptíveis de aplauso internacional e em termos que cimentassem a credibilidade dos Estados envolvidos no plano das relações internacionais.

Para além das inexplicáveis ausências e votos contra, houve duas abstenções. Quanto a estas verificar-se-á que vieram de deputados ligados à Associação dos Operários (Kwan Tsui Hang e Lei Cheng I). Abstiveram-se mas podiam também ter votado contra, visto que os cinco votos contra também vieram todos de sectores tradicionais ligados aos interesses comerciais, ao empresariado mais conservador, às associações de operários, aos moradores, à associação de educação e à das mulheres, e às ricas e poderosas associações de beneficência, como a do Hospital de Kiang Wu e a Tung Sin Tong.

Compreendo que para quem cresceu e singrou no obscurantismo, à sombra dos poderes tradicionais, enredado e prisioneiro de um sistema semifeudal como este que ainda hoje vigora nas margens do Rio das Pérolas, seja difícil compreender o significado das sinceras mensagens de condolências enviadas a Portugal, aos seus representantes e ao seu povo, pelo Presidente da R.P.C., pelo Primeiro-Ministro Li e pelo Chefe do Executivo da RAEM.

Mas mais aberrante e inexplicável é entender o que leva o Presidente da Assembleia Legislativa, que é membro do 12.º Comité Permanente da Assembleia Nacional Popular, a abster-se e o Vice-Presidente, Lam Heong Sang, a votar contra.

Eu não quero pensar que aquela gente que votou contra e a que se absteve num voto de pesar de tão grande significado afectivo para as relações entre Portugal e Macau e entre aquele país e a R.P.C. não tenha percebido que em causa não estava a revogação da lei eleitoral ou a marcação de eleições por sufrágio directo, mas apenas uma coisa tão simples quanto um voto de pesar. Uma manifestação de dor, de sofrimento e de solidariedade para com um povo amigo.

Mas ainda mais censurável foi a atitude dos treze deputados que resolveram arranjar outra coisa para a fazer à hora da votação, entre os quais quatro deputados nomeados, mais cinco vindos do sufrágio indirecto e quatro do sufrágio directo. De alguns destes já se sabia que o seu apego a Macau, à amizade luso-chinesa, e o seu apregoado patriotismo tinham tanto de sincero quanto têm de amor às patacas, aos dólares ou a qualquer outra moeda cuja cotação esteja em alta e seja susceptível de entrar nos seus bolsos. Mas quanto a outros ficará apenas a marca da ingratidão e da hipocrisia. O morto serviu enquanto serviu os seus interesses. Enquanto lhes propiciou honrarias, negócios, obras e contratos. Agora que morreu já não serve.

Tanto quanto me apercebi não houve sequer sugestões de alteração na redacção do voto ou nos seus fundamentos, de maneira a que pudesse haver consenso na hora de votar e não fosse transmitida para o exterior a triste imagem (mais uma) que deixaram.

O voto de pesar que a Assembleia Legislativa de Macau ontem aprovou com 13 ausências, 5 votos contra e 2 abstenções ficará para sempre registado como um dos mais tristes episódios daquela casa que durante tantas décadas foi um símbolo da autonomia de Macau e da vontade das suas gentes.

Hoje, a Assembleia Legislativa de Macau não passa de uma câmara anódina de composição de interesses sectoriais, onde a vontade e os interesses do povo de Macau ficam à porta para não perturbarem os interesses das elites instaladas que vivem à conta da sua exploração e consideram que a perpetuação de sistemas iníquos de injustiça e afronta aos seus cidadãos serve os interesses da R.P.C.. Não serve. E para além de não servir opõe-se ao que é pretendido pela R.P.C. para Macau.

Na fotografia que fica não é a R. P. C. que sai mal. Porque foram eles, deputados, e não a R.P.C., que não compreenderam o sentido do voto de pesar. Foram eles quem faltou na hora da chamada, quem votou contra e quem se absteve. Foram eles que quiseram ser mais papistas do que o Papa. Podiam ter manifestado a sua discordância, esclarecido as suas razões. Uma vez mais preferiram o silêncio e a fuga. Com isso mostraram quão falsas são as suas próprias juras de fidelidade a Macau e à amizade luso-chinesa. E como não são representativos nem dos interesses da população em geral, que preza a relação com Portugal e muitos estão-lhe agradecidos, em especial a Soares, por lhes ter proporcionado a oportunidade de viverem em Macau, evitando que fossem recambiados quando não tinham documentos para aqui permanecerem, nem as comunidades residentes com raízes macaenses e portuguesas, que não poderão deixar de encarar a atitude daqueles senhores deputados como mais um sinal de ingratidão.

Não para com Mário Soares, mas para com os portugueses em geral. Para com o povo português e para com todos os que falando português aqui vivem, trabalham e contribuem para a riqueza e diversidade de Macau. Mesmo os portugueses que não votaram ou que podem ter ficado com razões de queixa do Mário Soares político não deixarão de sentir esse voto de pesar que a A.L. aprovou como um voto pastoso e de falsa dor na hora de ser transmitido. Um voto de pesar doentio e sem qualquer significado, sinal de uma maior miséria moral como a que diariamente, até nestes pequenos gestos, se abate sobre a RAEM.

(Hoje Macau, 20/01/2017)

 

Nota: Fui hoje informado de que alguns dos ausentes estariam em serviço fora da Região. Admito que desses tivesse havido mais alguns que votassem favoravelmente. Pena é que tal esclarecimento não fosse prestado anteriormente em termos oficiais, de maneira a que a comunicação social também desse conta desse facto. O que, de qualquer modo, não serve de justificação para os votos contra e as abstenções. 

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por Sérgio de Almeida Correia

Quinta-feira, 12.01.17

paralelos

Não leio chinês. Aquilo que tenho aprendido não me chega para isso. Nem para coisa que se pareça. Estou por isso mesmo totalmente dependente do que me traduzem em relação ao que se vai publicando na imprensa chinesa sobre o processo do antigo Procurador, Ho Chio Meng, caído em desgraça e já desgraçado.

Curioso é, por isso mesmo, que em relação ao que se tem passado no Tribunal de Última Instância, os jornais chineses tenham tanto pudor em relatar o que lá se diz, alguns dos factos, e em apontar os nomes que vão sendo falados na audiência, dessa forma evitando identificar alguns dos intervenientes.

Uma coisa já se percebeu: os familiares da actual e da ex-Secretária para a Administração e Justiça são só isso. Isto é, "familiares". Gente sem nome. Em contrapartida já toda a gente sabe o nome do sobrinho do ex-Procurador.

Entretanto, também registara que igual pudor não têm tido com os familiares de um deputado macaense, a propósito de uma outra situação que nem sequer lhe diz respeito, mas que envolve os seus filhos, por sinal maiores e trintões, ou muito perto disso. Como se o pai tivesse de responder pelos disparates de filhos maiores e emancipados.

Não sei porquê fiquei com a ideia de que a imprensa chinesa de Macau, e alguma que se publica em língua inglesa, receia sempre alguma coisa quando se refere ao poder político, o que não sucede quando se referem a quem caiu em desgraça, sejam eles chineses, macaenses, portugueses ou outros estrangeiros.

E quanto a este caso do ex-Procurador, não há dúvida de que tratam o assunto com pinças. Tantas que até têm dificuldade em relatar para a opinião pública o que efectivamente se passa no julgamento.

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por Sérgio de Almeida Correia

Quinta-feira, 12.01.17

perspectivas

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(Doug Mills, The New York Times) 

"A bill decriminalizing domestic violence passed its first reading of the Duma on Wednesday, with 368 votes in its favor (one parliamentarian voted against it, and one abstained). Should the bill pass its second reading, now under preparation, domestic violence will only be a criminal offense if it’s considered an act of “hooliganism” or borne out of hatred."

 

Com as audições de ontem em Capitol Hill, em especial com as respostas dadas a Marco Rubio por mais uma das bizarras escolhas de Donald Trump para a sua equipa governativa, Rex Tillerson, o presidente e ex-CEO da Exxon Mobil Corporation, ficou ainda mais patente a impreparação, o comprometimento e a incompetência do escolhido para o cargo de Secretário de Estado, assim como a falta de senso de quem o indicou. Até um canal como a Fox News esclareceu os seus telespectadores que Rubio "grelhou" (sic) Tillerson. De facto, Tillerson revelou-se incapaz de dar as respostas que todos os estado-unidenses esperavam ouvir, nomeadamente quanto à futura relação com os russos, e deixou no ar muitas dúvidas sobre a futura mancebia da Casa Branca com a Rússia.

Rússia onde, por seu turno, a Duma se prepara para descriminalizar a violência doméstica, dando assim mais um passo  em direcção à idade das trevas e elementos acrescidos para o estudo do "putinismo".

Se os deputados da Duma e Putin consideram normal que as mulheres russas, as suas próprias mulheres, levem uns estaladões e uns abanões entre uns tragos de vodka nos intervalos do jogos de hóquei no gelo, desde que esse comportamento não seja interpretado como um acto de holiganismo, no ar ficará a dúvida sobre o modo como interpretarão a violência que seja exercida pelos militares e ocupantes russos sobre os "estrangeiros" e as mulheres dos outros em cenários de guerra, ocupação militar ou conflito latente, como por exemplo na Síria, na Crimeia, na Chechénia ou na Geórgia.

É claro que a preocupação de Donald Trump em matéria de conflitos de interesses ou direitos humanos é igual a zero. Como é também a de Putin, comprovada ainda recentemente no aprofundamento da sua relação com as Filipinas de Duterte, onde é o próprio presidente quem estimula uma justiça tribal contra traficantes de droga, consumidores, simples suspeitos ou qualquer cidadão que se incompatibilize com o vizinho por causa das galinhas e seja por este denunciado e morto à paulada como potencial traficante.

A Rússia prepara-se, e já mostrou toda a sua disponibilidade, para vender submarinos, aviões, tanques e armas pesadas e ligeiras a Manila. Os seus almirantes são recebidos pelo Presidente Duterte, o qual lhes deu as boas-vindas e disse que ali os militares russos serão sempre bem recebidos, podendo lá ir quando quiserem e muitas vezes com os seus vasos de guerra, nem que fosse só para "se divertirem", convite enfatizado pelo Presidente das Filipinas entre gargalhadas. Afigura-se, pois, como previsível um aumento da circulação de panças e de rublos em Makati e na infame Mabini Street, onde desaguam as adolescentes filipinas que fogem da miséria no interior e vão em busca de melhores condições de vida na capital, gente que perante o convite de Duterte aos militares, depois de ter estado ao serviço da satisfação das pulsões e bebedeiras dos tropas dos EUA estacionados em Subic Bay, poderá agora passar a servir de objecto de divertimento da armada russa com o beneplácito presidencial. 

Enquanto nos EUA o presidente eleito dá uma conferência de imprensa surreal, de tal forma que o antigo campeão mundial de xadrez Gary Kasparov afirmou que o que por lá aconteceu lhe fazia lembrar as conferências de imprensa de Putin, na Europa, que acabou de perder Zygmunt Bauman, aguarda-se o resultado do Brexit e teme-se pelo que sairá das eleições que aí vêm em França, na Holanda e na Alemanha. Ou pelo que irá acontecer durante 2017 em Israel, na Síria, no Irão, na Turquia, na África subsariana e na bacia do Chade, no Congo, no Brasil, na Venezuela, na Birmânia ou na Argentina, ou, ainda, o que sucederá com aquele urso esquizofrénico da península coreana.

