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Visto de Macau

Linhas em jeito de diário. Inspiração. Homenagem a espíritos livres. Lugar de evocação. Registo do quotidiano, espaço de encontros. Refúgio de olhares. Espécie de tributo à escrita límpida, serena e franca de Marcello Duarte Mathias.


Segunda-feira, 22.08.16

português

"[N]ão é o facto de haver muitos chineses a aprenderem português nas universidades ou a frequentarem os cursos promovidos pelo IPOR ou por qualquer outra instituição que vai alterar o estatuto de insignificância, desprezo e menorização a que na prática a língua portuguesa está actualmente votada em Macau. Não vale a pena disfarçar."

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por Sérgio de Almeida Correia

Quarta-feira, 17.08.16

inglês

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"There's no regret more painful than the regret of things that never were." (Fernando Pessoa, Portuguese poet translated by Richard Zenith, Lisbon 2006)

 

Em inglês, para os deputados perceberem.

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por Sérgio de Almeida Correia

Sexta-feira, 05.08.16

fong

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O Sr. Fong, conhecido como Fong Soi Kun, é um funcionário público da RAEM, como milhares de tantos outros. Daquilo que sei, é um indivíduo íntegro, preparado e trabalhador. Pode não ser, e não é, um bom comunicador, mas tem a grande virtude de falar português, melhor do que eu alguma vez falarei chinês, ser esforçado e genuíno. Provavelmente terá muitos defeitos, e outras qualidades, que nós desconhecemos. O que não lhe pode ser apontado é o pecado do exibicionismo, em que são pródigos tantos dos que por aí andam pela administração pública e pelos tribunais da RAEM, nem a falta de autenticidade. Eu estava à espera, depois daquilo que ouvi na tarde da chegada do tufão Nida, que entre as vinte e duas e as duas horas fosse içado o sinal 8. Estava à espera mas não aconteceu.

Eu vi da minha janela as árvores agitando-se, vi motociclistas em dificuldades, senti o vento sibilar a noite toda, a chuva bater violentamente contra a enorme superfície vidrada do meu quarto, mas nada. Não havia notícias, pelo menos para portugueses, em português. Nem na rádio, nem na televisão. Quando de manhã ouvi as primeiras notícias percebi que o sinal 3 continuava içado. Na minha modesta opinião, o sinal 8 devia ter sido içado durante a noite. Não foi, paciência. Não houve acidentes pessoais, a coisa passou sem danos de maior.

Nada do que ocorreu justifica um pedido de demissão do Sr. Fong. Explicou, como pôde e da melhor forma que soube, o que se tinha passado. Assumiu as suas responsabilidades. Eu nunca vi outros profissionais, alguns exercendo funções mais elevadas do que o Sr. Fong, assumirem as suas responsabilidades por decisões mais graves. A meteorologia não é uma ciência exacta, apesar de ter pretensões a sê-lo. E aqui há uns meses o Sr. Fong e os serviços que dirige foram criticados por causa de dois avisos de chuvas fortes que na altura, felizmente, não ocorreram nos termos que haviam sido previstos. Nessa ocasião houve papás e mamãs que se queixaram, muito incomodados, porque tinham tido que ir buscar os petizes à escola, não tinham com quem deixá-los e afinal não choveu o anunciado. Quando agora o criticaram por não ter sido içado o sinal 8, todos se esqueceram disso.

O Sr. Fong está sempre no olho do tufão. Ou da chuvada. Um dia quis ser previdente, evitar que as pessoas fossem apanhadas desprevenidas, foi criticado. Agora optou por seguir os critérios do manual e foi de novo criticado. Justificou-o. Falou à imprensa, foi à televisão.

Nada do que aconteceu justifica que se peça a sua demissão, mas até a isto o Sr. Fong respondeu, dizendo que está ali para servir e que se quiserem afastá-lo poderão fazê-lo.   

O Sr. Fong pode ter muitos defeitos. Pode não perceber nada de meteorologia (eu também não percebo, é tudo a olho). Mas o Sr. Fong é um homem sério. O Sr. Fong é um homem em quem se pode confiar, mesmo que depois o tempo lhe pregue algumas partidas. Eu gostava que a Administração de Macau tivesse tantos homens e mulheres tão sérios quanto o Sr. Fong. Gente que dê a cara nos momentos de sucesso e de insucesso, que decida, que assuma os seus próprios erros, que seja bilingue e fale uma linguagem compreensível para os portugueses, gente que não se esconda atrás do chefe, que não tenha medo dos poderes informais, que não receie os gritos estridentes da populaça e dos paus-mandados, que não seja fala-barata.

Gente séria merece o meu respeito. O Sr. Fong tem o meu respeito. E desta vez, também, a minha compreensão.

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por Sérgio de Almeida Correia

Quinta-feira, 04.08.16

mártir

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Da próxima vez que voltar a embarcar num avião da Emirates lembrar-me-ei dele. Porque mártir não é o estafermo que se faz explodir sem sentido, cobardemente ceifando vidas inocentes e tornando inútil toda e qualquer fé. Mártir é o que morre no cumprimento do dever, salvando vidas alheias, sem se preocupar com a sua e sem outra recompensa que não seja a expressão, através da sua atitude, de um sentimento de gratidão aos outros. Não há forma mais digna e honrosa de morrer do que esta. Pelo que ela ainda representa de esperança no futuro da Humanidade. Fico triste por saber que foi assim, mas satisfeito por ver que o seu sacrifício, o seu sentido do dever e a sua crença no bem ao próximo não foram em vão. Curvo-me respeitosamente, pequenino e agradecido, perante a memória de Jassim Issa Al Balooshi. Porque é o exemplo e a coragem de homens como ele, nos dias difíceis que atravessamos, que nos ilumina e nos guia, que nos ajuda a suportar a dor e o sofrimento e dá dimensão e sentido aos nossos dias. Aos meus dias.

