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Visto de Macau

Linhas em jeito de diário. Inspiração. Homenagem a espíritos livres. Lugar de evocação. Registo do quotidiano, espaço de encontros. Refúgio de olhares. Espécie de tributo à escrita límpida, serena e franca de Marcello Duarte Mathias.


Segunda-feira, 21.11.16

rescaldo

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Caiu o pano sobre mais uma edição do Grande Prémio de Macau, o 63.º para os carros, o 50.º para as motas. Como sempre acontece em Macau, houve luzes, glamour, acção, emoção e drama.

A transferência da organização para o Instituto dos Desportos e o progressivo desinvestimento financeiro no maior cartaz desportivo e turístico de Macau começa a dar frutos. E estes, em vez de serem carnudos e saborosos, como em anos anteriores, foram de todas as formas e feitios. Houve dos mais doces e sumarentos aos mais escanzelados, amargos, com bicho e ruins.

A saída do eng.º Costa Antunes e a alteração do modelo de organização já haviam provocado o abandono de Barry Bland e da Motor Race Consultants, em Setembro pp., ao fim de 33 anos de coordenação da F3, o que lançou a confusão e a dúvida sobre as capacidades do novo modelo. Se no início se devia dar o benefício da dúvida, neste momento, concluída que está mais uma edição, exigem-se medidas de fundo para garantir o futuro da prova e a competição desportiva.

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Desportivamente, é bom dizê-lo, as coisas correram bem para os vencedores de algumas provas, em especial para os pilotos portugueses (Félix da Costa e Tiago Monteiro deram um festival de condução em toda a linha), mas também para alguns pilotos locais que apesar das limitações e adversidades que enfrentaram também se exibiram em bom nível (Filipe Souza, Célio Alves Dias, Chan Wing Chung e André Couto, por exemplo).

E digo para os vencedores de algumas provas porque a Taça do Mundo de GT, que tinha tudo para ser uma jornada memorável, e a prova final do TCR ficaram manchadas por decisões inexplicáveis em relação ao uso e abuso do safety car e da bandeira vermelha.

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Se nas motos houve uma corrida à altura, simplesmente perfeita, a imagem final do pódio da corrida de GT transmitiu para todo o mundo a desilusão, o desacerto e o modo como a organização enterrou as esperanças de equipas, de pilotos e de adeptos. O vencedor declarado na secretaria, o belga Laurens Vanthoor, que foi o primeiro a reconhecer não serem normais as circunstâncias em que lhe foi atribuída a vitória, não merecia receber um troféu com o peso da Taça do Mundo de GT numa corrida com quatro voltas, duas delas atrás do safety car, depois de ter sido ultrapassado de forma limpa por Earl Bamber e de ter perdido o controlo do carro que conduzia na curva do Mandarim. Vanthoor é um excelente e rapidíssimo piloto que dispensava a vergonha de receber a taça. Se havia que encurtar o programa, então que isso fosse feito cortando nos habituais salamaleques, e não na competição. Se não era possível fazer 18 voltas, então que se fizessem 10 ou 8. Os regulamentos cumpriram-se, só que desta forma perdeu a verdade desportiva, perdeu a competição. A haver um vencedor, depois da penalização de Bamber, então que fosse Kevin Éstre. Com o que aconteceu ficaram todos a perder: os espectadores, os pilotos, as marcas, os patrocinadores e a organização.

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O tempo que demorou a decisão sobre a eventual continuação da prova FIA GT, com os veículos todos em fila nas boxes, os pilotos sentados no chão, sem capacete, suando em bica, aguardando durante momentos infindáveis que fosse retomada uma corrida que acabou por não prosseguir, sem que o público soubesse o que se estava a passar durante largos minutos, e depois de se ter dito aos microfones que a prova seria recomeçada dentro de dez minutos, foi um momento para esquecer.

Também a prova do TCR não correu bem. O alargamento do leque de concorrentes só serviu para prejudicar a competição desportiva. A maioria dos acidentes que determinaram as interrupções, com excepção do protagonizado pelo veterano Morbidelli, foi provocada por pilotos inexperientes, sem os pergaminhos das estrelas do TCR, e sem que da sua inclusão resultasse qualquer benefício para o espectáculo. As queixas dos pilotos de topo, por exemplos Nash e Comini, dizem bem do desacerto das decisões.

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Mas pior do que tudo isso foi a deficientíssima prestação de alguns comissários que agitaram bandeiras verdes no momento em que deviam ter agitado amarelas, provocando acidentes escusados, o atabalhoamento na retirada de viaturas acidentadas, a falta de comunicação entre quem estava na pista e quem dava as ordens, de tal forma que não ocorreram situações mais graves e com consequências para a integridade física das pessoas por milagre. Os comissários têm de ser os melhores e têm de ser pagos pela função que desempenham. O nível do Grande Prémio de Macau e o que se espera dele são dificilmente conciliáveis com amadorismo, improvisação e formação à la minute.

A colocação de alguns correctores, a revisão do seu perfil, a introdução de correcções na curva do Mandarim ou no final dos Pescadores, o acrescento de pequenas extensões de rails metálicos em locais onde só há betão, como sugerido pelo antigo piloto Isaías do Rosário, e a melhoria do piso, são premências que se impõem para protecção dos pilotos, da competição e dos padrões a que a prova a todos habituou, dentro e fora de portas.

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Uma das queixas ouvidas no paddock respeitou à atribuição de passes para os convidados das equipas. De acordo com o transmitido por uma equipa participante, a prática anterior levava a que cada equipa entregasse a lista dos seus convidados à organização que depois geria a respectiva atribuição. Este ano os passes foram limitados a 30 por equipa, independentemente do número de carros, da dimensão das equipas e da extensão da lista de convidados, o que levou a que equipas com mais de 30 convidados tivessem de comprar passes pagos a EUR (?) 250,00 cada para os convidados acima da quota, enquanto outras que não precisavam de tantos passes ficaram com eles na gaveta. Não pude confirmar esta informação, mas foi-me transmitida pelo responsável por uma das equipas mais importantes em prova, aliás pessoa que me merece a máxima credibilidade.

Todos estes aspectos, e certamente outros mais haverá que não são do meu conhecimento, deverão ser revistos e esclarecidos para serem acautelados e melhorados em futuras edições. A oferta gastronómica disponível para o público melhorou um pouco em relação ao ano passado. Este parece-me ser um aspecto positivo a salientar, mas é possível fazer melhor. 

Quem gosta do Grande Prémio de Macau e de corridas de automóveis gosta de bons espectáculos, bem organizados e com a máxima segurança, pelo que as críticas ouvidas na edição que findou deverão ser objecto de análise e reflexão. Pretende-se a melhoria da prova e a valorização do espectáculo desportivo, não o seu fim.

A desvalorização das críticas, da componente desportiva e de segurança (faz muita falta a experiência dos comissários do Autódromo do Estoril), e a guarida dada ao folclore comercial de alguns lobbies vindos de fora, que cresceram à sombra das suas opacas ligações aos poderes, e que aos poucos se vão tornando nos novos donos de Macau, não pode continuar a impor-se à competição sob pena de um destes dias a FIA mudar de ideias e intervir de forma mais incisiva.

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No dia em que isso acontecer perderá Macau e perderemos todos, limitados como estaremos então a ver passar os carros com as cores do principal patrocinador e as excursões de construtores chineses de terceira linha.

Não creio que seja este o objectivo. Seria por isso bom que se retirassem algumas lições do que aconteceu este ano e que a organização fosse sempre dirigida por quem gosta de carros, perceba alguma coisa de corridas de motas e de automóveis e tenha experiência na matéria. E não por empresários, burocratas e funcionários polivalentes, sem qualquer experiência e conhecimento da competição, com objectivos economicistas que depois saem caros. Se por cá não houver "talentos" para isto, em quantidade e qualidade, o melhor será abrir os cordões à bolsa dos "casineiros" e recrutar profissionais no exterior.