O que actualmente se passa em Washington e Moscovo não pode deixar de nos levar a questionarmo-nos sobre a sanidade e seriedade desta gente que se prepara para tomar conta do mundo à custa da liberdade, da democracia, do respeito e da tolerância para com o outro. E, em especial, sobre aquele que tem sido o trabalho das elites mundiais para a sua defesa, bem como da paz e dos padrões civilizacionais que pelos menos desde o pós-II Guerra se tem procurado preservar.

As perspectivas de dentro de alguns meses o mundo ser dominado por ignorantes misóginos, mais preocupados com os vídeos que possam aparecer com as suas proezas sexuais do que com a paz mundial, por mentirosos, líderes religiosos ortodoxos, corruptos, ditadores autocráticos ou simples mentecaptos são hoje bastante elevadas e colocam já o último discurso de Obama proferido em Chicago numa espécie de museu da civilização.

Não admira que com este cenário Charles M. Blow escrevesse ontem no New York Times que ao escutar o discurso de despedida tivesse sido tocado pelo violentíssimo golpe de decência e dignidade, solenidade e esplendor, sobriedade e literacia que Obama trouxe consigo para o exercício da função presidencial, o que em seu entender será de tal forma anómalo e extraordinário que cada geração só pode aspirar a ter isso uma única vez num presidente.

o que Obama fez em matéria ambiental já o guindaria a um lugar único na história dos EUA, mas saber que se vai embora e nos vai deixar a todos entregues a essa fauna que se perfila no horizonte não é coisa que nos tranquilize.

Não quero aqui assustar ninguém, mas apenas recordar que este cenário reforça a expectativa no trabalho do novo secretário-geral das Nações Unidas. Estará, pois, na hora de António Guterres, lá no seu pedestal de Nova Iorque, se quiser com a ajuda do padre Melícias e das suas orações, isso é lá com ele, nos mostrar que Deus ainda existe. E que não dorme.

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por Sérgio de Almeida Correia

Quarta-feira, 11.01.17

iniquidades

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NOTAS RODOVIÁRIAS

O interesse pelos assuntos da Região, a discussão pública das matérias de interesse público e a justa indignação cívica pelo que de mais aberrante sobressai da actuação do Governo e do que se tem legislado, salvo momentos pontuais, não têm constituído ao longo dos anos marcas da participação dos cidadãos de Macau nas questões que lhes dizem respeito. Tornam-se por isso mais noticiadas as acções que fujam ao padrão e que se traduzam em manifestação pública de descontentamento. Foi o que aconteceu no passado dia 8 de Janeiro com um desfile convocado por um grupo de "cidadãos revoltados" que contou com o apoio de alguns deputados e a logística da Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau a propósito da entrada em vigor dos Despachos do Chefe do Executivo n.ºs 525 e 526/2016, ocorrida ao cair do pano sobre o ano transacto.

Reparar-se-á que as poucas manifestações de desagrado que se têm verificado têm resultado, a pretexto da protecção de interesses muito específicos, alguns de duvidoso interesse comunitário, da introdução de maiores factores de distorção, dentro de um espaço relativamente pequeno, dos sinais de equilíbrio, proporcionalidade, justiça e bom senso que durante anos aqui prevaleceram.

A contestação gerada pelos despachos do Chefe do Executivo acima referidos, que agravaram de forma leonina alguns dos valores da Tabela de Taxas e Preços da Direcção dos Assuntos de Tráfego e para a remoção e depósito de veículos nos silos e parques de estacionamento, foram desta vez o mote. Mas vejamos o porquê da situação.

Qualquer agravamento de taxas ou coimas é sempre encarado com desconfiança pelos cidadãos. Se as primeiras são tecnicamente a contrapartida pela prestação de um serviço, as segundas constituem um modo de penalizar atitudes e/ou comportamentos que não são suficientemente graves para serem considerados crimes e cujo desvalor não será visto, nem por quem governa e as decide, nem pelo sentimento maioritário da comunidade, como sendo susceptível de colocar em causa os seus valores essenciais. Por isso, também, muitas vezes, embora sejam vistas com desagrado pelos destinatários não geram grandes reacções públicas, nem levam as pessoas à rua com cartazes e palavras de ordem para vincarem o seu desagrado.

O problema acontece quando o agravamento dessas taxas e coimas é apenas a face mais visível da falta de bom senso de quem governa e o resultado de condutas autocráticas e incompetentes por parte dos poderes político e legislativo que têm repercussão directa e imediata no quotidiano dos cidadãos, que estando, à partida, predispostos a acatarem as decisões legitimamente emanadas das autoridades competentes, num dado momento sentem que aquelas violam o sentimento de justiça dominante e colocam em xeque o fiel da balança em que assentam os equilíbrios sociais.

Posto isto, é compreensível a indignação de quem saiu à rua para protestar contra os despachos do Chefe do Executivo. Se os aumentos em si já são perfeitamente absurdos, constituindo argumento para mentecaptos vir justificar aumentos de taxas e multas que vão dos 50 a mais de 1000% com a falta da sua actualização, sabendo-se que não há inflação que o justifique, a generalidade dos cidadãos não teve aumentos dessa ordem de grandeza, não houve qualquer melhoria na prestação dos serviços em causa e a qualidade de vida da comunidade é infinitamente pior, torna-se ainda mais aberrante pensar que esse tipo de medidas seria aceite pela população sem ondas quando a actuação das autoridades tem sido mais penalizadora para segmentos específicos, em regra os mais desfavorecidos e com menos meios para fazerem face aos constantes ataques que lhes são dirigidos pelo poder político e empresarial, os quais colocam em causa a sua capacidade de compreensão e sancionam em termos gravosos e irremediáveis a sua qualidade de vida.

Tudo estaria bem se os cidadãos ao longo dos anos tivessem contado com uma gestão séria, sensata e competente da coisa pública. Se fosse esse o caso, hoje estariam todos mais disponíveis para reconhecerem o esforço de quem governa e compreenderem o sentido de algumas decisões. Infelizmente, não foi o que aconteceu. E que teima em persistir.

Daí que se torne mais difícil aceitar decisões como as que actualmente são objecto de discórdia quando:

a) Em relação aos auto-silos públicos concessionados qualquer pessoa vê que estes estão entregues ao lixo e ao desleixo dos concessionários, que há anos fazem o que querem, sem manutenção, sem investimentos, com renovação insuficiente da atmosfera, com acessos imundos, muitas vezes servindo de depósito de lixo, receptáculo de urinas várias de animais de diversas espécies e de guarida de toxicodependentes, com serviços que continuam a só dar recibos a pedido, constituindo um acto de coragem circular por eles respirando cheiros vários e muitos fumos;

b) A caça à multa é insistente e permanente a qualquer hora do dia em relação aos veículos privados e motociclos, durante a semana, muitas vezes à noite e a intervalos regulares, aos sábados de manhã, domingos e feriados, junto de zonas residenciais e urbanizações privadas (exemplos: One Oasis, Taipa, Rua das Árvores do Pagode, Estrada de Seac Pai Van), não raro em locais onde praticamente não há circulação nesses dias e horas e onde os veículos não causam qualquer estorvo, à porta de escolas, de mercados e de supermercados onde não existem locais públicos de estacionamento;

c) Se vêem múltiplas vezes veículos da PSP que circulam e estacionam em transgressão, como na imagem que acompanha este texto (obtida no sábado, 08/01/2017, entre as 10 e as 11 horas no acesso a um túnel de grande circulação), não utilizando sinais de mudança de direcção, circulando aos ziguezagues pelo meio do trânsito, muitas vezes parando em transgressão para irem multar outros veículos ou estacionando na entrada de auto-silos (ZAPE);

d) Os autocarros das concessionárias de transportes públicos e casinos e os veículos pesados, camiões e betoneiras, não respeitam nada nem ninguém, param onde querem e como querem, entram de qualquer maneira nos cruzamentos, nas vias com mais de uma faixa atiram-se imediatamente para a faixa direita e aí permanecem, como quando circulam nas pontes, impedindo ultrapassagens que acabam por ser consumadas pela esquerda, sistematicamente ignoram os sinais de mudança de direcção, colocando em risco a circulação dos outros utentes da via, e em situações de congestionamento impedem a entrada de outros condutores que estão em vias laterais de acesso, mostrando toda a sua falta de civismo, compreensão e tolerância para com os outros;

e) Enormes nuvens negras continuam a sair impunemente dos escapes de veículos pesados e de táxis;

f) As intervenções pontuais de agentes reguladores causam mais transtorno do que fluidez ao trânsito (caso típico é o das rotundas, como junto ao Hotel Galaxy, no Zape ou na Taipa);

g) São retirados e eliminados locais de estacionamento e não se colocam parquímetros em sítios onde eles deviam existir;

h) Não existe qualquer planificação decente das obras que são levadas a cabo sendo quase permanentes os transtornos à circulação causados pelas múltiplas empresas concessionárias, IACM e/ou DSOPT;

i) O alcatrão continua a estar em péssimo estado na maior parte das ruas (recentemente algumas foram melhoradas) e pontes, são centenas e centenas de tampas de esgotos e de empresas concessionárias que estão desniveladas, as intervenções são realizadas "às três pancadas" e são inúmeros os locais onde o piso abateu sem que haja uma intervenção correctiva;

j) Os táxis continuam sem rei nem roque, rudes, sujos e poluentes, são insuficientes e há horas do dia em que simplesmente não existem porque vão todos comer e render à mesma hora (entre as 18.30 e as 20:00);

l) É normal que táxis, carrinhas e carros de luxo dos "casineiros" parem em segunda fila e à porta de restaurantes de luxo, estorvando o trânsito sem que nada lhes aconteça;

m) Inexiste um sistema decente de transportes públicos, cujos autocarros circulam cheios às mais diversas horas do dia ou não existem quando são necessários, amontoando-se as pessoas nas paragens, na maioria trabalhadores que pretendem ir trabalhar ou regressar a casa no final de mais uma jornada;

n) O sistema de multas está totalmente informatizado, os tribunais continuam a aguardar a informatização, o papel acumula-se e os vendedores de papel e fotocopiadoras continuam a alegremente enriquecer prejudicando o ambiente.

O rol poderia continuar, pois que é imenso e múltiplas as razões de queixa dos cidadãos. Para já basta.

Por aqui se vê como aos poucos vai-se quebrando a harmonia social que fez de Macau um caso único de convivência entre as suas múltiplas comunidades.

Seria bom que os poderes executivo e legislativo e as autoridades policiais, de vez em quando, pensassem nestas coisas. E que quando o fizessem tivessem presente que é sempre melhor desligar o fogão e levantar a tampa para sair o vapor antes da panela de pressão explodir. Mas cuidado, porque se quiserem depois voltar a acender o lume para o polvo ou a dobrada acabarem de cozer estes já não vão amolecer. Nestas situações, a panela pode não explodir, mas depois há dentes que já não resistem ao esforço.

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por Sérgio de Almeida Correia

Quinta-feira, 05.01.17

fanicos

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À medida que prossegue o julgamento do antigo Procurador de Macau, Ho Chio Meng, vai-se vendo o ridículo em que caíram o sistema político, judicial e administrativo da RAEM ao fim de apenas dezassete anos de autonomia.

Antes do Natal já se tinha percebido que quando o arguido começasse a devolver, ao jeito de quem está a usar uma funda, os sacos de plástico cheios que a acusação lhe atirava, e sem que o arguido tivesse tido condições efectivas de analisar o respectivo conteúdo antes do julgamento, havia o sério risco deles atingirem alguém. E, como qualquer granada, rebentarem na viagem de volta com a simples deslocação do ar ou na queda ao chegarem ao destino, o que, em qualquer caso, iria deixar a bancada de quem o está a julgar cheia de detritos. E as orelhas dos ocupantes do Palácio da Praia Grande e da Assembleia Legislativa a arderem.