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por Sérgio de Almeida Correia

Quinta-feira, 21.07.16

surreal

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Vou ao balcão de um banco de Macau depositar um cheque. No banco dizem-me que a conta tem mais do que um titular e que esse cheque deverá ser passado em nome dos vários titulares, isto é, com todos os nomes que figuram na conta existente nesse banco.

Achei a exigência uma imbecilidade porque, além do mais, se a conta tiver dez ou vinte titulares não haverá espaço disponível em nenhum cheque deste mundo para lá pôr os nomes de todos os titulares. O banco recusou o depósito do cheque na conta a que se destinava por só lá ter o nome de um dos titulares. A seguir escrevi à AMCM (Autoridade Monetária de Macau) para saber se esse procedimento do banco está correcto.

Pensava eu que a resposta seria simples. Enganei-me. A AMCM em resposta à minha comunicação veio dizer-me o seguinte:

"Segundo as informações disponíveis da AMCM, o Banco ............... (Macau), S.A. estabeleceu algumas regras na “Mandate for Joint Account”, relativas ao processamento de cheques a depositar nas contas detidas por mais de um titular. Para o esclarecimento de quaisquer dúvidas, poderá pedir mais informações adicionais junto do respectivo banco".

Volto a insistir dizendo que não foi isso que eu perguntei, pelo que repito de novo a pergunta para que não haja dúvidas. A AMCM envia-me nova resposta sobre a mesma questão:

"O beneficiário do cheque cruzado e o titular da conta destinada a depositar o cheque deve ser o mesmo, de modo a proteger o interesse do beneficiário". 

Ainda havia uma outra dúvida que também foi respondida em termos idênticos. Isto é, não foi.

Fiquei sem perceber se nessa instituição pública da RAEM ainda existirá alguém que saiba ler e escrever a segunda língua oficial de Macau. Ou se preferem que me faça de estúpido. Estamos assim.

 

 

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por Sérgio de Almeida Correia

Sábado, 16.07.16

entrevista

Esta semana, em entrevista à Rádio Macau e a Gilberto Lopes, motivada pelos imbróglios mais recentes criados pelas alterações à Lei de Terras, a advogada Manuela António passou em revista, de forma simples e clara, algumas das questões mais importantes do dia-a-dia da RAEM e que são fundamentais para o seu futuro enquanto região autónoma da RPC dotada de um estatuto especial.

Descontando aquilo que é a defesa dos interesses dos seus clientes relativamente aos terrenos junto aos lagos Nam Van, e muito embora seja possível perceber que se há situações de caducidade e reversão discutíveis, outras há que não levantam dúvidas quanto à justeza das posições do Secretário para as Obras Públicas e ao cumprimento da lei, as suas declarações e o conhecimento que tem da situação voltaram a sublinhar a necessidade de uma avaliação casuística.

O problema, como a própria reconheceu, é que a lei está mal feita, não se percebendo de todo como é que foi possível ser aprovada nos termos em que o foi, sabendo-se de antemão das respectivas consequências e sem que nos anos anteriores fossem tomadas medidas que obviassem à situação actual. A ignorância, a falta de coluna de alguns, o tradicional comodismo, o maior amor às patacas do que à causa pública, o medo de levantar ondas e o receio sempre presente de desagradar a quem manda, explicam muita coisa mas não explicam tudo.  

De qualquer modo, e tirando esse que é um aspecto particular da sua causa, é difícil que alguém de boa-fé e com conhecimento do que se passa em Macau não esteja de acordo com a maioria das coisas que foram ditas aos microfones da TDM.

Das notas em relação à produção legislativa medíocre, à incapacidade de decisão patente a todos os níveis, do Executivo à máquina burocrática da Administração Pública, sem  esquecer o nível sofrível dos novos juristas que actualmente exercem funções nesta, formados sabe-se lá onde e como e não tendo a mínima noção daquilo que é o direito local, foram poucas as áreas que escaparam ao crivo da análise.

A Associação de Advogados também teve a sua quota-parte de atenção devido à forma como tem lidado com o problema da admissão de advogados vindos de Portugal, mas onde a advogada esteve particularmente bem foi na referência à situação dos tribunais. Os aspectos positivos atinentes à boa formação geral da maioria dos magistrados não escondem a necessidade do Tribunal Administrativo ser dotado de mais juízes, de continuar a haver uma grande carência de magistrados portugueses experientes - fundamentais para elevar a formação local e transmitir uma certa maneira de lidar e de estar própria do exercício dessas funções - e de ser essencial promover uma alteração da lei da organização judiciária. Esta também foi pedida há alguma semanas por João Miguel Barros, devendo-se nisso insistir, para além da premência de se aumentar o quadro de juízes do TJB e de se fazer uma avaliação permanente do desempenho dos magistrados. Quanto a este ponto, importa volta a sublinhar que é fundamental conhecerem-se as classificações das avaliações que já se fizeram. Até para protecção dos bons juízes de Macau e do que de bom se faz quando se julga, de maneira a que possam ser afastados os que reconhecidamente não devem exercer funções na judicatura e que com o seu desempenho só prejudicam a classe a que pertencem e a justiça que por aqui se faz, desacreditando-a.

Em momentos de incerteza como o que atravessamos, em que a insegurança quanto ao futuro é grande, é fundamental que as instituições não dêem sinais de desnorte, de errância quanto ao futuro, não raro de fraqueza e desconforto para traçarem um rumo e decidirem com visão de futuro. Quando se torna mais óbvia a falta de debate público das grandes questões, a ausência de massa crítica, de gente competente na Assembleia Legislativa e de quem fale sem receio, mesmo quando defende os interesses de terceiros, das questões que interessam, seria bom que os poucos que em Macau têm estatuto não se refugiem neste. 