Macau merece o melhor. Sempre. E dispensa a propaganda barata e o refugo, venha este de onde vier, com ou sem carta de recomendação do chefe.

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por Sérgio de Almeida Correia

Segunda-feira, 14.11.16

envergonhado

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A menos de um mês da data agendada para o início do 1.º Festival Internacional de Cinema de Macau, a demissão do consagrado Marco Müller, seu director, antigo responsável por festivais em Roterdão, Locarno, Veneza e Roma, entre outros, pessoa sobejamente conhecida na China e no mundo da Sétima Arte, caiu como uma bomba. E levanta muitas interrogações e perplexidades.

Enquanto o próprio não falar e apresentar as suas razões, as declarações entretanto produzidas por quem ficará com a responsabilidade de conduzir o evento daqui para a frente foram, no mínimo, hilariantes e são sinal do amadorismo e da falta de noção que por cá se tem da importância e dimensão de um evento da natureza daquele que se queria produzir.

Ninguém sabe o que vai sair do " Committee" (o festival só tem como línguas na sua página oficial o inglês e o chinês), mas bastará olhar para os currículos da presidente e dos vice-presidentes executivos para se perceber que levaram a vida toda a ler a Première, frequentando festivais e ciclos de cinema e que estão habituados a tratar por tu os De Niro, as Binoche, as Deneuve, os Scorcese e os Tarantino que regularmente desembarcam em Macau, para com eles discutirem as escolhas feitas em Berlim, San Sebastian ou nas margens do Lago di Como.

A demissão de Marco Müller é uma vergonha para Macau porque representa o fim da única garantia de qualidade que um festival de cinema, com pretensões de grandeza internacional, podia apresentar. Para este desfecho não valia a pena tê-lo trazido.

Não deixa por isso de ser estranho que alguém com o passado e prestígio do director que se demitiu, do qual não consta que seja um amador irresponsável ou esteja habituado a ser um pau-mandado de quem está no poder, fosse arriscar-se a enterrar o seu nome e reputação no Cotai. Um profissional com o prestígio internacional de Müller, construído ao longo de décadas, que inclusivamente está habituado a trabalhar na China, não precisa de Macau para nada. E, evidentemente, não está disposto a contemporizar com o amadorismo dos "talentos" locais que valeram as prédicas do primeiro-ministro chinês, na Torre de Macau, quando por aqui passou no mês passado.

Agora podem tentar salvar a face de Macau, irreconhecível de tão chamuscada, mas alguém terá de explicar, em vez de manifestar espanto com uma decisão "inesperada", como é possível que um homem como Marco Müller consiga organizar quase tudo e mais alguma coisa em todo o mundo, sempre com apreciável sucesso, e depois venha estampar-se em Macau, com todos os milhões que puseram à sua disposição, saindo a três semanas do começo do evento a que emprestou o seu prestigiado nome para a divulgação internacional e para convencer realizadores e actores de renome a por aqui aparecerem. 

É por isso mesmo ridículo que depois da sua saída se tenha dito o que que se disse, designadamente quanto a uma eventual acção judicial contra o agora ex-director, sem que fossem prestadas quaisquer outras explicações, e fazendo de todos nós parvos. E que tenha, inclusive, havido o descaramento de dizer que "vamos manter tudo o maior possível, para ser tudo igual, mas a gente vai ter mais coisas, ainda vai ter mais coisas". Mais coisas? Como por exemplo? Rifas? Algodão doce? Divergências de opinião? Esta gente está a gozar com quem? Com Pequim?

O que aconteceu com Müller já tem antecedentes não constituindo nesse ponto, infelizmente, uma novidade. É apenas mais um triste sinal da forma alucinada como por aqui se gere a coisa pública. Mas o que torna tudo isto ainda mais delirante é ver como os milhões são esbanjados em patos de borracha e afins, e em iniciativas que podendo vir a representar uma mais valia para a RAEM acabam por ser tão mal conduzidas, e de forma tão básica e provinciana, que mais se parecem com a organização de concursos de dança ou de misses no Restaurante Portas do Sol. A reacção das autoridades, pela forma e modo como se produziu, só serviu para envergonhar ainda mais Macau e as suas gentes, quase fazendo esquecer tudo aquilo que de bom, e também de muito bom, com muitos menos "talentos", meios e milhões do que aqueles que agora estão disponíveis, por aqui foi realizado durante décadas. 

O crónico nepotismo, aliás herdado da administração portuguesa e agora aliado à protecção de uma míriade de associações e sociedades comerciais sem gente, história ou meios, algumas recebendo milhões sem que se perceba bem para quê, com que finalidade, nem que resultados apresentam, é de tal forma vergonhoso e indigno da seriedade das gentes de Macau que um destes dias ainda vamos ver um anúncio nos jornais a pedir uma intervenção cirúrgica na RAEM para que seja feita uma limpeza eficaz e sem contemplações, que elimine o abundante lixo que se vê no NAPE e todas as famílias de roedores, rastejantes e moluscos que, dotados do dom da ubiquidade, se reproduzem por terra, mar e no ar em todos os negócios, concursos e iniciativas promovidas pelo ou com a chancela do Governo de Macau.

Temo, confesso, é que nesse dia seja tanta a bicharada apanhada na rede, entre graúdos e amanuenses, que acabem a ter de fazer uma ponte aérea entre Pequim e Macau para dotar o Ministério Público de procuradores trilingues, isto é, versados em cantonense, mandarim e inglês comercial, com especialização em "invoices", "subsídios" e "talentos locais" que consigam dar conta do recado.

Em todo o caso, como o seguro morreu de velho, o melhor será também tratarem da melhoria dos formulários destinados à exportação. Esgotada a capacidade de acolhimento para todos os que há anos se preparam afincadamente para se instalarem nos renovados aposentos do hotel que a Direcção dos Serviços Correccionais mantém em Coloane, seria boa ideia alargar a diversificação económica à exportação do muito mexilhão e da praga de lagostins, também conhecidos como "empresários", "investidores" e "empreendedores", que infesta as margens do estuário do Rio das Pérolas, dando cabo do habitat de espécies naturais que durante séculos mantiveram o equilíbrio e a convivência com os vermes que as marés e tufões iam trazendo ao final da tarde para a saudosa baía da Praia Grande, sem danos de maior ao ambiente, ao contrário do que hoje sucede em que até os habituais níveis de humidade de Novembro estão descontrolados. Quem sabe se o IPIM não encontraria aí um novo maná?

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por Sérgio de Almeida Correia

Sábado, 12.11.16

konstantin

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"Descendente da terceira geração de colonos que, em 1907, se mudaram para o Extremo Oriente vindos das zonas ocidental e central do Império Russo", em 1992 desembarcou em Macau. Vinha de Vladivostok, onde estudara na Academia Estatal de Artes do Extremo Oriente e cumprira o serviço militar, do qual fora desmobilizado um ano após o anúncio da "Perestroika". Acabaria por se radicar no antigo território sob administração portuguesa, montou o seu atelier, instalou-se com a família e cresceria até se tornar no artista ímpar que hoje é. Ao dizê-lo sei que estou a tornar mais difícil para mim próprio a aquisição das suas obras, mas o seu talento exige que lhe seja dada a dimensão que merece.

Tive a sorte de conhecê-lo em meados da década de noventa do século passado e de um dia ficar com uma das suas telas, desde logo apaixonado pelo seu traço, pela sua cor e pela criatividade que constitui uma das suas imagens de marca e faz com que não me canse de lhe apreciar o trabalho e invejar a maestria. Mas, para além disso, o pintor é um homem livre, um homem de cultura e de carácter, qualidades que muito lhe aprecio. Sou, portanto, suspeito e pouco isento ao escrever estas linhas, o que confesso em nada me perturba porque considero que a qualidade da sua obra fará dele, seguramente, um dos mais incontornáveis pintores contemporâneos.