O estilo da defesa seguida por Ho Chio Meng, em relação ao qual não foram deixadas alternativas pela forma como a acusação se comportou e como tentou minar a sua própria defesa, incinerando-o em praça pública antes do início do julgamento e querendo fazer dele o bode expiatório de todos os desmandos e mais alguns cometidos ao longo de mais de uma década, é perfeitamente compreensível atento o estado calamitoso que foi atingido pela Administração da RAEM e a forma desavergonhada e isenta de qualquer decoro como ao longo de todo este tempo se foi dando cabo da reputação da RAEM, deixando-se transmitir a imagem para o exterior – só possível devido às práticas instituídas e que continuaram a ser religiosamente seguidas – de que Macau não passava de uma choldra governada por meia dúzia de senhores e seus mainatos, que aproveitavam todos os meios e mais alguns para se promoverem e enriquecerem não olhando a meios e sem cuidarem dos interesses dos seus concidadãos.

Agora, depois de conhecidos os episódios das "cunhas", do despedimento sumário do sobrinho do arguido pelo marido da mesma Secretária para a Administração e Justiça que fez um dos telefonemas (não havia mais ninguém para desempenhar essa tarefa?), sem que o familiar a favor de quem a Dra. Sónia intercedeu junto do ex-Procurador tivesse sido alvo de idêntico tratamento, e também das rocambolescas histórias das madeiras, da casa de função, das obras e rendas e da sala de descanso para docentes (se o que transpirou cá para fora dito por Ho Chio Meng é verdade, ou seja de que esse privilégio não era exclusivo do M.P., existindo outra sala idêntica, então devia ter sido logo ordenada a extracção de certidão das suas declarações e aberto um novo inquérito para apuramento da veracidade do que disse e eventual instauração de novos processos), começa a ser evidente o desconforto da acusação e dos julgadores. A lama com que os sacos de plástico foram cheios já escorre pelas escadas do Tribunal de Última Instância e vai espalhar-se pela fachada do edifício e ruas adjacentes, provocando muitos acidentes, numa espécie de lava saindo de um vulcão que inevitavelmente inundará a Assembleia Legislativa e o Palácio da Praia Grande.

Ao dizer em plena sessão de julgamento que as práticas do Ministério Público, enquanto dirigido por si, em nada diferiam daquelas que foram sempre seguidas pelo Chefe do Executivo e pelo Governo da RAEM em matéria de adjudicações, justificando-o nos mesmos termos em que o principal responsável da RAEM o fez perante a AL para esclarecer as razões por que desde 2000 era sempre a mesma empresa – por sinal pertença de um senhor deputado fala-barato que considera normal que os maridos dêem uns tabefes nas suas mulheres quando estas se portam mal – que fazia as obras na Sede do Governo, isto é, com razões de "segurança, confidencialidade e de garantia da qualidade do serviço" (Ponto Final, 05/01/2017, p. 7), o que só por si já seria hilariante, Ho Chio Meng desferiu um míssil que acertou em cheio na torre de comando do porta-aviões. 

Vê-se que em cada sessão de julgamento a acusação vai ficando um pouco mais estraçalhada. Mas, como muitos já pressagiam, mesmo com a acusação em fanicos ninguém se atreverá a assumi-lo, e o julgamento vai ser um estrondoso sucesso interno que acabará com a condenação do "corrupto" e os intervenientes a felicitarem-se mutuamente. Seria estranho que depois do circo que se montou o arguido não fosse condenado. Externamente ficará para sempre a pairar, justa ou injustamente, a ideia de uma justiça formatada a pedido, incapaz de assegurar garantias sérias de defesa dos arguidos que se encontram na situação de Ho Chio Meng e à qual se recorre de cada vez que é necessário fazer uma purga para limpar a imagem, o que será extremamente mau para quem preza e cultiva a independência da sua função, se guia por padrões de justiça, isenção e imparcialidade e não merecia ir parar ao mesmo saco.

A R. P. da China poderá não se importar com o resultado final. E até aplaudi-lo, sublinhando que formalmente a justiça de Macau funciona. Mas esse será mais um passo em direcção ao abismo, à desacreditação da autonomia, e os cidadãos de Macau e o Mundo irão desconfiar de tudo isto.

Não sei como, nem com quem, será possível obviar a este estado de coisas, mas se eu fosse um responsável político da R.P.C. começaria já a pensar nas consequências do modo como tudo tem sido conduzido em Macau desde 20/12/1999. Questionaria pessoas e procedimentos. E tratava de arrepiar caminho, corrigindo o que há a corrigir, devolvendo a confiança à população da RAEM e a reputação às suas instituições. Só que isso não se faz com os mesmos de sempre, com paninhos quentes, palmadinhas nas costas e juras de fidelidade e amor à pátria. A China devia perceber isto, pois nada tem a ganhar com a actual situação. Nem ela, nem a população de Macau. Não é difícil compreender isto.

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por Sérgio de Almeida Correia

Sábado, 31.12.16

khmers (6)

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A minha viagem podia ter terminado esta manhã. O que me levara ao Camboja e há tantos anos me predispunha a fazer a mala e partir constituía um capítulo encerrado. Tratava-se agora de fazer a gestão dos dias. Não iria sair por Phnom Penh. Voltaria a Siem Reap. Não fazia sentido ficar ali.

20161222_173521.jpgNo tempo que me faltava fui então visitar a parte do Palácio Real que se encontra aberta ao público. O Rei Norodom Sihamoni, ex-embaixador da UNESCO, divulgador cultural junto da embaixada em Paris e instrutor de dança clássica, que frequentou a escola primária e secundária na Checoslováquia e depois estudou dança, música e teatro no Conservatório Nacional de Praga e na Academia de Arte Musical desta cidade, subiu ao trono em 2004, depois da abdicação do seu Pai, e continua a nele residir. Vale sempre a pena uma visita à sala do trono, cujo chão é em prata, metal abundante na região; um passeio pelos jardins, apreciando os frescos nas paredes e já à saída as salas com as liteiras reais (tenho dúvidas que o termo liteira seja o mais apropriado) e com a recriação das cerimónias de ascensão ao trono. O Museu Nacional é também interessante, mas quem vem de Siam Reap, esteve antes em Angkor Wat e no Museu D'Angkor, a sensação é a de que se está a passar de um Château Petrus para um honesto Cabernet chileno.  

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Ainda tive oportunidade de deambular pela cidade sem destino, subir a Wat Phnom, o ponto mais alto da cidade, conhecer a história do seu fundador, ir à Biblioteca Nacional, apreciar as belíssimas estações dos correios e fazer uma refeição na varanda do F.C.C. de que vos falei anteriormente. 

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A experiência foi desagradável. O profissionalismo e requinte do F.C.C. em Siem Reap têm muito pouco a ver com aquela espécie de tasca existente em Phnom Penh, com mesas de tampo de pedra para turistas que vão jantar de calções e chinelam pelo estabelecimento fora, em que é preciso solicitar o guardanapo, insistir que não é o de papel, mandar de volta o arroz branco para ser substituído pelas batatas fritas que haviam sido pedidas, enquanto o bife esfria, e dizer que os talheres da entrada que ajudaram a deglutir os camarões e as lulas não são os adequados para a carne. Local de encontro de viajantes e aventureiros, o F.C.C. de Siem Reap é bem mais calmo, tem outra clientela, apesar de praticar os mesmos preços (as ementas são iguais), e também outro requinte, resultando do aproveitamento da antiga mansão do governador francês. Os dois valem bem uma visita, quanto mais não seja pelo simbolismo. 

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Fui igualmente visitar a galeria de Vann Nath, o último sobrevivente da S-21, aberta ao lado de um restaurante da sua família, o Kith Heng, no n.º 169 da Rua 33-B. A história da sua vida dava para vários livros e filmes. Artista plástico, portanto um tipo que pensava pela sua cabeça e por isso persona non grata da canalha, foi um dos que foi mandado para a S-21. Aguardava pela sua hora quando se lembraram que os seus dotes podiam ser úteis ao partido. Mandado chamar obrigaram-no a fazer pinturas. Vann Nath contou depois que sabia que se o que fizesse não agradasse seria enviado para os killing fields, mas teve a sorte do responsável gostar do que ele pintou. Os seus quadros são retratos pungentes da sua história e de tudo aquilo a que assistiu. Entre outros títulos, é Chevalier da L'Ordre des Arts et des Lettres desde 2004 e em 2007 recebeu o Human Rights Award pela sua coragem enquanto artista face à perseguição política. 

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Phonm Penh ficara para trás. Regressado a Siem Reap tratei de organizar um final de férias interiormente mais calmo. A solução foi fazer um passeio em Kompong Pluk, um daqueles lugares que não existe. Trata-se de uma aldeia situada num braço do Grande Lago (Tonle Sap) e com acesso directo a este, toda construída sobre estacas, com escola primária e secundária, uma igreja, templos budistas, construções com uma altura de cerca de oito metros por causa das cheias do Mekong durante a época da chuvas. O percurso é feito a partir de um canal rodeado de pântanos e pejado de pequenas embarcações, que atravessa a aldeia até uma zona de mangal, onde a quem se deixa enganar, depois daquilo que pagou para o transporte e para a viagem de barco (40 USD), ainda lhe pedem para mudar para uma embarcação tradicional, a remos, sem quaisquer condições onde um tipo tem de ir de joelhos ou sentado numa esteira, não se podendo mexer para não desequilibrar aquela espécie de chata estreita e comprida. Há para lá um local de comes e bebes e uma espécie de maioral que fala inglês nessa plataforma onde estão pintados uns símbolos da ONU e da UNESCO, mas que suspeito serem uma aldrabice. Como eu protestasse por me quererem fazer mudar de embarcação e pagar mais qualquer coisa para a "comunidade" e tivesse dito que já tinha pagado tudo o que houvesse a pagar e que não pagava mais nada para ir até ao lago assistir ao famoso pôr-do-sol, rapidamente voltámos a embarcar na embarcação que nos trouxera, com o mesmo rapaz e seguimos o nosso caminho. 

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A calmaria, a paz, a luminosidade reflectida nas águas vastas do lago, com uma superfície de 2.500 km2 que pode multiplicar-se por dez na época das chuvas, vale bem a visita. No local há muitos pássaros e até pequenas gaiolas para criação de crocodilos, uma das poucas indústrias da região. Quem quiser também pode ir visitar as quintas, tal como na Tailândia onde se faz a sua criação, ou dar passeios de elefante. 

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No final da visita a Kompong Pluk reencontrámos o nosso motorista de Siem Reap, um homem de 53 anos precocemente envelhecido, único sobrevivente de uma família de 11 exterminada pelos Khmer Rouge. Falou-me da sua vida durante o tempo de Pol Pot, do seu recrutamento para a organização juvenil da terra e, depois do fim da guerra, da sua reconversão à indústria turística. Primeiro com um tuk-tuk, nos últimos anos com um carrinha Toyota. Mostrou ser um homem conformado com a sua sorte. Casara, tinha dois filhos a estudar na universidade que não acreditavam no que ele lhes contava sobre os tempos de Pol Pot. Explicou-me que os programas escolares omitem esse período e as novas gerações desconhecem a verdade. Sugeri-lhe que levasse os filhos à S-21, ficou de pensar no assunto e na melhor forma de os convencer. Mostrou-se agradecido pela visita que tínhamos feito porque se não fossem os estrangeiros eles não sobreviviam. Referiu conseguir fazer cerca de 100 USD por mês e que partir de meados do mês já era difícil aguentar-se. Nunca teve 1000 USD no banco e disse-me que os jovens querem partir para Singapura, Canadá, EUA. Poucos regressam. A corrupção continua a ser muito grande e descrente virou-se para mim perguntando-me como poderia se diferente se o primeiro-ministro Hun Sen era um ex-khmer e as eleições eram chapeladas sistemáticas em que faltava a luz e as urnas contendo os votos eram trocadas durante a noite.