Alguns dos que têm responsabilidades deviam ouvir a entrevista. Talvez mesmo pedirem a alguém que a transcreva e traduza para chinês quanto às partes mais essenciais. Pelo menos, e se isso não for pedir demais, para se inteirarem da dimensão de alguns dos problemas que nos afectam e de outros que eles próprios criaram e não sabem como resolver.

Quanto ao resto já nem peço nada. Já todos percebemos em que posição se encontram face a Pequim.

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por Sérgio de Almeida Correia

Segunda-feira, 11.07.16

previdentes

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Agora que começámos a ter alguma disciplina táctica, organização e espírito colectivo, de tal forma que conseguimos conquistar um título europeu na mais portuguesa das capitais europeias, o melhor é o seleccionador nacional Fernando Santos avisar a malta de que já só temos menos de dois anos até podermos festejar o próximo título (a Taça das Confederações não conta). Não seria nada agradável, depois deste brilharete que repôs a verdade futebolística no Velho Continente e Scolari no seu merecido lugar, não conquistarmos o próximo Mundial de futebol por culpa dos festejos que começaram ontem à noite e ainda não se sabe em que ano terminarão.

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por Sérgio de Almeida Correia

Domingo, 10.07.16

chaputa

"A barbatana caudal é bifurcada e os seus olhos grandes. As barbatanas peitorais são longas e em forma de gadanha. As escamas são ligeiramente serrilhadas dando ao corpo uma textura áspera. A boca contém muitas filas de pequenos dentes que ajudam na ingestão de pequenos peixes e camarões."

 

Vendido como cherne, no final verifica-se que não passava de uma xaputa (também grafado como chaputa).

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por Sérgio de Almeida Correia

Quarta-feira, 06.07.16

humoristas

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A actuação do Executivo da RAEM, no sentido de declarar a caducidade dos terrenos concessionados que não foram objecto de aproveitamento durante o prazo contratado, tem dado azo às manifestações mais mirabolantes. O que se tem ouvido aos interessados, alguns mais outros menos, deputados incluídos, tem sido do domínio do surreal. Nada que se estranhe em Macau.

Compreende-se o desespero que se apoderou de alguns "investidores" que no tempo da Administração portuguesa beneficiaram de uma política de atribuição de terras obscura e que ostensivamente beneficiava os compadres políticos, de seita e de negócios, só possível em virtude da subserviência própria de quem se queria sentar à mesa do poder, rastejando se preciso fosse, para obter um favor, uma benesse, uma medalha e que agora vêem ser drasticamente reduzida a sua margem de especulação e a possibilidade de continuarem a manobrar e a ganhar dinheiro como sempre fizeram, com a inércia, a passividade, a incompetência dos poderes públicos e a ignorância de alguns parceiros "investidores" que atravessavam as Portas do Cerco com malas cheias de dinheiro para se apresentarem nos seus escritórios e "investirem" em fontes paradisíacas de onde jorrariam ninfas anafadas, dólares perfumados e mais concessões. 

É natural que perante uma decisão política que tarde e a desoras, mas ainda assim a tempo, se lembrou de começar a cortar a direito as coisas piem mais fino. E haja quem sem culpa e sem nada ter feito para isso seja verdadeiramente prejudicado pela decisão do Chefe do Executivo da RAEM da mandar cumprir a lei. Estes têm de defender os seus legítimos direitos usando as armas que a lei lhes confere.

Mas, ao contrário do que diz o presidente da Nam Van, esta forma de funcionar do Executivo não "mina a confiança de pequenos e grandes investidores". Bem pelo contrário. É preferível minar, e não me aprece que seja o caso, a confiança de uma meia dúzia de "investidores" desses do que minar a confiança de todos os cidadãos e de todo o sistema jurídico da RAEM. O importante é que as regras do jogo estejam bem definidas e todos saibam com o que podem contar.

Antigamente, sempre se recorreu a uma forma arrevesada de fazer política e negócios, de dialogar entre-portas com quem decidia, de se combinar no gabinete e entre brindes glamorosos o que devia ser feito num mercado livre, transparente e com regras, embora depois sempre se quisesse dar para o exterior, para a população, para os papalvos, a imagem de que fora tudo muito transparente, rigoroso e patriota. Por isso mesmo, Macau cresceu da forma desordenada e caótica que todos conhecemos, que permitiu a alguns enriquecerem muitíssimo e à cidade e à maioria da população empobrecerem, de tal forma que se vive hoje muito pior do que se vivia no chamado "tempo colonial". Esta é uma realidade incontornável.

Se há gente afectada com decisões ilegais do poder político da RAEM, se há situações de injustiça na actuação desse mesmo poder, as situações deverão ser corrigidas. E se tiver de ser nos tribunais não há que ter medo disso.

Ao contrário do que se disse por aí, num seminário que, pelo que vi na televisão e li nos jornais, mais parecia uma conferência de imprensa dos espoliados do Ultramar ou do Movimento dos Sem-Terra, não é o recurso aos tribunais que desprestigia o exercício do poder ou mina a confiança na justiça. Os tribunais, em qualquer Estado de direito, têm uma função e constituem um órgão de soberania. Não são uns monos que estão ali só para inglês ver, com uns tipos obedientes, medrosos e submissos a quem os cidadãos pagam generosamente para que profiram as sentenças que nos dão jeito e quando nos convém.