O trabalho multifacetado que desenvolveu ao longo dos anos está desde ontem em exposição no Museu de Arte de Macau e merece ser conhecido e divulgado. Bem sei que Konstantin está presente no Museu do Oriente (Lisboa), no Museu de Arte de Macau, que esteve na 52.ª edição da Bienal de Veneza, em representação de Macau, e que os seus trabalhos também podem ser apreciados no Museu de Arte de Cantão, em Hong Kong, em Xangai ou no Hotel Mandarim Oriental (Macau), entre outros locais, mas o que a exposição Ad Lib traz de novo é o facto de apresentar um retrato biográfico do autor e reunir um conjunto de 34 obras recentes que incluem pinturas, esculturas, instalações e vídeos, numa espécie de viagem pelo seu riquíssimo universo.

Como o próprio escreveu, as técnicas, os temas e os estilos que utiliza são muito diversos, "indo de projectos à produção de filmes", pelo que nunca foi fácil juntá-los sob um título único. Fácil ou difícil, confesso que não é coisa que me preocupe porque aquilo que é verdadeiramente importante é conhecer a obra de alguém cuja influência muito provavelmente só as próximas gerações estarão em condições de avaliar devidamente.

Recomendo, pois, a quem puder fazê-lo, que até 28 de Maio de 2017 demande o Museu de Arte de Macau e aprecie obras que, sendo um verdadeiro deleite para os olhos, nos questionam e nos obrigam a reflectir. E, já agora, quando lá forem não se esqueçam de obter um exemplar, se entretanto não esgotar, do surpreendente catálogo editado pelo Instituto Cultural e pelo Museu de Arte de Macau, e por cujo resultado foram responsáveis Oscar Ho, Don Cohn, António Conceição Júnior, Yao Jingming, Romi Lamba, Kristoffer Luczak, Mário Costa, Chan Hin Io, Gala Bessmertnaia, Max Bessmertnyi e Ricky Wong. Absolutamente a não perder.

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por Sérgio de Almeida Correia

Quarta-feira, 26.10.16

aflitivo

Eu supunha que episódios do tipo Relvas e do tipo Sócrates não se iriam repetir e que teriam servido de lição. Uma vez vez mais estava enganado. A leviandade com que este tipo de situações, e outras idênticas, ocorre na nossa vida pública e o modo como os partidos contemporizam com isto é aflitivo. Bem sei que os outros eram membros do Governo, um era ministro e o outro primeiro-ministro, e ambos com fortes responsabilidades políticas nos respectivos partidos, e este é apenas um capataz, mas isso não afasta a gravidade da situação nem a posição em que deixam os seus partidos.

Um tipo que admite ser nomeado por um primeiro-ministro nas circunstâncias em que este foi nunca se devia ter demitido. Ele nunca deveria é ter sido nomeado. Mas tendo-o sido, o que partido devia fazer era instaurar-lhe um processo disciplinar com vista à sua exclusão, com base no art.º 14.º n.º 2 dos Estatutos do PS que prevê a exclusão daqueles que, sendo militantes, com a sua conduta acarretarem sério prejuízo ao prestígio e ao bom nome do partido.

Enquanto os partidos não cortarem a direito e não correrem com esta gente das suas fileiras, gente que revela uma tremenda falta de carácter e de idoneidade moral para estar na política e exercer cargos políticos e/ou de confiança política, os partidos vão continuar a fenecer lentamente e a desprestigiar a democracia, afastando o comum dos cidadãos da participação e obrigando-o a procurar refúgio em movimentos sociais e outras organizações da sociedade civil. Já era mais do que tempo para perceberem isto.

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por Sérgio de Almeida Correia

Sexta-feira, 21.10.16

trocados

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 (foto Ponto Final)

É difícil ter um sistema de justiça a funcionar quando as preocupações manifestadas pelos discursos dos responsáveis não se conjugam. Tirando o apreço pela estatística e pelos problemas dos móveis e imóveis, em tudo o mais divergem. Este ano a cerimónia de abertura do ano judicial também não constituiu novidade.

Novidade foi o discurso do Presidente da AAM. Não pela forma, que é a usual, mas por deixar perceber que anda cada vez mais desfasado dos tempos, angustiado e correndo atrás do prejuízo. Com os passos trocados.

Eu compreendo-o. Há um ano deixou uma brevíssima nota com seis linhas sobre o problema da língua portuguesa nos tribunais. Uma nota menor, tímida, que passou despercebida, talvez por não achar que o assunto fosse então suficientemente importante para que a AAM assumisse um papel de charneira na defesa da língua portuguesa e dos direitos dos cidadãos de Macau. Este ano tentou acertar o passo e as seis linhas passaram para mais de duas páginas. O ano passado não disse nem uma palavra sobre a Lei de Terras e os problemas que aí vinham, confiando que sem fazer ondas tudo se resolveria. Este ano erigiu este assunto em sua bandeira, vá-se lá saber porquê.

Eu não quero dizer que o Presidente da AAM só fala nos problemas quando a casa começa a arder e o fogo já é visível da Muralha da China. Ou que se sente mais protegido para falar nos problemas depois de quem tem o poder, o político e o dos cifrões, enviar os seus recados assim que pisa o sagrado solo de Macau. Seja porque Li Keqiang, António Costa e Tiago Brandão Rodrigues estiveram em Macau e mostraram o quanto estão interessados na promoção do bilinguismo e na defesa da língua portuguesa como reserva estratégica da China, de Portugal e da RAEM, seja porque no último ano a Administração da RAEM começou a declarar a caducidade de muitas concessões cujo estatuto há muito devia ter sido revisto de tão ostensivo o abuso e escandalosa que era a sua gestão, o certo é que só este ano se amofinou e deu dimensão a estes problemas que há muito pairam por aí.

Em relação às preocupações com a língua portuguesa, nas quais aliás me revejo, voltou a chegar muito tarde, não tendo falado grosso em devido tempo. Quanto às terras confirma-se que enviar pareceres a desoras, discretamente, de pouco serve quando há pirómanos a legislar.

Estas coisas também me preocupam, embora as nossas preocupações não sejam iguais. E eu não saiba quem são os tais "investidores" e "empresários" que preocupam o Presidente da AAM, que andam a fugir para outras jurisdições e foram surpreendidos pelo "radicalismo das opções legais". Em todo o caso, deixem-me dizer que há alguns que não fogem: ficam apenas de férias e impedidos de continuar a "investir" como sempre fizeram, nem que seja num cafezinho na Times Square. Quanto aos outros, os que ficaram surpreendidos, é pena que não tivessem sido caçados pelo "radicalismo" das soluções legais ainda no tempo da Administração portuguesa. E tenha sido necessário aguardar tanto tempo, e tantas concessões e condecorações depois, para perceberem que ainda não eram os donos disto tudo. Do mal o menos. 

Em todo o caso, com a estima que me merece, a única coisa que daqui posso humildemente sugerir ao Presidente da AAM, já que não conheci o discurso antes nem me foi perguntado se estava de acordo para assim falar em meu nome, é que para futuro se antecipe ao tempo. O tempo não resolve problemas; e normalmente só os agrava, a não ser para os burocratas, que não é o seu caso. É melhor que não espere pelas sessões de abertura do ano judicial para dizer que preceitos legais não se revogam pelo "desuso", e que deixe de confiar, sentado, "em soluções de transição". Que não fique à espera que os fundilhos de terceiros, sejam advogados, empresários ou simples cidadãos tesos e anónimos comecem a arder para manifestar publicamente as suas preocupações. Os fundilhos de terceiros de boa fé, evidentemente, que presumo que sejam os que foram enganados por alguns dos tipos que conseguiram as concessões (e de algumas ainda estamos para saber como, mas há quem esteja a tratar disso a todo o vapor).  