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Os últimos dias serviram para descontraidamente passear por Siem Reap, falar com as pessoas, senti-las e de certo modo agradecer-lhes tudo o que me deram nos dias que por lá passei. Duvido que na vida que me resta lhes consiga pagar o que recebi em afabilidade, calor humano e experiência de vida. Talvez um dia regresse para ir aos locais onde não fui; quem sabe se para passar uns dias tranquilos nas ilhas do golfo, ao largo de Sihanoukville.

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Quando há poucos dias parti em direcção ao Aeroporto Internacional de Siem Reap, para empreender a viagem de regresso, voltei a sentir a emoção. Como se ali sempre tivesse vivido e passado com aquela gente o que eles viveram. Como se fosse um deles.

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Do avião vi a cidade partir. Também ela me deixou partir mais sereno. Inconformado, é certo, seguramente mais adulto. E mais dorido vi o Mekong perder-se nos seus meandros. Lembrei-me então de uma frase de Hemingway, mas que já vi dizerem ter sido apropriada por Ursula K. Le Guin e que diz o seguinte: "It is good to have an end to journey toward; but it is the journey that matters, in the end". 

É isso mesmo. Seja de quem for a autoria da frase. Isso também não é importante. Bom Ano para todos vós.

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(P.S. Se puderem vejam isto: https://www.youtube.com/watch?v=tpaDOkI4VzQ)

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por Sérgio de Almeida Correia

Sexta-feira, 30.12.16

khmers (5)

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A noite passada, antes de me deitar, aproveitei para ler alguns jornais locais e pôr-me em dia com as notícias. Quando chego a qualquer local, um dos meus primeiros gestos é tentar obter a imprensa. Há hotéis que logo pela manhã deixam os jornais à porta dos quartos e se há coisa que goste de sentir é o seu cheiro a novo e a tintas frescas ao começar o dia. Tem sido assim desde que me conheço.

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O Khmer Times, The Cambodia Daily e o Phnom Penh Post têm edições coloridas em língua inglesa. Fico a saber que oficiais superiores das Reais Forças Armadas do Camboja* intimidaram a Tailândia a cessar os disparos junto à fronteira sobre os cambojanos que pretendem atravessá-la a salto à procura de trabalho e melhores condições de vida. A Assembleia Nacional pode vir a interrogar, a pedido da Comissão Parlamentar de Direitos Humanos, o ministro do Interior, Sar Kheng, pelo assassinato do analista político Kem Ley. O assassino de uma major das Forças Armadas, com 21 anos e estudante da Real Universidade de Phnom Penh, que inicialmente estava sujeito a uma moldura penal máxima de 15 anos, foi condenado a prisão perpétua por homicídio premeditado e o juiz-presidente do Tribunal Municipal de Phnom Penh “reverted the charge (...) and sentenced Mr. Kimmheng to life imprisionment, without explaining his decision” (The Cambodia Daily, 22/12/2016). O Partido Popular do Camboja (PPP), liderado pelo primeiro-ministro Hun Sen, reunido em congresso em Koh Pich, “outlined a program of social reforms”, num pacote de políticas que, entre outras coisas, envolve o controlo dos preços dos produtos agrícolas, a distribuição de terras ao abrigo de concessões sociais, ajudas aos pobres, desburocratização da obtenção de certidões de nascimento, de casamento e de óbito e de identificação, preços controlados na electricidade e o aumento do salário mínimo para 1 milhão de Riéis (250 USD). As eleições comunais são no próximo ano. Hun Sen foi ministro dos Negócios Estrangeiros entre 1979/1986 e depois entre 1987/1990. É primeiro-ministro desde 1996. Foi segundo primeiro-ministro até ao golpe de 1997 e desde 1998 é primeiro-ministro. Estamos no final de 2016 e o senhor vai no quinto mandato. Por aqui fica tudo explicado sobre a oportunidade das medidas anunciadas.

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Tomado o pequeno-almoço, ao ar livre e à beira de uma piscina, fomos ter com o condutor de tuk-tuk com quem tínhamos combinado o dia. Era outro. Disse que o irmão não podia ir e lhe tinha telefonado a pedir que fosse ter connosco. Seguimos na mesma.

O dia foi reservado para ir, finalmente, ao que ficou tristemente conhecido como os “killing fields”. O seu nome oficial é Choeung Ek e foi tudo menos uma prisão normal. Está a 7,5 km de Phnom Penh, contados a partir dos limites da parte sul da capital. O percurso é todo ele um suplício que atravessa um mar de pó, percorrendo zonas comerciais à beira da estrada com ofertas de massagens de 60 minutos por 9 USD, lojas de bugigangas, de ferro velho, cantinas e hostels miseráveis. Sempre com muito lixo largado à beira da estrada, atirado para os campos e em riachos. De repente uma curva para a esquerda e continuamos por um caminho de terra batida entre hortas e esgotos onde nalguns pontos mal cabem dois carros. Por fim lá chegámos, debaixo de um imenso e longínquo céu de um azul profundo, com um sol escaldante e uma humidade elevada. Uma estufa.

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Entre 1975 e 1979 cerca de 17.000 homens, mulheres e crianças foram presos e torturados na S-21, código de uma escola na capital que se chamou Tuol Svay Prey High School. Em 1975 foi tomada pelos homens da segurança de Pol Pot e redenominada "Security Prison 21". Da S-21, prisão secreta do regime, saíam depois os camiões com os presos de olhos vendados, entre as 20 e as 21 horas, que iam até Choeung Ek, uma das 196 prisões do regime de Pol Pot. Dali, da S-21, só sete dos que lá entraram saíram com vida, escapando milagrosamente à morte, sendo libertados depois da queda dos Khmer Rouge. Também lá ficaram nove estrangeiros incluindo um navegador neo-zelandês, Kerry Hamill, e o seu amigo canadiano, Stuart Glass, que tiveram o azar de entrar em águas do Camboja quando o primeiro realizava o seu sonho de dar a volta ao mundo num veleiro.

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Choeung Ek é um local de um silêncio aterrador. Com entrada por um terreiro que está agora ladeado de casas, um estacionamento para carros, motas e tuk-tuks e tascos incaracterísticos. Ainda hoje está murado e com arame farpado. Só depois dos vietnamitas entrarem e expulsarem os khmer rouge é que foi possível saber o que aconteceu. Em 1980 foram exumados 8985 cadáveres, muitos ainda com as mãos atadas e as vendas no que foram os seus olhos. As valas comuns estão umas a seguir às outras, devidamente assinaladas.

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Tal como os nazis, os khmer rouge mantinham registos meticulosos dos seus crimes pelo que é possível saber com rigor o que aconteceu. As fotografias são imensas e hoje o fotógrafo principal, Nhem En, vive descansadamente com a família no norte do país, onde ainda sonha, de acordo com o que me foi transmitido, vir a ser governador provincial. Na S-21 foi inclusivamente criado um centro de documentação com o apoio da Universidade de Yale para investigar e documentar os crimes daquela canalha. Em 1997 esse centro deu lugar a uma organização independente que desde então tem traduzido e compilado documentos, mapeado as valas comuns e procedido à preservação dos espaços para que a memória, que não é só a deles mas também a nossa, não se perca.

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A visita é toda ela feita em silêncio. Um silêncio muito diferente daquele que vivi na beleza de Angkor Wat e que aqui é apenas cortado pelos comentários do magnífico guia-áudio que me foi entregue. Há guias-áudio em múltiplas línguas, com excepção do português, para acompanharem os visitantes ao longo das várias estações do percurso, numa espécie de Via Sacra. A locução é rigorosa, cristalina, irrepreensível. Os factos e os depoimentos são-nos atirados sem filtro. Por vezes ouve-se apenas a música que era tocada num volume altíssimo nos altifalantes de Choeung Ek na altura das execuções, para assim se abafarem os gritos das vítimas, os tiros e o ruído daquelas.

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Há bancos à sombra das árvores e arbustos, onde as pessoas são convidadas a sentarem-se para ouvirem o guia-áudio. A maioria dos que lá encontrei eram jovens, estudantes, muitos ocidentais, alguns asiáticos. E havia viajantes, como eu, que queriam saber um pouco mais do que aquilo que vem nos livros. Existe no local, logo após o início do percurso que está devidamente demarcado, um pavilhão com fotografias e múltiplas explicações onde é passado um documentário com as imagens do que se encontrou quando em 1979 se tornou possível entrar e sair dali. Porque para se perceber o que ali aconteceu e a forma como aquele inferno era gerido impõe-se a compreensão da cadeia de comando estabelecida pela liderança khmer rouge.

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No seu topo, além de Pol Pot, figuravam Nuon Chea, Ta Mok, Son Sen e Khiev Sam Pan. Como muitos saberão, Pol Pot, o líder máximo, era filho de um rico agricultor khmer, Penh Saloth, que tinha mais de 12 hectares de terra. Nascera com o nome de Saloth Sar, em Kompong Thom. Uma irmã era consorte real, o irmão Song era oficial do protocolo real, e ele foi enviado pelos pais para viver com estes e ali ser educado. Frequentou uma escola básica da elite católica e aos 23 anos recebeu uma bolsa do governo francês e foi estudar para Paris onde se juntou ao Partido Comunista Francês. Depois de reprovar em três anos consecutivos, casar-se-ia com Khieu Ponnary, a primeira mulher cambojana a obter um baccalauréat, regressando ambos ao seu país em 1956. Mentiroso compulsivo, até no dia do casamento mentiu quanto à sua idade, dizendo que tinha 21 anos em vez de 28. Nunca admitiu o seu nome verdadeiro e a sua biografia oficial, publicada em 1977, diz que era agricultor, omitindo os anos passados no Palácio Real, em Phnom Penh, e a passagem por França. Por aqui se vê a qualidade da besta. 

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O regime estava organizado em termos tais que a última ordem seria sempre dada pelo “Irmão n.º 1”. Tudo o que fosse feito tinha a sua aprovação, ainda que escasseiem as ordens escritas. Son Sen era o encarregado da Segurança Nacional e da Defesa e o sinistro Duch, que aparece no julgamento com uma camisa da Ralph Lauren, o comandante da S-21. Foram estes, depois de Pol Pot, os responsáveis pelo genocídio. Sobre isto existem provas escritas. Os documentos eram todos enviados para a sede do partido e vistos por Son Sen, havendo imensos memorandos com anotações e “confissões” dos prisioneiros, muitas vezes a tinta vermelha. Obtidas as instruções do Comité Central era produzida a lista dos que seriam executados. Residentes nas cidades, escritores, jornalistas, professores, estudantes, ninguém escapava. 

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Penso que sobre isto não vale a pena dizer mais nada. A informação é abundante e só escapou porque na fuga a canalha não teve tempo para destruir as provas. A média diária de executados era variável e podia ir de algumas dezenas a centenas. Duas a três vezes por mês lá saíam os camiões cheios de prisioneiros da S-21. Não levavam gado. Transportavam seres humanos de todas as idades. E estes não morriam com gás. Aquela gente era mais refinada. Estiletes pelo crânio, machados, bebés e crianças agarrados pelos pés e atirados contra uma árvore, homens de joelhos que depois eram agredidos com barras de ferro no pescoço até começarem a sangrar (...), tudo era possível. A seguir aos choques eléctricos na S-21, às celas minúsculas, às vasos de barro cheios água onde lhes mergulhavam a cabeça enquanto aguardavam pelas “confissões”, às barras de ferro onde lhes enfiavam os tornozelos, seguia-se a viagem para Cheoung Ek. Os químicos que lá foram encontrados costumavam ser usados para regar as vítimas, muitas ainda vivas e em profunda agonia, desfazê-las e evitar os cheiros, por vezes inevitáveis quando os ventos sopravam mais fortes. Kong San, um ex-soldado da divisão 703, que cultivava arroz nas redondezas, testemunhou que quando sentia o cheiro pensava que era o de cachorros mortos. Terminadas as execuções procedia-se à confirmação das vítimas para se ter a certeza de que ninguém ficara vivo.