O problema dos maus hábitos, mesmo em famílias com bons princípios, é que se tornam viciantes. E quando não são atalhados logo de início enraízam-se, passando a ser vistos por quem deles beneficia como direitos adquiridos. Só que como em todas as famílias, quando o patriarca que fechava os olhos a tudo morre, e outro mais novo e menos complacente lhe sucede e procura pôr ordem em casa, é evidente que os ociosos que passavam os dias a jogar mah-jong, a beber e a fumar umas cachimbadas enquanto as concubinas lhes massajavam os pés e as costas, se sintam penalizados nos seus hábitos de décadas. Habituados como estavam a dar ordens e a receber os seus proventos com um simples telefonema, os viciados estranham. E não se conformam.

Cada declaração de caducidade das concessões por incumprimento dos concessionários é uma excelente oportunidade para estes, isto é, os tais "investidores", testarem o funcionamento do segundo sistema em Macau. Bem como para colocarem à prova a máquina da justiça, a isenção, a independência e a autonomia dos tribunais da RAEM. Se tiverem direito a indemnizações elas serão seguramente chorudas. Basta que façam prova do seu direito, o que, pelo que tenho ouvido das suas inflamadas declarações, lhes deverá ser relativamente fácil. 

É bom que fique claro que os tribunais da RAEM não devem ser só para os pobrezinhos e descamisados fazerem valer os seus direitos quando os "investidores" lhes pisam os calos. As questões "importantes" também devem ser decididas pelos tribunais, se tiverem que o ser. E os tribunais devem estar aos serviço de todos, incluindo dos "investidores".

Estou certo que os que se têm desdobrado em órgãos de comunicação social a defender esses mesmos "investidores", apesar de alguns também darem ares de "investidores" afectados, mas que tanto contribuíram com o seu empenho para a criação do sistema de justiça de Macau e o actual estado de coisas, alguns na Assembleia Legislativa pré-1999 e nos órgãos judiciários, estarão de acordo comigo. Outra coisa, aliás, não se esperaria deles.

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por Sérgio de Almeida Correia

Segunda-feira, 04.07.16

frase

"You govern with the government you have, not with the government you wish you had."

 

Esta é das boas.

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por Sérgio de Almeida Correia

Quinta-feira, 30.06.16

jinan

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Foram vários os jornais que esta manhã deram destaque ao relatório do Comissariado Contra a Corrupção (CCAC) relativamente à denúncia que fora oportunamente formulada a propósito do tão falado donativo de cem milhões de patacas à Universidad de Jinan. Como seria de esperar, não foi encontrada nenhuma ilegalidade, nenhum conflito de interesses, nenhuma irregularidade, e isso mesmo foi sublinhado, por exemplo, no Ponto Final, no HojeMacau e no Macau Daily Times.

A questão é que o CCAC pode afirmar isto mil vezes e repetir até à exaustão as conclusões da sua investigação que isso não irá mudar nada em relação ao sentimento que muitos cidadãos têm em relação ao que se decidiu. O problema de muitos regimes, e isso é verdade tanto para as democracias como para as ditaduras, é que confundem burocracia e legalidade com ética e moral.

O que estava, e está, em causa na decisão de atribuição do subsídio de cem milhões de patacas – valor que não pode ser considerado uma ninharia – não é o altruísmo ou filantropismo da decisão de apoiar uma universidade chinesa, de contribuir para uma elevação dos padrões dessa casa onde são formados muitos dos profissionais da RAEM, ou um mero acto magnânimo da Fundação Macau.

O problema da eventual legalidade ou ilegalidade até era uma questão secundária na apreciação que houvesse de ser feita. Como também o era aquela decisão, que felizmente aguarda melhores dias, de atribuição de subvenções pela cessação de funções a ex-governantes pelo exercício de funções que são altamente remuneradas e das quais só tiveram benefícios (o trabalho é inerente a qualquer profissão), por comparação com aquilo que ganha a maioria da população de Macau e a resistência que tem havido a conferir um módico de dignidade à remuneração e direitos de alguns profissionais.

Nem tudo o que é legal é eticamente aceitável ou moralmente inquestionável. E sabe-se como muitas vezes, não necessariamente em Macau, mas também aqui, o cumprimento de formalidades serve para encobrir cambalachos, negócios reprováveis e tratamentos de favor.

Não é o facto de um qualquer donativo ser legal, ter visto todos os seus trâmites respeitados e ser decidido por quem tinha competência para tal, que escamoteia o tratamento  que é dado a determinados grupos ou entidades. Não é dessa forma, isto é, pela distribuição de benesses cumprindo formalismos dentro dos parâmetros legais, que o poder se valoriza e os titulares dos cargos se prestigiam aos olhos dos cidadãos.

Numa terra que, como alguém escrevia há umas semanas, está infestada de ratos e roedores de várias estirpes, em que coisas básicas como a limpeza das ruas ou a lavagem dos contentores de lixo não existe, acumulando-se o lixo diariamente às portas dos mais variados serviços públicos, em que a emissão de fumo pelos escapes dos autocarros ou a obrigatoriedade dos veículos pesados circularem pela faixa da esquerda nas vias com mais do que uma não merecem qualquer atenção, para já não falar no escândalo que é a construção do novo hospital ou as obras do Metro, não deixa de ser curiosa a rapidez com que se vai buscar a lei para justificar o que é censurável aos olhos da população. Não porque a Universidade de Jinan não seja uma entidade merecedora de um donativo, mas tão simplesmente porque existem outras prioridades, bem mais prementes para os cidadãos de Macau e que mexem com o seu dia-a-dia, do que a atribuição de donativos à Universidade de Jinan.

Não perceber isto é não ver o quanto se degradou nos últimos anos a relação entre a população e os seus governantes. Cumprir a lei não basta quando não se interiorizou o seu sentido. E, pior do que isso, se continua a confundir o seu cumprimento com o rigor dos princípios subjacentes ao exercício do poder e com a exigência de elevação ética da decisão.