A Administração tem culpa? Também tem. E não é pequena. Mas o problema é que, às vezes, a gestão do tempo não é boa conselheira. Não serve para nada e depois não há arbitragem, por muito bem paga, discurso ou pedido de desculpas a quem em nós confia, e confiou, que safe o que já ardeu. Ardido, ardido está. 

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por Sérgio de Almeida Correia

Sábado, 08.10.16

túbaros

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O meu amigo R.M. (espero que ele não se zangue por eu citá-lo aqui) lembrou-se de que em tempos tivemos o New Deal, de Roosevelt. Depois chegou o "Yes, we can", de Obama. E a seguir veio "Grab them by the pussy, Making America Great Again", de Trump.

Por este andar, digo eu, lá para Novembro (se não for já para semana), somos capazes de vir a ter o "We got him by the balls", de Hillary Clinton.

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por Sérgio de Almeida Correia

Quinta-feira, 06.10.16

mérito

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Por momentos pensei que o desfecho pudesse ter sido outro, apesar da consistência de que dera mostras nas provas anteriores e na forma aparentemente tranquila como as foi superando. A entrada em cena de um "fantoche" encomendado pela Alemanha e a chanceler Merkel, com a conivência da rapaziada às suas ordens junto da União Europeia, a começar pelo seu ilustríssimo presidente da Comissão, e com o eurodeputado Mário David (PSD/PPE) fazendo de mestre de cerimónias, levou a que durante algumas horas pairasse a solução de mais um desfecho medíocre na escolha do nome que o Conselho de Segurança da ONU iria propor à Assembleia Geral. Confesso, pois, que ao aperceber-me, ontem à noite, através de canais televisivos internacionais (CNN, France 24, BBC World e Al Jazeera) da escolha do nome de António Guterres para próximo secretário-geral da mais global e universal das organizações, fiquei imensamente satisfeito. Creio que a maioria dos portugueses, com excepção dos ressabiados e ignorantes da praxe, também terá ficado.

António Guterres poderá não ter sido um bom primeiro-ministro (eu acho que podia ter sido muito melhor), ou pelo menos o primeiro-ministro que os portugueses gostariam que tivesse sido, em especial no seu segundo mandato, quando os lobbies do PS e o país real lhe retiraram o tapete, mas isso não retira qualquer mérito ao resultado que agora alcançou e ao extraordinário trabalho que fez ao longo de dez anos em prol dos refugiados de todo o mundo. E, pelo ineditismo do processo que foi seguido, aliado à circunstância de ser a primeira vez que um ex-primeiro-ministro, que foi alto dirigente político, ter sido o indicado para ser proposto à Assembleia Geral para assumir o lugar, podem ser bons presságios para a ONU e para o Mundo.

Guterres deu provas de ser o melhor preparado para o lugar. A experiência política e executiva à frente do PS, de Portugal e do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), a fluência em vários idiomas, o espírito tolerante, apaixonado e humanista, talhado ao longo de décadas e de intenso trabalho cívico, a capacidade de intervenção em momentos críticos e de diálogo são hoje qualidades imprescindíveis no exercício de um mandato como o de Secretário-Geral da ONU. Viajante incansável, homem culto, civilizado e de carácter, incapaz de se envolver, directa ou por interposta pessoa nas moscambilhas e esquemas que proliferam na ONU e, lamentavelmente, ainda hoje em Portugal, na sequência dos maus exemplos herdados dos governos Barroso, Passos Coelho e Sócrates, Guterres reúne hoje um consenso à sua volta que é capaz de lhe dar as condições ideais para o desempenho de um mandato histórico, não obstante a agudeza e premência da resolução de problemas como a crise Síria, os refugiados, os desafios do clima e a protecção dos direitos humanos, com especial incidência nos Estados Unidos, nalguns países árabes, em África e na Ásia.

O histórico resultado alcançado, pela repercussão que está a gerar (basta ler a imprensa internacional e ver o que aí se escreve), faz do nosso compatriota uma esperança nas imensas capacidades da alma humana e no seu poder de superação das dificuldades. Mas é, ao mesmo tempo, sinal da responsabilidade e da maturidade adquirida por Portugal e os portugueses no mundo complexo das relações internacionais e da diplomacia.

O mérito de Guterres, indiscutível na forma como se preparou para o lugar e no alto nível da suas prestações, e que deve ser reconhecido, não pode ser dissociado do esforço colectivo, e não só dos portugueses, gerado em torno da sua candidatura. Porque em causa não está só o interesse nacional mas um mundo bem mais vasto, carente e perigoso do que o rectângulo, não podendo o futuro Secretário-Geral sofrer do mal geral do umbiguismo, nem reduzir-se a uma dimensão nacional que não é, nem nunca foi, a da gesta dos portugueses enquanto construtores de um mundo global, pacífico e equilibrado.

É justo por isso mesmo recordar que depois de Freitas do Amaral ter chegado a presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, de Jorge Sampaio ter sido Alto Representante da Aliança das Civilizações, de Portugal ter desempenhado um papel fundamental na mediação de alguns conflitos, de se assumir como um Estado de referência no diálogo Norte-Sul, na ligação da Europa com África, não só lusófona, e a América do Sul, do papel desempenhado na resolução do problema timorense, com uma intervenção extremamente meritória na Bósnia-Herzegovina, no Afeganistão, nos problemas da pirataria no corno de África, para só citar alguns exemplos, a eleição de Guterres constitui um marco histórico da diplomacia portuguesa, da sua capacidade de intervenção e um reconhecimento da sua valia.

De Guterres esperamos todos que seja mais do que o simples funcionário administrativo previsto no artigo 97.º da Carta da ONU, que seja capaz de promover as reformas de que a organização carece, e que até estas estarem concluídas consiga gerar os consensos necessários para poder fazer uma interpretação extensiva dos seus poderes, mostrando-se capaz de conferir à função a visibilidade, o papel e a dignidade que perdeu, servindo os interesses da paz e da justiça universais.   

Faço votos de que dentro de cinco anos, António Guterres, se tiver que deixar o lugar, conclua o seu mandato ainda com maior aclamação e apoio do que aqueles que geraram a sua escolha pelo Conselho de Segurança, cuja ironia maior residirá no facto do anúncio do seu nome ter sido feito pelo representante da Rússia, exactamente um daqueles países de quem se temia um veto à sua candidatura. Que honre o mandato que lhe vai ser conferido é o que desejo. Honrando-o estará a honrar o seu próprio nome e o nosso, de portugueses, cidadãos do mundo e para o mundo, dando voz a quem dele depende para compreender que a vida tem sentido, faz sentido e dá-nos sentido. A todos, e não só a alguns.

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por Sérgio de Almeida Correia

Terça-feira, 04.10.16

capitão

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 (1929-2016)

 

"Só nós sentimos assim"

Obrigado, meu capitão.

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por Sérgio de Almeida Correia

Sábado, 24.09.16

decoro

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"decoro (ô), s.m. respeito de si mesmo e dos outros; decência; compostura; dignidade; honestidade; vergonha; pundonor; nobreza. (Do lat. decôru-, "que convém")." - Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora, 6.ª edição

 

Mas será que é preciso ser arguido, acusado e condenado com trânsito em julgado para ter decoro? E vergonha? E senso? É cada vez mais evidente em cada dia que passa que não há um, dois ou três Partidos Socialistas, mas sim quatro. Há o de José Sócrates, há o dos amigos de José Sócrates, que se confunde com o primeiro em função das ocasiões, há o de António Costa e do Governo, que corre atrás das metas do défice e se esforça por cumprir compromissos com toda a gente e mais alguma, e depois há o dos portugueses que se revêem no PS e que não sabem em que PS hão-de confiar.

Oxalá esteja enganado, mas neste momento, se forem todos como eu, quer-me parecer que em nenhum deles. O pior é que nos outros também não se pode confiar.