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Choeung Ek não era, nesses tempos miseráveis em que noutros locais desse mundo a Humanidade ainda vai insistindo, uma brincadeira de crianças. Também não é na actualidade um passeio turístico. Não é lugar para turistas que vão à procura de sol, bebidas exóticas e ansiosos para se atafulharem de imitações rafeiras das marcas famosas que chineses e angolanos ricos disputam na Avenida da Liberdade. Choeung Ek é uma viagem ao que de mais inaudito existe na alma humana. Uma viagem às nossas entranhas sem bilhete de volta. Mais de trinta volvidos continua a não ser um local para pessoas sensíveis. Proporcionalmente, e em termos de barbarismo, o que aqueles filhos da puta fizeram ao seu povo, a gente de carne e osso, a seres humanos como nós, suplantou em muito o que aconteceu com os nazis ou o que se sabe dos períodos mais negros do estalinismo. E tudo aconteceu tão perto de nós. Há tão pouco tempo. E quando nós, portugueses, discutíamos salários, nacionalizações, a reforma agrária, líamos a Gaiola Aberta e víamos o Último Tango em Paris. Como se este fosse outro mundo.

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Antes de me retirar fui ao stupa (pagode) que ali foi erigido para honrar a memória das vítimas. Deixei lá um ramo de flores brancas e amarelas. Alguém entregou-me uns pivetes que se juntaram a outros e que por lá ficaram a arder. Fi-lo quase maquinalmente, absolutamente horrorizado, destroçado na minha condição de homem. Com uma angústia que não sei descrever.

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O regresso ao tuk-tuk e o caminho de volta pareceram-me intermináveis. Emocionei-me protegido pelos óculos de sol. Fui olhando para a passagem sem nada ver. Sem saber o que dizer a quem estava ao meu lado, sem saber o que pensar. Uma vez mais o silêncio. Um silêncio dilacerante. Sempre o silêncio até chegar a Phnom Penh e o nosso motorista nos largar à porta da S-21. Podia tê-lo evitado. Não o fiz. Sentia que era preciso cumprir a última fase do caminho. Por respeito para com todos aqueles que por ali passaram. Por respeito para comigo. Percorri as quatro alas em silêncio. Subi e desci aquelas escadas frias, feias, despidas. Entrei nas celas, vi os instrumentos de tortura, as caixas que garantiam as descargas junto às camas dos reclusos. Vi milhares de fotografias e li os testemunhos. Até vi nas paredes o arrependimento tardio dos suecos que num momento em que regime precisou fizeram de idiotas úteis da sua propaganda para o Ocidente promovendo as virtudes que aquela canalha desprovida de princípios e de valores nunca teve. Sempre em silêncio. De que outra forma poderia ser? Daqui para a frente não escrevo mais nada. Imaginem uma página em branco onde está lá tudo. Tudo o que não consigam imaginar, mas que vos deixe nauseados, moribundos. Não há palavras que o descrevam. Poupo-vos ao relato de tudo o que encontrei na S-21. A minha parceira não aguentou mais. Preferiu descansar de tanta violência e aguardar-me no jardim, enquanto lia e escrevia uns postais. Para ela já não havia mais nada para ver. Tinha visto tudo. Eu nunca vira nada assim e ainda não estou certo de ter visto o que vi. 

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Quando no final desse dia cheguei ao meu hotel e me despedi do nosso prestável motorista sentia-me sem forças. Como se tivesse levado uma sova de proporções épicas. Transpirado, nojento, senti-me imundo. Dei umas braçadas na piscina do hotel, tomei um duche como que desejando desinfectar-me, purificar-me, perdoar-me pelo que não fiz. Absolutamente destroçado pelo que vi, esmagado pelo asco, pela dimensão do sofrimento daquela gente. Senti vergonha e nojo da minha espécie. Não sei como algum dia sairei daqui. Sei que após esse dia 22 de Dezembro não sou o mesmo. E também não sei que sentido se há-de atribuir ao Natal depois da viagem que fiz. Pode ser que um dia alguém me explique. Presentes? Caixas de Multibanco exauridas? Presépios? Reis Magos? Sacos a abarrotar de compras? Pinheiros enfeitados com luzinhas coloridas a piscar? As crianças merecem-nos. Têm direito ao sonho. Mas nós? Nós, nós ainda estamos tão longe do Natal... 

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Ninguém volta a ser o mesmo depois de passar por ali. De ouvir e de ver aqueles registos. Não há olhos que cheguem para tanta escuridão. Não há lágrimas que nos sustentem. Não há nada que fique de pé. Não há nada que resista. Nada.

Nunca mais vai ser Natal. Tenho a certeza. Espero um dia ser perdoado. Por quem é que eu já não sei.

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[* - Antigamente escrevia-se Cambodja. Foi assim que aprendi. Os brasileiros ainda o fazem. Há especialistas que dizem que se pode grafar das duas maneiras. Contudo, de acordo com o Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa e o meu velho prontuário aparece sem o "d", pelo que daqui para a frente assim será.]

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por Sérgio de Almeida Correia

Sexta-feira, 30.12.16

khmers (4)

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Se viajar é também uma arte e um prazer, há algumas regras que devem ser seguidas para se extrair o máximo da jornada. Paul Theroux, um reconhecido escritor de viagens, escreveu um dia que há três regras básicas para o viajante – aquele que não sabe para onde vai, ao contrário do turista que não sabe onde esteve – e que se resumem a viajar por terra sempre que possível, de preferência sozinho e tomando notas. Como não gosto de voar e só o faço por obrigação sabia que não iria de avião para Phnom Penh. Contudo, estava indeciso sobre a melhor forma de seguir caminho, se de barco, descendo o Mekong até à capital, se fazê-lo por estrada.

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Descer o rio teria sempre o aliciante de poder tirar boas fotografias, mas revelava-se uma opção pouco gratificante porque me iria afastar das pessoas, da estrada, do contacto com a terra e com os campos ao longo do caminho. As referências sobre as embarcações que fazem esse percurso não eram as melhores, nem em termos de salubridade nem de segurança. Por estrada, as alternativas eram várias mas acabámos por fazer essa parte da viagem num dos autocarros da Giant Ibis, uma excelente companhia, com um registo impecável em termos de segurança, um site na Internet e que que providencia o transporte dos seus passageiros dos hotéis para os terminais. Os veículos da Hyundai que utiliza são relativamente novos. Tem um serviço de bordo melhor do que algumas companhias aéreas a que tenho recorrido, bons motoristas, pessoal atencioso e, inclusivamente, distribui logo pela manhã uns magníficos brioches e os nossos conhecidos caracóis com passas, acompanhados de uma garrafa de água. Os autocarros têm wi-fi, ar-condicionado, são limpos e cómodos. Por 15 USD iria fazer o percurso de 340 km entre as duas cidades, sabendo que iria ter três paragens pelo caminho, uma delas para o almoço. 

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A escolha foi acertada. Vi uma paisagem diferente daquela que conhecera na região de Siem Reap e Angkor Wat e pude ir apreciando as estradas, o casario, as dezenas e dezenas de escolas, vendo o movimento das pessoas e veículos, os pais à espera dos mais novos, os mais velhos seguindo a pé ou de bicicleta, alguns de mota. A estrada nacional está em muito bom estado e o percurso, que acaba por durar cerca de 6 horas e 30 minutos, faz-se bastante bem.

20161221_173137.jpgAo longo do caminho também aproveitei para ler mais alguma coisa, dando particular atenção ao livro de Ben Kiernan ("The Pol Pot Regime – Race, Power, and Genocide in Cambodia under the Khmer Rouge, 1975-1979"), de leitura obrigatória para quem quer saber alguma coisa sobre o que ali se passou quando em Portugal se defendia a democracia e a liberdade na Alameda. Ao mesmo tempo ia observando as pessoas, recordando trechos do filme de Joffé e pensando na cidade que iria encontrar.

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O corrupio de pessoas, motociclos, tuk-tuks, carros, bicicletas e autocarros de turismo carregados de chineses e coreanos aumentava à medida que nos aproximávamos de Phnom Penh. A confusão nas ruas à beira dos cruzamentos era grande e rapidamente compreendi que a cidade ocupava uma área bastante extensa e tinha uma população muito substancial. Mais tarde esclareceram-me que deve andar pelos dois milhões de almas. thumb_P1080020_1024.jpgAo chegar a Phnom Penh dirigi-me de imediato ao meu hotel, situado mesmo junto ao Palácio Real e ao Museu Nacional, próximo do Boulevard do Príncipe Sihanouk (Preah Sihanouk Blv.) e na zona onde até 1975 ficava a Embaixada dos EUA. Foi só o tempo de largar a bagagem, refrescar-me e começar a palmilhar a cidade. 

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Visitar o Palácio ou o Museu nesse dia estava fora de questão, visto que fecham cedo (17 horas), pelo que agendei essas visitas para mais tarde e tirei partido da localização do hotel para conhecer as ruas adjacentes, dar um rápido passeio pela marginal junto ao rio, e fazer a pé todo o percurso desde ali até ao Monumento da Independência. De caminho vi dezenas de estudantes e candidatos a monges, da Universidade Budista de Phnom Penh, vi as novas embaixadas altamente protegidas e fui olhando para os rostos, tentando perscrutar nos sorrisos que me cruzavam o que teria sido a sua vida há algumas décadas.

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De novo me voltaram à cabeça as cenas da película de Roland Joffé, em especial as das filmagens no interior da embaixada e da chegada dos Khmer Rouge às suas portas. Embora o filme tivesse sido rodado na Tailândia, as casas, as ruas e a arborização que nele aparecem correspondem na perfeição ao que encontrei em Phnom Penh.  

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A cidade tem uma localização privilegiada junto ao rio, espraiando-se já pela outra margem, de onde se pode ver um excelente pôr-do-sol sobre os telhados do Palácio Real. Os problemas do lixo, da higiene urbana e dos cheiros, de que me apercebera em Siem Reap, tinham aqui continuação. Existe um conjunto de edifícios de arquitectura colonial, muitos deles degradados ao lado de outros excelentemente preservados, que conjuntamente com as esplanadas, numerosos cafés e muitos e bons hotéis e restaurantes dão-lhe um toque ocidental e mediterrânico. A luz durante os dias em que ali estive foi imensa, em especial durante as manhãs, o que me trouxe um misto de satisfação e saudade pela inigualável e penetrante luz das manhãs do meu país. 

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O contraste entre alguns muito ricos, os ricos e os pobres é visível, notando-se que os mais abastados têm traços étnicos chineses. Estes e os de origem vietnamita eram os principais habitantes da cidade e foram os primeiros a ser dizimados e expulsos para o campo, como a maioria da população das cidades, obrigada a trabalhos forçados e de "reeducação" pela cegueira resultante de uma amálgama de extremismo ideológico, racismo e xenofobia que aniquilou etnias e classes urbanas, acusando-as de traição em resultado da contaminação provocada pelas influências estrangeiras. Apesar da cidade estar a crescer, ainda não atingiu o ritmo de desenvolvimento do vizinho Vietname. O novo Casino Naga tem atraído um conjunto de investidores e jogadores chineses e de outras regiões da Ásia, como Singapura e Coreia do Sul, pelo que é natural que nos próximos anos a cidade dê um salto. Deverá ser essa a razão para a Rolls Royce já ter um representante e expositor na cidade.