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por Sérgio de Almeida Correia

Terça-feira, 28.06.16

fool

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We are passengers locked in the back of a mini-cab with a wonky sat nav driven by a driver who doesn’t have perfect command of English and going in a direction, frankly, we don’t want to go.” - Express, 16 de Abril de 2016

"The crucial thing is that we are in a situation that we can’t control and at the moment. It is though I have got into an unlicensed mini-cab, and the guy does not know which way to go, he does not speak very good English, and we are going into a destination I can’t control. That is exactly what is happening now with the EU Grant." - The Sun, 19 de Junho de 2016

"There is now no need for haste” - The Guardian, 24 de Junho de 2016

 

Imediatamente antes do referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, o ex-Mayor de Londres e principal protagonista da campanha anti-europeia transmitia aos eleitores a imagem de que os ingleses eram passageiros de um táxi sem licença, do qual não podiam sair e que eram conduzidos por um motorista que não sabia para onde ir e não possuía um domínio adequado do inglês. Depois, voltou a repetir essa imagem várias vezes, a últimas das quais à beira do dia decisivo.

Agora que os seus compatriotas lhe fizeram a vontade e votaram pela saída, tendo ele uma oportunidade de mandar parar o táxi de imediato e sair no primeiro apeadeiro, Boris vem dizer, dando a imagem típica do populista arrogante e chico-esperto, que não há pressa em sair do táxi, não se importando de continuar às voltas dentro de uma viatura que não sabe para onde vai e a ser conduzido por esse mesmo motorista que não sabe falar correctamente o seu idioma.

Se não houvesse melhor imagem do que esta do táxi, a que fica da salganhada do referendo inglês é a de que em matéria de questões europeias qualquer idiota pode ir a votos e ganhar, mesmo que no fim não se distinga de nenhum daqueles que guiam o táxi. It's the democracy, stupid

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por Sérgio de Almeida Correia

Sábado, 25.06.16

lata

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Fernando Santos achou oportuno vir falar nos "grandes tomates" dos croatas, referindo que os jogadores da Selecção Nacional que hoje defrontará a Croácia em Lens, também precisavam de ter uns assim. Quem não conheça o seleccionador nacional até é capaz de pensar que ele tem razão, mas como se viu pelos jogos que Portugal fez até agora no Euro 2016, em que não foi capaz de ganhar um único jogo contra equipas de segundo nível, não é aos jogadores que faltam os ditos cujos.

Na realidade, quem precisa de um bom par de tomates é ele próprio, Fernando Santos, que com as suas opções e teimosia, insistido em Moutinho, não metendo Quaresma e Renato Sanches de início, deixando João Mário sem apoio, colocando jogadores fora das posições naturais, apostando num cepo como Éder e colocando Danilo em campo para segurar empates, para já não falar no facto de ter deixado Josué em casa, tem demonstrado até agora ser um verdadeiro "destomatado". 

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por Sérgio de Almeida Correia

Quinta-feira, 23.06.16

consenso

Depois do que há uns dias escrevi sobre a consulta pública relativa aos galináceos, não há nada como a detecção de um bom vírus para acabar com as hesitações. De um dia para o outro foram abatidas cerca de nove mil aves devido ao subtipo do H7 descoberto numa banca do Mercado do Iao Hon. De nada valeu a consulta pública que anteriormente se conduziu. Agora fez-se sem hesitar o que importava e abateram-se as aves enquanto o diabo esfregava o olho. Pena é que a proibição de venda e abate de galináceos vivos seja para vigorar só durante três dias. Continuo a não perceber por que é que perante a evidência de que o vírus entra com a maior das facilidades e rapidamente se instala entre nós, mais a mais admitindo já o IACM que a proibição ontem decretada se possa alargar por mais 21 dias, não aproveitam para acabar de imediato  com essa imundície que é a conservação das aves vivas nos mercados e o seu abate sem quaisquer condições de higiene em nome de uma pretensa tradição cultural.

Há coisas com as quais não se brinca e já é tempo de acabar com as figuras tristes. Não há nada, numa perspectiva de saúde pública e continuando o risco a existir, como o próprio IACM reconhece, que não justifique a proibição imediata e a título definitivo do abate de aves vivas nos mercados de Macau.   

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por Sérgio de Almeida Correia

Quinta-feira, 16.06.16

galináceos

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Este ano o El Niño está a fazer-se sentir mais cedo e de forma mais intensa por estas paragens. A humidade e o calor, só por si, têm produzido efeitos muito nefastos no tecido social e urbano da RAEM, mas a sua recente conjugação com o El Niño ameaça agravar o estado da crise.

Desconheço, é verdade, se para o que está a acontecer se recorreu a algum bruxo, curandeiro ou às crenças milenares do feng shui, embora a insensatez revelada por algumas decisões e a forma como vão sendo transmitidas para a opinião pública indicie a substituição do pesadelo das vacas loucas por um outro ainda pior onde as galinhas, aves de capoeira por natureza imundas e de uma estupidez aflitiva, se apoderam do mundo subjugando a civilização aos seus caprichos, numa reedição macabra dos pássaros que Hitchcock levou ao cinema.

O caso é preocupante porque de acordo com os relatos que ouvi na rádio e televisão, e fazendo fé nas notícias que li, perante uma situação de grave risco epidémico provocado pela penetração em Macau e nas regiões vizinhas do vírus H7N9, alguém se lembrou de fazer uma consulta pública e encomendar um estudo no qual se foi perguntar à população se estava de acordo com a proibição da venda de aves de capoeira vivas e se admitia a sua substituição por animais refrigerados.