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por Sérgio de Almeida Correia

Terça-feira, 20.09.16

bestas

A Helena Sacadura Cabral colocou um pouco mais abaixo* um pequeno post que alerta, implicitamente, para um dos grandes problemas com que se debate actualmente a sociedade portuguesa, apesar de não ser exclusivo desta. Trata-se de uma oportuníssima chamada de atenção que desde já agradeço à minha companheira por me ter proporcionado o ensejo de, en passant, como no xadrez, aqui deixar estas breves linhas.

No pequeno desenho que ali ficou gravado pode ler-se uma frase que, a propósito dessa parte anterior ou superior do encéfalo, designada por cérebro, que coordena e controla os movimentos do corpo, se responsabiliza pela aprendizagem, pela cognição, pelas emoções e a memória, expressa um sonho. Mas também formula um desejo. A frase, referida a esse órgão, "todos deveriam ter um" é de extrema actualidade. Quero por isso mesmo também felicitar a Helena, a quem acompanho nesse sonho e nesse desejo.

Mas a mim, e agora escrevo para a Helena, que vivo no mundo dos humanos e dos cães, alguns como nós, diria o Alegre, outros muito melhores do que nós, digo eu, o que me preocupa é a realidade.

O que deveras me preocupa, Helena, não são os que não têm, os que nunca tiveram cérebro, os que tiveram a infelicidade de nascer descerebrados.

O que me preocupa, Helena, são aqueles desgraçados para os quais a ciência ainda não encontrou resposta, que não encontrará, e cujo problema se agrava em cada dia que passa. E creio que Deus também nunca encontrará solução. Porque esses problemas são aqueles para os quais Ele não tem resposta, nem nunca terá, porque esses são os que saem do baralho e desafiam a Sua própria intuição do Universo.

O que me preocupa, Helena, são os que tendo nascido com cérebro o perderam pelo caminho. Os que o perderam ao longo do processo de socialização, e que aparentemente não sofreram nenhum acidente. Que a gente saiba, que se visse ou que os próprios sentissem. Nem ninguém o encontrou depois de uma visita, sem os próprios saberem, obviamente, aos Perdidos e Achados da esquadra da Alegria. Esses são os casos mais complicados. Um amigo meu chinês, um daqueles que não come cherne para não dar pela falta dele quando vier o tempo em que nos casinos só haja dinheiro para chaputas, costuma dizer que esses, os que têm a infelicidade de se acharem nessa condição, são "as bestas".

Ele é capaz de não estar longe da verdade, embora eu esteja sempre a dizer que ele não deve dizer isso. Porquê, Helena? Porque enquanto a ciência não tiver resposta, até que o António Damásio nos esclareça, é situação que pode acontecer a qualquer um.

E no que a mim respeita, Helena, se um dia isso me acontecer, eu só peço aos meus amigos, a começar pelos que aqui tenho, no Delito de Opinião, e aos outros que não me conhecem, que não me deixem continuar a escrever. E se eu escrever que não me editem o que escrevo. Postumamente ainda menos. Como é que eu depois poderia responder ao Cardoso Pires ou ao O'Neill, quando chegasse lá acima, e eles me apresentassem a factura perguntando: "Que porcaria é esta? O que andaste a fazer lá em baixo? Não tens vergonha?". 

Isto para já não falar na chatice que seria ter de convidar alguém para escrever o prefácio. Os outros, os que não fossem convidados, ficariam sumamente ofendidos. E no fim quem seria capaz de distinguir "as bestas", as genuínas, das "bestas", das outras? Nem os outros, os cães, que sendo como nós ainda têm a sorte de terem olfacto, e que só por esse sentido que têm tão apurado distinguem o que lhes convém do que não lhes convém, pensando na preservação da espécie e na protecção das suas crias de maiores perigos, seriam capazes de distingui-los.

Mas estas são coisas em que as "bestas" não pensam, Helena. Antes ou depois de procriarem.

 

Um abraço,

Sérgio

 

P.S. Texto escrito para o Delito de Opinião e a propósito do que ali foi publicado pela Helena Sacadura Cabral.

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por Sérgio de Almeida Correia

Terça-feira, 13.09.16

descalabro

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Ontem, o South China Morning Post (SCMP) destacou o assunto. Esta manhã o Ponto Final voltou a pôr o dedo na ferida.

Duzentos milhões de dólares de Hong Kong são anualmente despendidos para enviar pacientes para Hong Kong. Para quê? Aparentemente para exames e tratamentos que deveriam ser realizados em Macau. O valor pode parecer irrisório face aos quase oito mil milhões de patacas que foram orçamentados para 2016 na área da Saúde, mas não pode deixar de ser considerado um valor brutal face à má qualidade dos serviços actualmente prestados nesta área pelo Governo da RAEM.

Não vale a pena, por agora, falar no mais do que escandaloso caso do novo Hospital, nos cheques-saúde de valor irrisório que são distribuídos pela população, que nem para duas consultas anuais chegam, nem nas promessas feitas pelo membro do Governo que tem a tutela em relação à excelência do serviço que se propunha oferecer à população, mas do qual toda a população foge como o diabo da cruz.

Para mim, o número de consultas ou de profissionais ao serviço do sector não me serve de indicador da qualidade, neste caso péssima, do que é oferecido à população sempre que é necessário ir um pouco mais além do que meia dúzia de pontos nos serviços de urgência ou da aplicação de um penso.

Da reportagem do SCMP, o que ressalta é a profunda desconfiança que a população tem no sistema de saúde de Macau, nas qualificações e competências dos seus profissionais, o que sendo injusto para alguns não é de espantar atendendo à sangria de quadros que se registou com o final da Administração portuguesa e com a forma como foram corridos do serviço público para o privado alguns dos melhores profissionais que ali trabalhavam para serem substituídos por outros que são perfeitamente incapazes de efectuarem um diagnóstico correcto e a tempo e horas, ignorando situações gravíssimas, as quais são geradoras de perplexidade perante os seus colegas de outras jurisdições quando confrontados com as situações clínicas e a percepção dos pacientes de que durante anos todos os exames e consultas que fizeram em Macau não serviram para nada.

As queixas, inquéritos e acções que correm e que têm sido instaurados, alguns arquivados sem que se perceba muito bem a razão para o arquivamento, não são sinal da excelência do serviço prestado, mas da sua incapacidade e falta de qualidade para responder ao que lhe é solicitado. Mais escandaloso quando se sabe que as dotações para uma certa associação de beneficência, que de cada vez que é necessário ajudar os mais pobres e desvalidos se recusa a tratá-los sem dinheiro à cabeça, "chutando-os" rapidamente para o hospital público como se tivessem lepra, está sempre a aumentar. É inaceitável que um utente que necessite de uma consulta e de fazer exames de rotina se dirija a um centro de saúde, lhe seja marcada uma consulta para daí a quase dois meses e depois passe mais um mês e meio até que esse mesmo utente possa voltar à consulta com as análises e os exames que lhe foram solicitados. Aconteceu comigo, sei do que falo. Vi salas cheias e gente à espera. Como eu.

Do que tenho visto e ouvido tem havido de tudo: doentes que são aconselhados pelos próprios médicos, perante situações mais graves, a não serem tratados em Macau; doentes que vão para HK sem necessidade, sendo-lhes depois perguntado por que não foram operados em Macau; doentes que devem ser enviados para tratamento no exterior por falta de especialistas competentes aqui e em relação aos quais ninguém quer assumir a decisão de enviá-los para o exterior; doentes que são tratados a maleitas ligeiras quando estavam com doenças do foro oncológico que aqui não foram diagnosticadas; enfim, um nunca mais acabar de situações que dão conta do estado de descalabro (consentido) que se vive em matéria de Saúde na RAEM. Da oncologia à oftalmologia, da dermatologia à estomatologia, da radiologia à endocrinologia, da cardiologia à cirurgia vascular, para só falar em algumas das especialidades mais badaladas, a situação é aterradora. 