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A população aprecia os jardins, gosta de ficar na cavaqueira, fumando e bebendo, nos passeios, vendo-se imensas crianças. Crianças e jovens, pois que praticamente não se vêem velhos. Alegres, correndo de um lado para o outro atrás das suas bolas, envergando camisolas contrafeitas de clubes de futebol europeus e até da nossa Selecção Nacional, emulando Cristiano Ronaldo nos seus toques de bola. 

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Durante os dias em que andei por Phnom Penh conheci mais alguns restaurantes. Gostei bastante do La Pergola, no hotel The Plantation, onde pernoitei. Um óasis confortável no centro da cidade, que recomendo vivamente, decorado com gosto, com um bar de tapas no rés-do-chão, um ambiente cosmopolita, de gente simples mas que se vê ter mundo e maneiras pela maneira como come, como fala, como se comporta perante os empregados e pela educação com que lida com os outros com que se cruza. Esses são os primeiros sinais de civilização de um homem. 

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Estive também no afamado Chinese House, do qual não fiquei com saudades. Pena que um local diferente e bem decorado, popular entre os expatriados, tenha uma cozinha com uma confecção tão má e tão pretensiosa. Caro para a qualidade. Mau para se amesendar. Salva-se o bar do rés-do-chão, por sinal às moscas na noite em que lá fomos. 

Amanhã será um novo dia. Não sei o que irei encontrar, embora me tenha vindo a preparar para tal. Veremos se depois do que vi e li não ficarei demasiado maltratado.  

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por Sérgio de Almeida Correia

Quinta-feira, 29.12.16

khmers (3)

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O desenvolvimento de Angkor ficou a dever-se ao génio do Rei Jayavarman II (790-835) que inicialmente estabeleceu a capital em Roluos, depois mudada para as montanhas Kulen. Até então a história dos khmers era uma história de pequenos estados independentes, por vezes transformados em impérios, mas sempre durante períodos relativamente curtos. Consta que desde o período neolítico a região foi ocupada devido à fertilidade dos solos em redor do chamado Grande Lago, da riqueza piscícola e abundância de água, mas foi a partir de 1908 e das descobertas da Escola de Arqueólogos Franceses do Extremo-Oriente, em particular de Jean Commaille, que escreveu em 1912 o primeiro guia de Angkor, que se tornou conhecida. O que hoje se vê é apenas uma pequena amostra do que existiria, sabendo-se das inscrições nos relevos dos templos que, por vezes, as construções se atrasavam durante anos devido à ausência de fundos para serem concluídas. 

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Não vou aqui descrever em detalhe o que por ali vi, importa talvez dizer que quem quiser explorar a região de Angkor e visitar os templos, declarada Património da Humanidade desde 1992, após a celebração dos Acordos de Paris, tem primeiro de munir-se de um bilhete, cujo preço varia entre os 20 USD, para um dia, e 40 USD, para três dias, sendo possível obter passes de uma semana. Convém que quem lá for não se iluda e não se arme em chico-esperto, resolvendo começar a circular livremente por toda aquela vasta área para poupar no custo do bilhete, confiando na sorte, porque na estrada e à entrada das zonas onde estão os principais templos é feito o controlo dos bilhetes pela Polícia do Turismo, bilhetes que depois são frequentes vezes pedidos para verificação da identidade do titular e confirmação de que a foto dele constante, tirada na hora, corresponde ao visitante que se apresenta. O controlo é amigável e simpático para os viajantes sem deixar de ser rigoroso para os infractores que sejam apanhados sem bilhete.

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Depois de três dias passados nesta região, onde aproveitei para observar os fabulosos frescos, respirar todo aquele verde e visitar o Museu Nacional D'Angkor, reservando para outra ocasião o centro dos Artisans Angkor e as oficinas dos ceramistas, comecei a aperceber-me do grau de destruição e rapina provocado quer pelo regime de Pol Pot, e após a queda deste, em 1979, quer pela ocupação vietnamita que se lhe seguiu. Muitas das figuras das belíssimas apsaras (ninfas), que representam na perfeição a generosa e enigmática beleza da mulher cambodjana, das cabeças de esculturas centenárias, das divindades, serpentes e leões foram mutiladas, decepadas, desfiguradas. Galerias inteiras foram destruídas, provavelmente para estarem hoje a ornamentar casas e jardins fora do Cambodja. Algumas peças foram entretanto recuperadas depois de terem aparecido ao fim de muitos anos em leilões e exposições por esse mundo fora, mostrando a importância da cooperação internacional na defesa do património cultural que a todos pertence.

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Antes de rumar ao Sul ainda ensaiei uma primeira aproximação ao que foram os anos de guerra e genocídio, primeiro com a ditadura do direitista Lon Nol, que alegadamente chegou ao poder através de um golpe apoiado pela CIA e os EUA, acusação que alguns dizem ter falta de provas e que foi rejeitada por Kissinger, para quem os EUA terão sido apanhados de surpresa, e depois com o infame regime de Pol Pot.

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Quanto a Lon Nol é duvidoso que não tivesse obtido prévio apoio dos EUA atenta a forma como as coisas aconteceram, a começar pelas manifestações promovidas pelo próprio governo para justificar o golpe militar e o suporte que os EUA deram de imediato ao novo poder. Muito resumidamente, o que aconteceu foi que na sequência de uma votação na Assembleia Nacional cambodjana, Lon Nol derrubou a monarquia e atirou o Príncipe Norodom Sihanouk para o exílio. Invocando poderes extraordinários, aquele que era ao tempo primeiro-ministro, tomou o poder, proclamou a República Khmer e substituiu uma monarquia clientelar e corrupta, que abrira o porto de Shianoukville aos vietcongs, pela instauração de uma férrea ditadura, igualmente corrupta, dirigida por um nacionalista místico e chauvinista que queria ser tratado por “Black Papa” devido à cor da sua pele, o que segundo o próprio faria dele um verdadeiro khmer. O golpe conduziu a uma intervenção directa na Guerra do Vietname e à perda de mais umas centenas de milhares de vidas entre cambodjanos, com particular incidência sobre as comunidades dos etnicamente de origem vietnamita, inocentes ou culpados, que viviam no Norte, e que iam sendo atirados ao Mekong à medida que eram eliminados na tentativa de conter o avanço comunista.

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Fui então visitar o denominado “War Museum” que se encontra instalado na Região Militar de Siem Reap, a poucos quilómetros da cidade. Recebido à entrada pelo seu responsável, com o tradicional traje negro dos antigos guerrilheiros khmer, perguntou-me se precisava de guia, tendo eu retorquido que não. O que eu já sabia dispensava-o de me esclarecer sobre aquilo que ali estava patente. Material militar desactivado, tanques, granadas, lança-roquetes, morteiros, praticamente todos os modelos de metralhadoras ligeiras, com destaque para as AK-47, pistolas dos mais diversos fabricantes e modelos, incluindo israelistas, até um helicóptero e um velho Mig russo usados em combate, dispensavam explicações adicionais por parte de qualquer guia. De um lado e do outro vários barracões com fotografias, memórias dos conflitos, registo de tragédias pessoais e colectivas e um vasto conjunto de todos os tipos de minas que se encarregaram de ceifar, e que continuam a ceifar, centenas de milhares de vidas, de toda a espécie de gente, novos e velhos, homens e mulheres, gente inocente. Tudo ali exposto em fotografias, cartazes, relatos biográficos e relatórios para que a memória não se perca por falta de informação. Para todos e a começar pelos jovens locais, para que se possam aperceber do que foi o passado, do preço da paz e do drama do seu povo.

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Existe também um museu dedicado às minas a 25 km de Siem Reap. Não estava nos meus planos lá ir até porque a guerra contra as minas continua no presente, não faz parte do passado. Há ainda vastas áreas minadas, admitindo-se que haja cerca de seis milhões de minas (este número não é engano) espalhadas pelo país. Há minas colocadas pelos vietnamitas durante a ocupação, usando mão-de-obra forçada local, ao longo dos 700 km da fronteira com a Tailândia. Há minas colocadas pelos Khmer Rouge nas florestas, a partir do momento em que foram afastados do poder para protegerem os locais onde se refugiaram, e há minas colocadas pelos governo nacional para proteger cidades, vilas e aldeias e as suas próprias posições. São por isso frequentes os avisos de perigo, incluindo em caminhos aprazíveis pelas florestas e nalgumas zonas das províncias de Banteay Meanchey e Oddar Meanchey, por exemplo, num país que tem o mais alto número de amputados devido às minas. A média de amputados mensal é actualmente de cerca de 15, num total superior a 40 000, agravando-se a situação na época das chuvas, em especial nas zonas rurais, onde os mais atingidos são os desgraçados dos agricultores.

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À sombra das árvores, com os pássaros e mosquitos por companhia, com um guia nos seus trinta anos que mostrava nos olhos e no rosto, para um pequeno grupo de turistas que nos seguia, os pergaminhos da sua história pessoal e a do seu pai, mais uma vítima dos Khmer Rouge, todo aquele material exposto tornou-se inofensivo. Está ali a memória da sua infância e da sua juventude, se é que de tal se poderá falar. Longo e doloroso foi o caminho que o trouxe até àquele cemitério. O que para trás ficou será sempre irrecuperável. Em vidas e em sofrimento. Não há preço para isto.

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por Sérgio de Almeida Correia

Quarta-feira, 28.12.16

khmers (2)

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O aeroporto de Siem Reap fica relativamente perto da cidade. Em vez de um táxi tinha um simpático e rechonchudo motorista local à minha espera, disponibilizado pelo primeiro hotel onde fiquei, que logo tratou de acomodar a escassa bagagem que trazíamos no tuk-tuk que nos iria transportar. Foi este o primeiro contacto com o mais popular meio de transporte daquelas terras. Táxis, daqueles que conhecemos, não vi um único e desconheço se a Uber já se aventurou por tais paragens, apesar de também ter andado em jipes da Lexus.

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A cidade é pequena e só começou a desenvolver-se quando se tornou conhecida depois da descoberta de Angkor Wat. Ao tempo sob domínio francês, consta que terá recebido os primeiros turistas a partir do início do século XX. O Grand Hotel d´Angkor abriu as suas portas em 1932. Hoje tem à volta de 200.000 habitantes, de acordo com o último censo (2008), mas os que chegam para visitar a região são cada vez mais. O maior fluxo chega da China, que à sua conta representa cerca de 80% dos visitantes, mas também os há do Japão, da Coreia do Sul, do subcontinente indiano, australianos, estado-unidenses e europeus, em especial franceses e ingleses.

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Aqui apercebi-me do primeiro grande problema do país: o pó. O pó está em todo o lado e o ideal quando se circula de tuk-tuk, entre milhares de outros veículos idênticos, autocarros de excursionistas, camiões velhos e automóveis que largam enormes nuvens negras, é ir prevenido com uma máscara para a boca e nariz ou um lenço que nos proteja as vias respiratórias. Os tradicionais lenços khmer, em algodão, são baratos e custam entre 3 e 6 USD, dependendo do tamanho, o que é ridículo face à sua qualidade. O dólar tem curso legal, dentro ou fora das cidades. É normal só haver preços em dólares e o câmbio informal em qualquer lado é de 40.000 Riéis para 1 USD, o que me levou a arrepender-me de ter trocado alguns dólares no balcão de câmbios do aeroporto a 38.000. 