Inicialmente, não percebi o sentido de tal consulta e admiti que em causa estivesse uma qualquer outra situação de menor importância em termos de saúde pública. Ontem à noite acabei por confirmar as minhas piores suspeitas. Não obstante a proibição da importação e venda de aves de capoeira vivas já estar em vigor em Hong Kong, devido aos elevados riscos que se correria com a manutenção da situação anterior, e de já haver notícias do registo de casos importados por estas bandas, alguém se lembrou de ir perguntar à população se concordava com a adopção de uma medida de proibição.

E a situação é de tal forma caricata que perante o que aconteceu em Fevereiro, em que foram abatidas cerca de 15 mil aves no mercado abastecedor de Macau, "depois de agentes patogénicos terem sido encontrados no mercado provisório do Patane" (Ponto Final, 16/06/2016), e de os resultados da consulta pública e do estudo encomendado, de acordo com os quais 24% dos inquiridos estão a favor da medida de proibição e 33% se afirmaram indiferentes, em vez de se proibir de imediato a importação de aves de capoeira vivas como medida cautelar, se entendeu avançar "faseadamente" pela substituição das aves vivas por aves refrigeradas.

O sentido da consulta efectuada é de tal forma aberrante que isso me leva a questionar se um destes dias o Governo irá fazer uma consulta pública aos dependentes de heroína e de cocaína a perguntar se estão a favor ou contra a venda livre desse produtos em farmácias e supermercados com garantia de qualidade e a preços controlados. Eu pensava que em matéria de saúde pública, perante o risco de epidemias graves e susceptíveis de causarem danos gravíssimos à população, que haveria alguém habilitado e com capacidade de decisão que fosse capaz de decidir em termos tais que todos fossemos protegidos do risco de eventuais epidemias e que o interesse público prevalecesse.

Pelos vistos, não há nem se prevê que venha a haver. É que em em vez disso entendeu-se ir perguntar a quem não tem sequer consciência dos riscos epidémicos da propagação do vírus H7N9, se estava de acordo com uma decisão que, como muitas outras, não deveria nem poderia ser objecto de qualquer consulta pública. Ninguém se lembraria de fazer uma consulta à população do estabelecimento prisional de Coloane a perguntar se prefere cumprir a pena lá ou em casa, ou se quer sair à sexta-feira à noite para ir relaxar ao Divino e voltar à segunda-feira, pernoitando no Hotel Lisboa. Da mesma forma que os pais não perguntam aos filhos se querem almoçar e jantar chocolates, em detrimento da carne, do peixe ou dos vegetais. E um médico não pergunta a crianças diabéticas se querem que lhes sejam receitadas umas fatias de Abade de Priscos, em vez de se lhes impor uma dieta alimentar de acordo com o que é melhor para elas, protegendo a sua saúde e um crescimento saudável até que os destinatários das decisões tenham idade, conhecimento e capacidade para por si decidirem o que mais lhes interessa assumindo os respectivos riscos. Só num bananal é que os governantes detentores do poder e que têm por missão defender a saúde pública se lembrariam de ir fazer uma consulta pública tão insana, expondo-se a tamanho ridículo.

Perante esta situação, que reflecte bem os efeitos do El Niño na RAEM, já ninguém se pode espantar quando vê um pato de borracha amarelo de dimensões descomunais transformado, pela módica quantia de seis milhões de patacas, em atracção "turística". Ou assiste ao ruir, à conveniente hora da missa, do telhado de uma igreja que faz parte do património da cidade classificado e protegido internacionalmente. Ou, ainda, imagine-se, se indigna com a transferência de um Cartório Notarial fundamental, de uma zona nobre e central e instalado num belíssimo edifício integrado numa zona histórica e também ele classificado, para um qualquer buraco da zona norte, promovendo a entrega definitiva do centro histórico de Macau às hordas de pseudo-turistas que sob um calor inclemente, e atrás de bandeiras coloridas, quando não estão de cócoras a palitar os dentes e a cuspir, vão chinelando e percorrendo aos gritos e empurrões as tabancas do Largo do Senado e ruelas adjacentes, onde se abastecem de leite em pó, cremes hidratantes e imitações de mau gosto.

Bem que eu gostava de não ter visto os responsáveis pela cultura e pelo turismo de Macau, numa destas tardes, debaixo do sol de Junho, num lago da cidade, pedalando de forma tão vigorosa que não estivessem eles dentro de gaivotas cheguei a temer estar a assistir a uma nova versão do canto dos cisnes. E também gostaria acreditar que tudo isto, consultas públicas incluídas, que vai de linhas de metro à preservação de edifícios, não passaria de um sonho mau. Com a consulta sobre as aves de capoeira e a garantida continuação da sua entrada, vivinhas, com todos os vírus e mais alguns e prontas para serem abatidas e vendidas pelos mercados da cidade, que durante mais uns anos libertarão o cheiro pestilento dos galináceos e seus detritos, fico com a certeza de que o vírus H7N9 já chegou. Está é misturado com o El Niño, entrou num processo de mutação acelerada e instalou-se na Praia Grande, nas gaivotas dos Lagos Nam Vam e seus arredores, embora poucos se tenham apercebido disso.

Espero é que da maneira que as coisas estão, com o avançar da época dos tufões e depois do pato amarelo, não transformem o H7N9 e os galináceos em mais um motivo de atracção turística e cultural. Peço, pois, para já, que as autoridades de Macau não dêem este passo decisivo para a afirmação internacional da RAEM. Desconfio que a Organização Mundial de Saúde e a R. P. da China ainda não estão preparadas para encarar as decisões desses talentos que se especializaram na organização de consultas públicas e assimilarem esse novo patamar de excelência rumo à diversificação. À loucura. E que de uma vez por todas declarará o fim da pós-modernidade.