A reportagem do SCMP e o valor que agora todos ficamos a conhecer é deveras escandaloso. Não tanto pelas queixas acolhidas na reportagem, as quais de há muito são de todos conhecidas, nem pelo valor em si, equivalente a um pacote de amendoins para uma região como Macau. Mas mais pelo que representa em termos de inépcia, de incapacidade de gestão e de incompetência face às verbas gastas em Macau e à péssima qualidade dos serviços prestados. Mas a mais quando nesse valor não entra aquilo que sai do bolso de cada um directamente para os médicos, hospitais e clínicas de Hong Kong, de Taiwan, da Tailândia ou de Portugal. Ainda que multipliquem por dez os subsídios directos ou indirectos à Universidade de Jinan ou a uma qualquer associação de "beneficência", se não se voltarem a contratar médicos e profissionais de saúde competentes, rapidamente e com capacidade para transmitirem conhecimentos e operarem os equipamentos parados, a situação não se irá alterar. 

Se a RAEM pretende ter áreas de excelência, se pretende diversificar alguma coisa, pode começar por oferecer um conjunto de serviços médicos capazes aos seus cidadãos, com especialistas competentes, responsáveis e responsabilizáveis, de maneira a que de cada vez que há algum problema não se refugiem na burocracia dos serviços, na falta de quadros, na insuficiência das instalações, na falta de equipamentos, na enfermeira ou no final do turno.

Uma região como a RAEM, que se gaba de apresentar os melhores casinos e hotéis do mundo e dezenas de restaurantes com chefes e estrelas Michelin, que se orgulha de ter um PIB per capita superior a 90.000 USD, o que coloca Macau no top 5 mundial, não pode continuar a ter a Saúde que tem. Com um rendimento ao nível dos suíços é de esperar que os serviços médicos e todos os outros que dependem do Governo estejam ao nível do que no país daqueles se faz. E não que, com o que aqui se factura, os diagnósticos estejam ao nível do que se faz no Congo ou no Bangladesh.

A má qualidade dos serviços médicos especializados e a desconfiança que os que são actualmente prestados gera junto da população de Macau deviam ser motivo de preocupação. E muita vergonha. É bom falar nisto no dia em que o Parisian é inaugurado com toda a pompa e o glamour de Lara Fabian. Aqui já escasseiam as rosas, e as Tulherias há muito que estão sem jardineiros. 

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por Sérgio de Almeida Correia

Sexta-feira, 09.09.16

biblioteca

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Gosto de livros. Aliás, vivo no meio de livros e sem livros não sei o que seria. Gosto de sentir a sua textura, o seu cheiro, gosto de ler e virar as páginas, e depois voltar atrás e reler de novo, apreciando cada letra, cada palavra, cada sílaba, cada virgula. E depois também gosto de manuseá-los, de agarrar as suas lombadas como se fossem uma mulher por quem eu estivesse apaixonado, de com os meus dedos percorrer os detalhes da encadernação, as suas curvas, de apreciar as capas, de procurar as datas de edição e de impressão, a tipografia, o local de edição, todos os detalhes e pormenores. Os livros são vida, experiências, prazer, sentimentos, um fluir ininterrupto de emoções, por vezes de angústias. Os livros que lemos, o que com eles aprendemos, são o que faz de nós o que somos. Como somos. Os livros são um dos espelhos da alma de cada um. Por isso há alguns que têm almas de papel. Também há alguns sem alma, como os que nunca leram, os que não sabem ler, os que nunca aprenderam a ler e a apreciar a leitura. E há os que não podem ler, os que perderam a visão gostando de ler, e que ficaram reduzidos ao desgosto de terem de ficar com o que leram. Até morrerem.

Se eu pudesse tinha todos os livros do mundo. Os bons. Os que nos ensinam alguma coisa, os que nos ensinam a ler e a escrever, a construir frases que façam sentido, com as letras todas. Sem dar erros. Às vezes tenho dificuldade em guardá-los. Lá em casa gostariam que eu não tivesse mais livros, mas eu descubro  sempre lugar para mais um. Gostava de ter uma Marmeleira em Macau. E outra em Cascais. O meu problema é que não tenho dinheiro para ter uma Marmeleira repleta de estantes e de livros. Mas também não vou deixar de gostar de livros. Nem de os ter. E por causa dos livros dou comigo a escrever sobre livros quando o que eu queria era falar-vos sobre uma biblioteca. Não é bem a mesma coisa embora vivam juntos numa espécie de união de facto que dá ares de amizade colorida quando os vemos alinhados nas prateleiras das estantes. Por vezes, parece-me mais um concubinato quando encontro o Herberto junto às memórias da Maria Filomena Mónica. Há sempre alguém que vai buscar um livro à estante e depois não o devolve aos respectivos parceiros. Mudam-no de casa e aí é que começam as chatices. Até que damos com aquele ou aquela que procuramos já enturmado em casa alheia, na prateleira do lado, entre a Duras e a Sagan com aquele álbum magnífico dos dez anos da morte do Senna por cima. A empregada que pouco lê já aprendeu a respeitá-los. Pode limpar o pó, só que no fim têm de ficar todos no mesmo sítio para não haver borrasca. E nada de tirar do seu interior os papelinhos amarelos com as minhas anotações, e os bilhetes dos concertos e das corridas que vão servindo de marcadores. Porque nunca há marcadores que cheguem. Livros e bibliotecas são companheiros inseparáveis. Também gosto muito de bibliotecas.

Porque aí há quem por mim tome conta dos livros, os arrume e os conserve, apesar de odiar as burocracias de algumas bibliotecas. Isso e os leitores que escrevem a caneta esferográfica nos livros, que os riscam com tinta e dobram as páginas para não se esquecerem onde ficaram. Esses leitores não gostam de livros, nem de bibliotecas. Eu gostava muito da biblioteca do Museu dos Condes de Castro Guimarães, em Cascais. Ficava no meio do parque, no meio do verde, e às vezes até conseguia dali ouvir o mar. Tenho saudades dessa biblioteca onde ia todas as semanas, às vezes dias, pequena, aconchegante, com uma lareira para os dias de Inverno. E agora que estou longe de Cascais vieram falar-me numa biblioteca em Macau, no antigo tribunal de comarca, aproveitando-o e reconvertendo-o para ali ser feita uma boa biblioteca. Eu acho uma óptima ideia. Os chineses e eu temos isso em comum. Gostamos de livros e de bibliotecas. Já vi excelentes bibliotecas na China. E sem formalismos, sem burocracias. A nova Biblioteca de Cantão é moderníssima, cheia de luz, num local fantástico, mesmo junto à Ópera.

Eu gostava de ter uma biblioteca no velho tribunal. Conservando o velho edifício onde no começo da minha vida profissional fiz tantos julgamentos. E até inquirições em processos disciplinares de que fui instrutor. Tinha vinte e cinco anos. Transformar aquele edifício numa biblioteca a sério, com salas sem humidade, com muita luz, com uma temperatura agradável, com livros sem bolor nem cheiro a mofo, com adequada insonorização, sem cheiro a comidas nem falatório, e voltar a vê-lo cheio de gente e de silêncio, cheio de livros, de secretárias de madeira, confortáveis, com prateleiras de onde exalasse o cheiro do papel, a cor das lombadas. Quem me dera.