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A oferta hoteleira e culinária é vasta. Não faltam hotéis acolhedores das cadeias internacionais, alguns depositários da escola colonial, e pequenos locais de muito bom nível, com pessoal qualificado, afável e de uma educação extrema em quaisquer circunstâncias, a preços muitos razoáveis para a qualidade do serviço. Eu prefiro hotéis calmos e sossegados, sem a confusão dos excursionistas. Em Siem Reap e Phnom Penh há imensos. Os hotéis-boutique estão na moda. Aqui, onde iniciei a minha jornada, são quase todos “D´Angkor” ou de “Indochine”, ou as duas coisas, para todas as bolsas e com diferentes níveis de sofisticação, mas convém ter cuidado porque por vezes o nome ilude uma espelunca a 20 ou 25 USD ou um hostel entre os 5 os 10 USD para aqueles que não se importam de viajar sem tomar banho e convivem sem pruridos com a abundante fauna rastejante, roedora e voadora. Sinais, aliás, de outro gravíssimo, e de mais difícil solução, problema nacional: o tratamento dos lixos. Jazendo a céu aberto, sem contentores, por vezes dentro de sacos plásticos largados à beira dos passeios, sujeitos à fúria da cachorrada e dos desgraçados que remexem o seu interior, na maioria dos casos atirado para a beira dos passeios, das estradas ou dos cursos de água ou, nesta altura do ano, os leitos secos dos ribeiros, assume contornos assustadores, o que explica epidemias, doenças e o cheiro nauseabundo de que quando em vez nos assole.

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O assunto não é tabu, mas o convívio de diferentes tradições culturais e heranças religiosas naquela zona de cruzamento ente o hinduísmo e o budismo, onde a cristandade sempre teve dificuldade em se afirmar, não se afigura fácil. Talvez isso também explique a inexistência de discussões, de vozes alteradas, gritos, gestos obscenos ou empurrões, em cidades onde o trânsito é caótico, a confusão imensa, não raro com vacas e cães que circulam pachorrentamente pelo meio da via, mas que apesar disso flui, e onde se vêem piscas-piscas, braços esticados e raramente se ouvem buzinas. As que se ouvem não são de protesto, tratando apenas de saudar ou avisar quem circula que convém manter o rumo e o ritmo para não haver uma desgraça. 

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Normalmente, onde há especiarias é possível comer bem. O Cambodja não foge à regra e é possível aliar a tradicional culinária khmer, o saborosíssimo peixe amok no coco, sem pele nem espinhas, os caris vermelhos e verdes, o camarão, o coco, os lagostins, as perninhas de rã ou as vieiras com a excelência da herança culinária francesa, as influências vietnamita, chinesa, indiana e tailandesa com os sabores tradicionais, onde pontifica o incontornável travo de “lemon grass”, a erva aromática que produz um óleo deliciosamente perfumado a limão que é de utilização obrigatória em muitas cozinhas asiáticas. Aqui é especialmente saborosa e o seu uso, como noutros locais onde estive, vai muito para além da culinária, sendo frequente o seu aproveitamento em saboaria e cosméticos, chás, bebidas refrescantes, produtos medicinais e como óleo para alguns tipos de massagens, já que a massagem tradicional khmer é a seco.

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Não há nada de mais confortável do que entrar numa casa recuperada, com a velha arquitectura colonial, ou com as linhas simples e modernas de algumas das novas construções, num spa ou casa de massagens, num quarto limpo, decorado de forma simples, impregnado com a luz e as cores do fim de tarde, de onde se liberta o refrescante aroma a “lemon grass”. Uma bênção para os sentidos depois de um dia de tuk-tuk, subindo e descendo as escadarias de templos, percorrendo museus vivos e palácios com a roupa colada ao corpo, observando a vida nos fascinantes mercados onde é possível tudo comprar e obter, de objectos de prata a peças para motas, de sedas a pedras semi-preciosas, lado a lado com os vernizes para as unhas, as estatuetas de cobre ou as fardas escolares, antes de um bom banho ou de umas braçadas retemperadoras numa qualquer piscina escondida num jardim interior disfarçado pela abundante vegetação que os cerca. 

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Na maioria dos locais onde merendei ou jantei vi muitas cozinhas abertas e asseadas, mesas limpas, toalhas de pano e jogos americanos sem manchas. Mesmo em restaurantes de estrada, onde a comida ficava a desejar, como num que é habitual parar para quem vai por estrada para Phnom Penh e cujo nome “Banyan Tree” homenageia a frondosa árvore da frontaria e não pretende confundir-se com a afamada cadeia de hotéis de luxo, não se vê louça lascada ou há talheres encardidos como é habitual encontrar em muitos dos nossos tascos com pretensões a restaurantes finos. Em Siem Reap há várias casas que se recomendam. Para além do F.C.C., o famoso clube dos correspondentes estrangeiros, também com aposentos para viajantes, elogiado pelo The Guardian e por onde passaram tantos escritores, jornalistas e simples curiosos, de que falarei noutra altura e que não se confunde com o seu homólogo da capital, gostei do Embassy, em King´s Road, perto do Hard Rock, numa casa só de mulheres, com uma Chef oriunda da escola do Sofitel e com experiência anterior em Singapura, que tem um excelente menu de degustação, onde sem qualquer rebuço me substituíram o pato que aparecia lá pelo meio pela carne decente de um animal sem penas. 

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Em lugares onde o Sol nasce muito cedo é também natural que tudo termine mais cedo. É por isso normal que se jante mais cedo, por volta das 20:00, e a vida nocturna também antecipe os seus períodos de abertura e termo, o que é gratificante para quem gostando de dias intensos não dispensa estar sentado numa esplanada acolhedora, ouvir um pouco de música entre dois dedos de conversa com outros viajantes, trocando experiências e conhecimentos na língua que se proporcionar.

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por Sérgio de Almeida Correia

Terça-feira, 27.12.16

khmers (1)

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A primeira sensação foi de estranheza. Ali, tão longe, enquanto aguardava pela pouca bagagem que normalmente transporto em viagem, as imagens que tinha diante dos meus olhos eram do Aeroporto Humberto Delgado, da velha Portela, em Lisboa. Imagens de rostos e paisagens familiares, de aviões da TAP na descolagem e de intermináveis e desesperantes tapetes rolantes carregados de malas maltratadas e viradas ao contrário. Rapidamente percebi que se tratava de um filme promocional dos actuais concessionários do aeroporto onde acabava de chegar. Os mesmos que gerem Lisboa. Coincidência, claro, nem por isso menos estranha naquele momento. Mas era o que eu via e disso não podia fugir.

Há uma frase de Proust que faz parte do 5.º volume de À La Recherche du Temps Perdu, publicado a título póstumo, que é muito conhecida entre os amantes de viagens e que reza o seguinte: “Le seul véritable voyage, (…), ce ne serait pas d’aller vers de nouveaux paysages, mais d’avoir d’autres yeux, de voir l’univers avec les yeux d’un autre, de cent autres, de voir les cent univers que chacun d’eux voit, que chacun d’eux est (…)”. Nunca como este Natal essa citação foi tão apropriada. Ver com outros olhos. 

O falecimento em Julho passado de Sydney Schanberg, mais um no imenso rol de gente que desapareceu e de catástrofes que marcaram o ano que se prepara para sair, despertara-me a vontade de empreender uma viagem que me ajudasse a compreender um pouco melhor a história e a cultura de um povo marcado, em especial nos anos mais próximos, por regimes opressivos, instabilidade política, conflitos armados e um interminável sofrimento. O impacto que o filme de Roland Joffé rodara sobre a amizade entre o falecido Dith Pranh e Sydney Schanberg, o repórter do New York Times que cobriu em 1975 a queda de Phnom Penh às mãos dos Khmer Rouge, fizera-me pensar, durante muitos anos, na hipótese de um dia conhecer mais de perto aquela que foi a dura realidade vivida por um povo às mãos dos seus próprios filhos.

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Decidi, pois, rumar até ao reino que herdou as tradições do velho império Khmer, outrora estendendo-se desde a Birmânia, actual Myanmar, até ao Vietname, hoje comprimido entre os seus vizinhos (a Tailândia, o Laos e o Vietname) e as águas quentes do golfo da Tailândia. E fi-lo entrando pelo norte do país para depois fazer o percurso em direcção à capital.

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Também há muito que sabia da existência dos templos de Angkor e foi exactamente por aí que comecei, partindo de Siem Reap à sua descoberta, aproveitando a estação seca e as temperaturas mais amenas desta altura do ano.

Não se descreve nalgumas linhas a sensação de esmagamento que causa ao viajante a apreensão da imponência, grau de desenvolvimento e arrojo estético da civilização que floresceu entre os séculos VIII e XIII naqueles terras férteis e ricas em minerais irrigadas pelo Mekong. O que a vista alcança perde-se na imensidão do trabalho esculpido na pedra. Nos detalhes de um tempo cuja engenharia atravessou séculos, praticamente incólume, na forma como se encaixam as pedras que sustentam as abóbadas, nos quilómetros de frescos que recriam lendas, crenças e mitos, batalhas históricas, que se perdem na arenga de guias que aprendem português pela Internet em quatro meses e se fazem entender na perfeição depois de correrem o seu cardápio de idiomas ocidentais enquanto tentam oferecer os respectivos préstimos a quem chega. Sempre sorrindo, com bons modos, educadamente.

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Sem a confusão de outros locais, podendo livremente deslocar-me por entre paredes e corredores, saltando de um local para outro, percorrendo a pé extensas zonas de floresta, perdendo-me na frescura do verde e na quietude dos lençóis de água, onde nenúfares, lótus e uma imensidão de outras flores e plantas vai lutando por um espaço à superfície, vendo as horas correrem silenciosas, tão discretas na sua passagem como os séculos, ali tomados pelos frondosos caules, repousando à sombra de copas monstruosas e prisioneiros de raízes maiores e mais poderosas que o aço, impondo-se à pedra e ao lento trabalho de esculpi-la a que tantos se dedicaram.

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Ali estão elas, aquelas árvores que o tempo não parou, senhoras de tudo, desafiando a trindade suprema de Xiva, Vixnu (Vishnu) e Brama, desafiando a serenidade intemporal de Buda, desafiando os homens, dizendo que estão ali. E que ali permanecerão. Guardando o tempo, marcando-o, assistindo à sua erosão na pedra, mostrando a irreversibilidade do domínio da natureza, da nossa sujeição às suas leis, escutando o seu próprio eco, enquanto uma brisa mansa percorre as ramagens mais altas, entrecortada pelo chilrear de alguns pássaros ou a sombra de uma ave de rapina.

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Lá longe, ao fundo, vê-se o fumo elevar-se no ar. Sente-se agora o cheiro intenso do incenso que arde, da lima e do jasmim. As cores fortes do céu, os aromas do fim de tarde. E à minha volta o silêncio. A vida. O silêncio que antecipa a chegada da noite e o nascer do dia. O silêncio que só alguns ouvem, o silêncio que se prolonga e estica o tempo. O silêncio que nos dá luz, que nos retempera e acalma. O silêncio, sim, o silêncio. 

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por Sérgio de Almeida Correia

Quinta-feira, 15.12.16

recomendações

palacio-governo.jpgNo próximo dia 20 de Dezembro cumprir-se-á mais um ano sobre a transferência de Macau para a R. P. da China. O 17.º aniversário está já marcado pelo julgamento do antigo chefe máximo do Ministério Público, o ex-Procurador Ho Chio Meng.

O julgamento ainda agora começou, mas tudo que aquilo que já aconteceu nesse processo e o que se está a passar recomendam que neste final de 2016 se olhe com alguma atenção para o caso e para o que este revela sobre o estado de putrefacção da governança da RAEM.

Se no chamado “caso Ao Man Long” o principal protagonista, com a família em paradeiro desconhecido, longe da R.P.C., assumiu uma posição de arguido silencioso e servil, predispondo-se a arcar sozinho com os mandos e desmandos do seu exercício do poder, o mesmo não sucede com o ex-Procurador.