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por Sérgio de Almeida Correia

Quarta-feira, 15.06.16

requentado

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"Não fizemos um jogo brilhante mas sim um jogo médio-baixo. Faltou-nos uma melhor decisão no terço final, nos cruzamentos e nas acelerações do jogo. Tínhamos obrigação de fazer mais porque tínhamos de desestabilizar a Islândia jogando [nas] entrelinhas e com acelerações de jogo" - Fernando Santos 

 

O Pedro Correia já aqui referiu a apatia manifestada em Saint-Étienne pelos portugueses que ali se deslocaram para apoiarem a equipa das quinas. Eu acredito que se não tivéssemos a comunicação social que temos, que delira antes dos jogos de cada vez que um técnico ou jogador estrangeiro diz que Portugal é uma equipa muito forte e que os seus jogadores são os melhores do mundo, e que se não se vivesse tanto o jogo virtual, como se fosse o real, fazendo do futebol a panaceia de todas as nossas desgraças, talvez fosse mais fácil ter outra atitude em campo e se tornasse desnecessário o seleccionador nacional vir dizer o óbvio.

Quem em casa já tinha visto correr irlandeses, polacos, galeses, belgas, suíços ou húngaros, só para dar alguns exemplos, estaria seguramente à espera que a Selecção Nacional tivesse entrado no jogo com a Islândia com outra garra, com outra precisão no passe, outro fulgor no remate, não perdendo infantilmente bolas pela linha lateral, não atirando bolas de qualquer maneira para as bancadas, demorando menos tempo a armar o remate na hora da verdade, adornando menos os lances junto à área adversária, jogando mais pela relva e menos pelo ar, discutindo menos as decisões dos árbitros, enfim, não se deixando cair ao mais leve toque e, em especial, não se mostrando fiteiros e afastando-se da imagem de que estão sempre à espera do apito do árbitro para assinalar uma falta muitas vezes inexistente.

Fernando Santos tem a noção dos problemas e das dificuldades, mas parece que não conseguiu transmitir isso aos seus (nossos) jogadores. Em todo o caso, será bom dizê-lo, a equipa é a de todos nós. As escolhas é que são as dele e, pelo que se viu, as de ontem não terão sido todas as mais acertadas. Todos têm momentos menos felizes e esperamos que o de Fernando Santos se tenha esgotado já. Muitos jogadores estiveram abaixo daquilo que é normal, mas de outros todos temos a noção de que não é expectável que possam vir a render mais, seja pela falta de jeito ou pela má época que fizeram, compreendendo-se mal como puderam ter sido primeiras escolhas.

De qualquer modo, nada está perdido. Não se faça do resultado de ontem um drama, já que esta também não é a primeira vez que as coisas não começam tão bem como o desejado. E espera-se que já no próximo sábado se endireitem, que não falte uma voz forte nas bancadas e que o treinador e os jogadores sejam capazes de rectificar o que de mal fizeram no jogo com a Islândia, deixando uma melhor imagem e assumindo um estatuto mais adequado aos seus pergaminhos, às promessas que nos foram feitas e às expectativas que legitimamente todos temos. Quanto mais não seja pelo tempo de antena e espaço nos jornais que lhes tem sido dado. E, por favor, não queiram fazer de Ronaldo o patinho feio. Uma equipa faz-se de onze jogadores e os que começaram o jogo no banco também contam, ainda que as suas tatuagens, os seus tiques ou os penteados não sejam os mais populares.

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por Sérgio de Almeida Correia

Terça-feira, 14.06.16

europeu

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 Aqui já se joga.

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por Sérgio de Almeida Correia

Segunda-feira, 13.06.16

estórias

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O Post Magazine de ontem traz mais uma história de Craig Whitlock digna de um daqueles romances em que se misturam altas patentes militares, espionagem, mulheres bonitas, charutos, refeições de outra galáxia e negócios sob as mais diversas formas. O título dado ao artigo pelo seu autor foi o mesmo que serviu a um filme de Steven Spielberg que correu em 2015 e teve Tom Hanks como um dos seus protagonistas: Bridge of Spies.

Ao contrário do que se possa pensar, o que se relata no Post não aconteceu durante a Guerra Fria, mas muito depois do seu fim, entrando pelo século XXI e prolongando-se, ao que se sabe, por mais de uma década, de acordo com os documentos dos acusadores públicos. 

Desta vez, o protagonista não é uma estrela de Holywood, mas sim um malaio, cujo avô fez fortuna com uma empresa de logística marítima no concorrido Estreito de Malaca.

Depois de uma infância atribulada, a que se seguiu o abandono pela sua própria mãe aos cuidados de um pai mulherengo, tendo ficado com a tarefa, de acordo com os registos judiciais malaios, de manter o pai debaixo de olho para garantir que aquele não levaria outras mulheres para casa, 'Fat' Leonard Francis começou a vida como empresário, aos 21 anos, num bar de Penang, onde nascera. Logo envolvido num tiroteio, do qual escapou com uma multa de USD 5800, motivando a ira dos polícias que a seguir, num episódio que pouco diferirá daquele vergonhoso por que passou aqui há uns anos Vale e Azevedo quando libertado pela PJ foi de novo detido alguns segundos volvidos, Leonard também voltou a ser preso e acusado de diversos roubos. Absolvido destes, o 'Gordo' Leonard viria a ser condenado numa pena de 18 meses de prisão e meia dúzia de chicotadas. 

Este passado muito pouco recomendável não o impediu, contudo, de se tornar num importante parceiro da Marinha dos Estados Unidos da América nos negócios que envolviam as suas embarcações e as suas altas patentes, em especial após o encerramento da base de Subic Bay, nas Filipinas.