E ter a biblioteca ali mesmo no centro da cidade, com estacionamentos e transportes à porta para que ninguém tivesse  que se preocupar com o parquímetro ou as multas. Com salas amplas, cantos simpáticos, com gabinetes para investigação e pessoal limpo, de mãos finas, educado, simpático, atencioso, culto, que soubesse cuidar dos livros e dos leitores e fosse capaz de distinguir um Kafka de um Bolaño, um Borges de um Eça. E com muitos livros de Ciência Política para eu não ter de estar sempre a comprá-los pela Internet, gastando rios de dinheiro, sem saber quando chegam, nem se chegam, e se no final será necessário ir outra vez ao banco trocar o cartão de crédito. Uma biblioteca ali, no centro da cidade, era o melhor que nos podia acontecer. Se em vez de outro "Papapun" cheio de tralha, e de gajas e gajos aos encontrões com sacos enormes, cheios de fatos de treino e de roupas horríveis, ou de mais uma cantina medíocre de onde exalam cheiros pestilentos e sai uma comida mal confeccionada,  tivéssemos ali uma biblioteca decente, bonita, arejada e cheia de livros, isso seria um milagre.

O Governo da RAEM tem feito muitos disparates. Todos os dias deparo-me com mais um, mas agora têm razão. Uma biblioteca no centro da cidade é um sinal de civilização, uma mensagem para os ignorantes, um recado para a população. Um cidadão que lê é um cidadão esclarecido, um cidadão informado. E se for um jogador poderá sempre aprender a ler Dostoievski, que também tem histórias de fortunas e de risco, com hotéis, mulheres, amor e dívidas.

Eu gostava de ter uma biblioteca no antigo tribunal. De poder vê-lo cheio de livros e de leitores. Depois da Rota das Letras por lá passar, uma biblioteca ali seria honrar a memória do espaço. Dar-lhe um futuro digno, um futuro civilizado, um futuro promissor. Ao edifício mas também à população de Macau. Felizes os povos que podem aprender a ler, a gostar de livros e ainda por cima com a sorte de possuir uma biblioteca mesmo ao lado, com os livros todos à mão, vinte e quatro horas por dia, como se fosse um verdadeiro casino de livros. Hoje sai um, amanhã outro, e no fim todos têm uma fortuna. No que leram, no que aprenderam, no que sonharam. Seria a nossa salvação, a nossa garantia de futuro, o nosso seguro de vida contra a ignorância, contra a estupidez dos governantes e a prepotência do poder.

Está na hora dos cidadãos de Macau lutarem pelo seu futuro com inteligência. Se começassem por lutar por ter uma biblioteca na zona mais nobre da cidade estariam a fazer um favor a si próprios. Os seus filhos e netos hão-de agradecer-lhes. Eu quero uma biblioteca no antigo tribunal. Cheia de livros. E vou lutar por ela e por eles. Começo hoje. Quem quiser que venha comigo.

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por Sérgio de Almeida Correia

Terça-feira, 06.09.16

inocência

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 (Foto de Gonçalo Lobo Pinheiro, daqui)

 

"Quando não preciso de falar uma língua esta não é útil porque a sua importância tem a ver com a sua utilidade. Toda a língua tem a economia da sua utilidade. Línguas não úteis tendem a morrer, isto é conhecimento comum."

A ler, reler e reflectir a excelente e incisiva entrevista que a Prof. Inocência Mata deu ao Jornal Tribuna de Macau. Para os que andam a dormir na forma e enchem a boca com a língua portuguesa.

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por Sérgio de Almeida Correia

Segunda-feira, 05.09.16

imaginação

 

Em Maio de 68 a imaginação era um slogan. "L'imagination au pouvoir" escrevia-se então nas paredes do Quartier Latin e da Sorbonne. O tempo acabou por levar algumas dessas memórias, mas as que ficaram tornaram-se eternas e reaparecem de cada vez que recordamos as canções malditas e os poetas de sempre que encheram muitas noites de amor e reflexão.

O que não me passaria pela cabeça era descobrir que aquilo que os sonhadores do Maio de 68 não conseguiram então concretizar, tornar-se-ia realidade em Portugal muitos anos depois. E logo no Palácio de Belém.

O livro agora publicado por um ex-colaborador de um senhor que um dia descobriu a existência de vulnerabilidades no sistema informático da Presidência da República, talvez por acreditar que este seria mais seguro do que o da Casa Branca, é a prova acabada de que a imaginação esteve no poder durante dez longos e férteis anos. Da crença do ex-Presidente da República nas palavras do antigo conselheiro de Estado e seu amigo Dias Loureiro à confiança nos gestores do BPN para gerirem e fazerem render as poupanças de alguns amigos, sem esquecer as queixas sobre os cortes na reforma, as preocupações com a poupança e a subsistência futura, os momentos zen das suas comunicações ao país, o deslumbramento com "o sorriso das vacas", a composição de algumas comitivas presidenciais, o nível das preocupações demonstradas ao longo dos mandatos, até mesmo a inutilidade da acção política, tudo o que se passou nesse tempo entre Março de 2006 e Março de 2016 ganha sentido quando se lêem as palavras do ex-assessor de Cavaco Silva. De tal forma que nem o facto deste ter tido, sabemos agora, comportamentos que o ex-assessor considera "inexplicáveis" para consigo, depois de terem convivido "ininterruptamente" desde 1986, o fizeram sair do Palácio de Belém.

Tantos anos volvidos sobre o Maio de 68, é bom saber que a imaginação esteve no poder, que ainda há editores que apostam na imaginação, que há gente capaz de viver para depois poder contar as suas experiências paranormais. Isso e colecções de cromos.  

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por Sérgio de Almeida Correia

Quarta-feira, 31.08.16

preocupações

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A chegada da UBER ao vergonhosamente desregulado mercado de Macau, de táxis e não só (digo eu), para além de ter sido uma pedrada no charco e uma lufada de ar fresco que levou os velhos, sujos e poluentes táxis da cidade, e seus mal educados motoristas, a cerrarem fileiras contra a boa qualidade, educação e asseio do serviço prestado pelos concorrentes, está a servir para mostrar até que ponto a desorganização e falta de bom senso são compatíveis com o compadrio e a criação informal de um estado policial.

Nos últimos meses têm-se reproduzido os sinais de alarme. Sinais que, ademais, se somam à quebra das receitas do jogo, ao arrefecimento da economia local e a uma crescente atenção a todo e qualquer movimento cívico que se mostre capaz de cortar a canícula e despertar a atenção dos residentes para os assuntos que lhes dizem respeito.

A notícia hoje veiculada pelo Macau Daily Times, que anunciava a três colunas os avisos que alguns papistas e papisas que dirigem serviços públicos da RAEM endereçaram aos seus subordinados, cidadãos que por acaso são também funcionários públicos, no sentido de não exercerem a sua liberdade de expressão e de manifestação, aconselhando-os a não assinarem uma petição a favor da referida UBER e a não participarem numa manifestação, aliás promovida entre outros por um deputado com assento na Assembleia Legislativa de Macau, atinge foros de infâmia.

Haverá quem se sinta melindrado com a utilização desta expressão, mas na verdade a forma como tem vindo a ser cimentado o controlo sobre as liberdades de expressão, de reunião, de desfile e de manifestação dos cidadãos de Macau, a juntar à auto-censura que muitos a si próprios já impõem com receio de futuras represálias, configura um inusitado e ilegal ataque a direitos básicos e à autonomia da RAEM, que desconfio não tenha colhido o aval das autoridades da R.P.C..

A inacção dos poderes públicos relativamente ao que a população considera prioritário – qualidade vida em geral, defesa da qualidade do ar e do ambiente, mais espaços verdes, melhores escolas, regulação e fiscalização do mercado do imobiliário, em especial do mercado de arrendamento e dos condomínios, da qualidade da execução das obras públicas, da eficiência e conforto do sistema de transportes, higiene das vias públicas, melhoria dos serviços de saúde, controlo da inflação, controlo de pragas, apoio aos mais carenciados, fiscalização das concessionárias de serviços públicos e dos poderes informais ligados ao jogo –, e a sua conivência com os interesses dos oligopólios e monopólios privados, indissociável da tendência "controleira" de uns quantos subordinados à espera da promoção, é demonstrativa da incapacidade de resposta aos problemas mais prementes, ao mesmo tempo que cava o fosso entre os mais ricos, os mais privilegiados, os mais impunes, e os outros, acentuando a necessidade de uma reforma total do sistema vigente de incoerências, imunidades e privilégios.