Ciente de que aquilo que aconteceu o compromete irremediavelmente, bem como aos familiares e amigos, e colocará a nu as fragilidades do sistema político e judicial da RAEM, Ho Chio Meng mostrou desde o início não estar disposto a ser imolado na praça pública, assumindo o papel de mais um bode expiatório da forma censurável, ética e moral, por vezes também com contornos criminais, como têm sido conduzidos os destinos de Macau pelos titulares de alguns altos cargos.

Os mais velhos ainda se recordam daquilo que aconteceu em Macau durante décadas, dos abusos a que a sua governação se prestou por parte de alguns dirigentes de má memória e da forma miserável como se portou aos olhos dos cidadãos desta terra e dos seus interesses, em especial no cunhado “último terço” do período de transição.

Esperava-se, por isso mesmo, pese embora o modo como foi criada e se consolidou a elite política local, assente numa teia de relações familiares e empresariais que sempre contou com o poder político português e chinês para se fortalecer e ilegitimamente enriquecer, que a transferência de responsabilidades para a R.P.C. pudesse alterar o figurino habitual do uso e abuso dos poderes públicos e da proeminência dos cargos para moderar a gula devoradora de meia dúzia de titulares de cargos políticos, de altos funcionários, de uma imensidão de arrivistas, sofrendo da síndrome do carro com motorista e sopa de fitas, e de empresários, normalmente sempre os mesmos e com assento em tudo que é conselho consultivo, de administração ou de gaiteiros.

A China vai cumprindo a sua parte dentro daquilo que já era esperado, com as evasivas habituais, mas genericamente em respeito pela população de Macau e pelos compromissos assumidos. Os seus desejos foram prosseguidos, coisa que não se pode dizer dos seus interesses e dos da população de Macau. Nem uns nem outros não foram devidamente defendidos com a autonomia e o auto-governo da RAEM. As sementes era más e sem sol os frutos amadureceram ruins e amargos. Hoje caem de podres.

Quem não cumpriu a sua parte foi a elite política, económica, financeira e empresarial de Macau que aproveitou a dádiva autonómica para alargar a sua rede clientelar, fazendo do abuso um direito e do dever uma circunstância de facto manipulável de acordo com as conveniências do momento.

Os resultados deste modo de estar na vida e desta forma de governar governando-se, estiveram escondidos e foram disfarçados ao longo de anos, começando aos poucos a emergir. O lixo vem sempre à superfície. O caso Ao Man Long foi só o primeiro.

Podia ter servido para alguma coisa. Uma alteração de procedimentos, uma maior consciencialização dos problemas, uma mudança de rumo que dignificasse o exercício do poder e desse razões a Pequim para não se preocupar com o que aqui se passava. Infelizmente, di-lo a História, de elites corruptas pouco se pode esperar a não ser mais corrupção e uma dose acrescida de desvario.

Quando se vê o estado de degradação a que chegaram as instituições que formalmente garantem a autonomia da RAEM, a podridão que atingiu os mais diversos sectores, em que do concubinato ostensivo entre os titulares dos poderes públicos e privados e a promiscuidade entre o poder político e os seus companheiros de viagem é de tal forma incontornável e descarada, temos o processo de Ho Chio Meng para mostrar à população quão indigno é o sentido do exercício do poder por parte de alguns.

Sobre os aspectos estritamente jurídicos do processo há aí quem tenha a obrigação legal de se pronunciar. E outros há mais habilitados que já o fizeram com oportunidade e perspicácia sem com isso comoverem um poder judicial que segue impante nas suas práticas.

A mim preocupam-me os aspectos éticos e morais da forma como a autonomia tem sido exercida, o que me leva de jacto às bizarras justificações apresentadas pela Secretária para a Administração e Justiça sobre um telefonema que fez em tempos ao ex-Procurador a propósito da candidatura de um familiar a um emprego no Ministério Público.

O esclarecimento prestado à imprensa pelo gabinete da antiga responsável pela protecção dos dados pessoais é de molde a colocar em causa toda a confiança no sistema e no seu desempenho anterior. Dizer que em 2008 a Dra. Sónia Chan recomendou um familiar ao ex-Procurador para trabalhar no M.P., mas ao mesmo tempo negando qualquer pressão sobre o destinatário do telefonema, esclarecendo que nem sequer tinha possibilidade de exercer pressão sobre ele e, "muito menos" pretender qualquer "troca de interesses”, acrescentando que acreditava que no processo de recrutamento seriam mais consideradas as necessidades reais do serviço, as habilitações, académicas e a experiência, "entre outros requisitos”, servia então para quê? Combinar uma noitada de karaoke?

Não sabemos quais fossem esses "outros requisitos". Nem se entre estes se inclui o ser familiar ou amigo de membro do Governo ou da elite política, mas a verdade é que a Dra. Sónia Chan só pela explicação que deu já devia ter sido recompensada com umas férias em Moruroa. Ela, a porta-voz do gabinete e toda a família.

As explicações da Secretária deixam sem perceber para que foi então o telefonema. Se não visava constituir uma forma de pressão sobre o ex-Procurador para dar emprego ao familiar, se havia outros requisitos mais importantes para a contratação, para que serviria o telefonema? Para dizer que estava ali? Isso o ex-Procurador também sabia.. Qualquer pessoa normal que quisesse concorrer apresentava-se a concurso, prestava provas e depois aguardaria a decisão. Se tivessem sido cometidos atropelos ou se se sentisse injustiçada poderia reclamar ou recorrer. Confesso que não percebo a quem é que a Dra. Sónia Chan pretendia dirigir-se com o seu comunicado. A mim não era. Mas parece-me óbvio que quem assim actua no exercício de cargos de tão grande responsabilidade, pensando que os outros só cá estão para lerem as suas propostas, verem-na defender a ferro e fogo o cerceamento de liberdade públicas e ouvirem-na (e ao Dr. Alexis dizer aquelas coisas notáveis sobre a Saúde que não temos e devíamos ter), não possui "talento" nem perfil para os exercer. Pela prática de factos destes, e de outros semelhantes, rolam cabeças do outro lado da fronteira. E de gente muito mais “talentosa”.

Este é o grande drama de Macau. Na gestão da coisa pública não se revelam quaisquer talentos que beneficiem a comunidade e os únicos que nos são dados a conhecer são desvendados em auditorias, investigações policiais e processo judiciais, vindo invariavelmente acompanhados de esclarecimentos delirantes. Os dirigentes “desconhecem” o que se passa sob a sua alçada e organizam excursões familiares à Suíça a expensas do erário público. Acham isso perfeitamente normal porque o superior teve conhecimento e até terá incentivado a passeata. Arrendam imóveis, mas ao contrário de qualquer cidadão normal ou dos inquilinos de alguns poderosos que quando não pagam vão para a rua, eles não pagam nada durante meses a fio, fazendo obras para seu conforto e descanso que duram a vida toda sem que ninguém lhes diga nada, os confronte com os abusos ou considere estranho o que se passa. De caminho dão trabalho a familiares e amigos pelas vias menos ortodoxas, constituem empresas e associações, por vezes depois de deixarem apressadamente cargos dirigentes na função pública, para sorrateiramente beneficiarem da incompetência dos outros "talentos" que lhes distribuem as verbas que o jogo canaliza para os nossos cofres. No fim ainda apresentam justificações que em países sem “talentos”, e onde se come muito mais queijo, quando não desse prisão valer-lhes-ia um merecido prémio num festival humorístico (estranho que com tantos talentos nesta área ainda não haja um festival de dimensão internacional).

Acredito que tudo isto seja compatível com a síndrome do carro com motorista (adoro ver aquelas pilecas verdes do IACM com um tipo sentado lá atrás), mas lamento que a R.P.C. não tenha poupado a população de Macau a este deprimente espectáculo que se prepara para continuar em cena durante largos anos se não forem tomadas medidas rápidas e em força.

As perspectivas abertas pelo comunicado do Gabinete da Secretária para a Administração e Justiça, a senhora que germanicamente guardava os nossos dados pessoais e está pronta para zelar pela igualdade das candidaturas nos processos eleitorais, são tantas em matéria de investigações (concessões, hospitais, obras estradais, polícias, alfândegas, atribuição de subsídios, festivais, etc.) que, penso eu, a TDM devia criar um gabinete para acompanhar o que aí vem em matéria de julgamentos. Depois, com os tribunais a funcionarem ao ritmo dos casinos estou certo de que a estatística poderia continuar a ser anualmente divulgada sem haver o perigo de se envergonharem os guarda-livros ou ser desencadeada a ira do presidente dos advogados.

O que há de salutar em tudo isto é que quando a Longa Marcha do Presidente Xi Jinping finalmente chegar à RAEM já não será preciso desratizar o NAPE, a Praia Grande ou os Lagos Nam Van. Com os ratos todos alinhados diante dos novos altares à espera do espeto, com as ratas exangues e sem parceiros para continuarem a parir ratinhos talentosos, só sobrarão as baratas das saunas. As gordas. As comilonas. As de utilidade turística. Mas com estas não valerá a pena perder tempo nos tribunais.

Não, não defendo uma solução do tipo Duterte, sem uma instância de recurso, suspeições de toda a ordem e uma justiça, quando convém, a todo o gás. Não sou desses. E Macau não funciona assim. Aqui é tudo mais calmo, nada de alarido. Bastaria uma boa traulitada dada por um jornal decente, no sítio certo, no exacto momento em que acabassem a massagem e se passeassem pelas lojas do Cotai. Deixava-as logo espalmadas no mármore, reluzindo as suas curvas, brilhando com os reflexos dos garridos fatos de treino de seda dos estilistas italianos ostentados pelos “nossos” turistas. E ficavam prontas para um dia, quem saberá quando, serem recolhidas pelos porcalhões do lixo.

Desejo-vos um Bom Natal. E não poupem nos presentes. Com esta gente, às vezes, um simples telefonema, mesmo à borla, sai caro.

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por Sérgio de Almeida Correia

Domingo, 11.12.16

livros (3)

3-arquivo.jpgDesde a criação do mundo que esse desprezível sentimento faz parte das nossas vidas. Foi a inveja que levou Eva à maçã e foi por ela que o diabo se afastou de Deus. Foi deusa romana, que por onde passava tudo secava, está presente em Dante e serviu de objecto de estudo a Tomás de Aquino. Há quem lhe reconheça, de acordo com o judaísmo, na justa medida, qualidades propulsoras do progresso e surge associada a numerosos artistas. Bosch imortalizou-a numa obra de excepção que pode ser apreciada no Prado, e ei-la agora de novo redescoberta na trama do último livro de Carlos Morais José, um pequeno tratado das compulsões da alma humana que viaja pelas desventuras de Camões, Diogo Vaz de Caminha e Diogo Couto, percorrendo Baudelaire, Borges, Leitão de Barros e alguns mais, até desaguar em Malinowski. Escrito com a simplicidade própria da escrita que se quer intemporal, reconhece-se com facilidade a formação antropológica do autor numa espécie de observação participante da história e da literatura na figura do seu protagonista. Editado com cuidado pelos Livros do Oriente, traz na capa uma reprodução do belíssimo Retratto de uomo con libro (1530), de Parmigianino. Agradável surpresa que marca este final de 2016 e será, sem dúvida, uma das estrelas da próxima edição do festival literário Rota das Letras. Deixa-se ler com gosto, o que o recomenda que seja relido numa próxima oportunidade. De preferência à noite e durante o Inverno, para que a viagem da leitura nos transporte aos caminhos percorridos pelo autor. Em Lisboa foi lançado no final de Outubro, em Macau será apresentado no próximo dia 13 de Dezembro, onde contará com a análise sabedora do Prof. Dr. Carlos André.

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por Sérgio de Almeida Correia




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