Criando uma verdadeira rede de informadores e avençados, Leonard Francis, através da sua empresa Glenn Defense Marine Group, tornou-se num imprescindível dos almirantes. Graças aos oficiais de marinha reformados e a antigas patentes malaias, tailandesas e filipinas que empregou, adquiriu o know-how e os contactos necessários que lhe permitiram instalar os seus escritórios em Singapura e ir ganhando contratos a seguir a contratos com a US Navy, em portos e locais tão distantes e diferentes como Vladivostok ou a Papua Nova-Guiné, França, México, Índia, Holanda ou em Inglaterra.

A intimidade com a oficialato estado-unidense foi tal que de cada vez que os navios da US Navy demandavam um porto, já esperavam que o "Gordo' Leonard Francis tratasse deles e organizasse um acolhimento 5 estrelas, que poderia incluir passeatas, compras, espectáculos, excursões e até limusinas para transportarem os senhores almirantes a lautos banquetes, regados a conhaque e whisky e onde não faltavam bifes de Kobe, porco ibérico e Cohibas. 

O resultado dos "excepcionais" serviços prestados pelo 'Gordo' à Marinha dos EUA valeram-lhe, pelo menos, USD 35 milhões em contratos fraudulentos, subornos, facturas falsas, subcontratados inexistentes e contas de pretensas autoridades portuárias que cobravam aos navios por serviços jamais prestados. 

Agora, ao contrário do que acontece noutros locais que tão bem conhecemos, está tudo no banco dos réus, num mega processo que tem mais de 200 "alvos" sob investigação e em que uma parte considerável das altas patentes da US Navy poderá sair chamuscada. As ramificações do 'Gordo' Leonard são tentaculares e cerca de trinta almirantes estão sob investigação criminal do Departamento de Estado ou sujeitos a um escrutínio ético em razão das suas ligações. 

É por isso mesmo natural que alguns daqueles a quem Leonard pagou para se tornar milionário, entretanto se tenham esquecido de quem lhes proporcionou "superb services". Serviços de tão alto nível que no Natal de 2004, por exemplo, o USS Abraham Lincolm e mais três vasos de guerra foram recebidos em Hong Kong pelo "Gordo" e brindados com uma festa de Natal no fantástico Shangri-La Hotel, numa daquelas noites mágicas que quem conhece a Ásia sabe do que se trata, onde foram servidos filets mignons, lagostas, champanhe Don Pérignon e hospedeiras vestidas de Pai Natal, as "Santa Niñas". Como tudo tem um preço, no dia seguinte foi apresentada a conta da festarola do almirantado e seus subordinados: uns míseros seiscentos mil dólares. 

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(foto: The Star)

Pode ser que dentro de algum tempo, à medida que se for fazendo luz sobre todos os negócios de Leonard com a US Navy, alguém se lembre de levar ao cinema a sua história e de nos desvendar os segredos da Sétima Esquadra por mares da China e do Japão. 

Porém, enquanto isso não acontecer nada como ler em primeira mão e sem intermediários os fascinantes parágrafos do Post

Parágrafos que, curiosamente, me fizeram recordar uma outra vida que tive e o dia em que estando eu a exercer funções na Marinha me mandaram ir a Hong Kong, em finais da década de Oitenta, para receber, à falta de um oficial de marinha que pudesse fazê-lo, o comandante da Esquadra do Pacífico, o qual chegaria com um diplomata do Consulado dos EUA em Hong Kong. Para depois acompanhá-los até uma recepção onde eles seriam recebidos pelo seu anfitrião português, entretanto falecido. Na ocasião deram-me a recomendação de que embora fosse um civil para aqueles efeitos me deveria comportar como um militar, o que procurei fazer exemplarmente e limitando-me a responder às perguntas que me faziam, sem rede e sem qualquer experiência na matéria, no meu melhor inglês. Se fosse hoje, depois de ler o que li, não sei se não perguntaria aos fulanos, assim como quem não quer a coisa, se conheciam 'Fat' Leonard Francis. Podia ser que me dessem umas dicas.

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por Sérgio de Almeida Correia

Sexta-feira, 10.06.16

portugal

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Quanto mais português, menos português. Quanto mais longe, mais perto.

Longe de todos, longe de tudo. Como uma pele que se regenera na dor.

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por Sérgio de Almeida Correia

Terça-feira, 07.06.16

diversificação

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(Ricardo Estudante/Global Imagens/DN) 

Jorge Coelho foi muito criticado, em 2008, quando iniciou a sua colaboração com a Mota-Engil. Ainda assim demorou sete anos a vestir a camisola da empresa de António Mota. Paulo Portas, como bom político que é e menos terra-a-terra que Coelho, foi agora muito mais lesto e bastaram-lhe apenas alguns meses para pôr em prática a sua cartilha da diplomacia económica.

Se recordarmos as experiências andina, chavista e madurista de Portas, onde até os computadores de José Sócrates promoveu com apreciável sucesso, o Conselho Estratégico para a América Latina tem tudo para ser uma boa aposta. Tanta rapidez pode não ficar a dever-se a um qualquer Jaguar, mas é bom saber que a Mota-Engil continua a querer impor-se pela novidade e diversificação em mercados difíceis e com grande potencial.

Espero, sinceramente, é que a aposta de António Mota não se fique pelo mercado dos submarinos, e se possa alargar aos periscópios, bússolas,  bóias, coletes salva-vidas e afins, de maneira a que a sua empresa, finalmente, consiga entrar onde até agora não está presente.

Afinal, Marte não fica assim tão longe como isso. E os marcianos que conhecemos são todos bem simpáticos.

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por Sérgio de Almeida Correia




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