Os que precisam de andar de autocarro e de táxi, os que tanto frequentam as filas dos transportes públicos como as das rotundas permanentemente em obras, enquanto desesperam pela abertura do metro de superfície, os que viram as páginas dos jornais em busca dos concursos para a habitação social, os que se acotovelam por um lugar nos teleféricos do Wynn Palace, última ilusão de um sonho de vida que não existe e está cada vez mais distante da maioria, mereciam que o Governo aprovasse um programa de emergência face ao estado de acelerada calamidade pública (para os padrões de vida a que a cidade estava habituada) e salve-se quem puder em que se vive.

De cada vez que as autoridades da RAEM se esquivam a resolver os problemas dos transportes ou da habitação, ou que se exige, como me foi transmitido por alguns cidadãos, aos passageiros de veículos da UBER que informem se são funcionários públicos e que lhes seja dado conhecimento dos conteúdos das mensagens que tenham nos seus telemóveis, comunicando-se depois aos serviços públicos respectivos quais os funcionários que viajavam nesses veículos, estão a ser ultrapassados todos os limites do bom senso.

De cada vez que são enviadas aos funcionários públicos, directa ou indirectamente, mensagens sugerindo-lhes que não participem em manifestações ou que não subscrevam determinado tipo de documentos, estão a ser impostos mecanismos de controlo, censura e coerção típicos de estados autoritários e de regimes policiais incompatíveis com o segundo sistema.

Por isso mesmo, nunca pensei que a intervenção de Pequim fosse tão urgente como se afigura neste momento. Para restabelecer e caucionar a confiança da população nos poderes públicos, a qual é diariamente posta em causa pelas notícias dos jornais, pelas declarações de responsáveis políticos, mas igualmente pelos relatórios das auditorias e do CCAC que vão sendo conhecidos e que imputam desvarios e desvios vários a múltiplas entidades, minando-se a credibilidade no segundo sistema.

Na actual situação, importa ter presente que a assinatura de petições a favor de um qualquer serviço do tipo UBER, aliás legal na China e em muitos países civilizados onde existe Estado de direito, democracia e liberdades públicas, bem como os apelos independentistas (irresponsáveis) que hoje se verificam em Hong Kong, ou a generalizada contestação a que cada vez mais frequentemente se assiste em Macau, por vezes em relação às medidas mais inócuas e ridículas, não representam um foco genuíno de sublevação. Representam antes a forma que as pessoas encontraram de manifestarem a sua insatisfação pela inércia dos poderes públicos dos dois lados do delta do Rio das Pérolas, quando se trata de tomar decisões e dar solução aos problemas do quotidiano, face à incessante, diria mesmo catastrófica, degradação da sua qualidade de vida e dos seus direitos básicos de cidadania, cenário que era impensável em 1997 ou 1999 face ao desenvolvimento que Hong Kong e Macau gozavam, às perspectivas de futuro que se abriam com a saída dos poderes coloniais e ao empenho da RPC em respeitar compromissos internacionais, transmitir confiança e garantir um segundo sistema viável às populações das duas regiões.

O radicalismo de algumas medidas, que vai, por exemplo, da proibição do fumo em espaços abertos ao reforço da caça à multa à medida que se eliminam lugares de estacionamento, sem esquecer a forma como se estão a reprimir associações cívicas de jovens, como se vai controlar o direito de manifestação ou a apresentação de candidaturas à Assembleia Legislativa, contrasta com a dificuldade de execução com qualidade, a tempo e horas e custos controlados de obras públicas, com o laxismo no combate à poluição por parte de veículos pesados, com a degradação da oferta turística, com a dificuldade na introdução de uma melhoria efectiva do serviço de táxis, com a má condução e desrespeito pelas mais elementares regras de trânsito por parte de transportes públicos, privados e mesmo veículos oficiais – viaturas que circulam pela direita, que mudam de direcção sem fazerem uso do sinal respectivo, atravessam traços contínuos e contornam rotundas sempre pelo lado de fora – ou com a proliferação de consultas públicas, grupos de trabalho e o secretismo de alguns processos decisórios.

O caso da UBER é um mero pretexto num conflito entre poderosos. Porque em causa não está o licenciamento de um serviço. Em causa está a capacidade de gestão do segundo sistema. A forma como o assunto (não) tem sido tratado é sinal da forma ineficiente como este está a funcionar em Macau. E da dificuldade em geri-lo com bom senso e sem prejudicar os cidadãos de cada vez que é necessário tomar uma decisão.

O reforço, na maior parte das vezes não assumido, de poderes de controlo, administrativos e policiais, e o cerceamento diário de direitos consagrados no art.º 27.º da Lei Básica contendem com uma boa administração do segundo sistema e minam a confiança no futuro.

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por Sérgio de Almeida Correia

Segunda-feira, 29.08.16

indigestões

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Em 2013, num processo que levantou muitas incompreensões entre os seus militantes, Passos Coelho impôs a candidatura de Pedro Pinto à Câmara de Sintra, abrindo caminho à vitória de Basílio Horta.

Na sequência desse processo, em que foi recusado o nome (consensual para as estruturas locais) de Marco Almeida, e apesar deste ter na altura o apoio de oito presidentes de juntas de freguesia do PSD, vários militantes foram expulsos por se terem rebelado contra a decisão da direcção do partido e terem apoiado ou resolvido candidatar-se em listas, e não só em Sintra, contra o seu próprio partido. Outros houve que, entretanto, descontentes com a situação saíram pelo seu próprio pé evitando a expulsão automática prevista nos estatutos.

Volvidos estes anos, que não foram tantos como isso, depois do PSD e Pedro Pinto terem sido cilindrados em Sintra, perdendo Marco Almeida a Câmara para o PS por menos de dois mil votos, eis que surgem notícias dando conta de um mais do que provável apoio desse mesmo PSD, ainda e sempre dirigido por Passos Coelho, a uma recandidatura do referido Marco Almeida nas autárquicas de 2017.

Em 7 de Junho p.p., num texto de Cristina Figueiredo, o Expresso anunciava que o PSD estaria a considerar o "endosso" à candidatura de Marco Almeida (Sintra) e, eventualmente, à de Paulo Vistas, em Oeiras. E citava declarações do coordenador autárquico, Carlos Carreiras, em que este dizia que o partido não iria limitar as suas opções desde que fossem coerentes com "o projecto".

Depois, em Julho, o Público avançava com a notícia do apoio do PSD, do CDS, do MPT e do movimento "Nós Cidadãos em Sintra" à candidatura de Marco Almeida.

Já este mês, no dia 3, o jornal OJE esclarecia que em Sintra, "apesar de nenhuma voz oficial o confirmar, o processo estará também encerrado do lado dos social-democratas", adiantando-se que "várias fontes confirmaram mesmo ao OJE que o acordo entre Marco Almeida e a cúpula do PSD já está fechado, faltando apenas acertar detalhes e nomes integrantes da lista a apresentar."

Na sexta-feira passada (26/08/2016, p. 6) foi a vez do Público informar que Marco Almeida, depois de já se ter reunido com outras forças políticas, entre as quais o PSD, recebeu por unanimidade o apoio da JSD para se candidatar à presidência da Câmara de Sintra.

É, pois, neste momento quase seguro, embora não se saiba muito bem qual "o projecto" autárquico do PSD, que Passos Coelho e a sua direcção se preparam para engolir não um mas várias famílias de sapos, das mais variadas espécies e proveniências, nas autárquicas de 2017, para evitarem uma humilhação política. Humilhação que após a gritaria, aliás inconsequente, para impedir o governo da dita "geringonça" passa agora por fazer um duplo mortal à retaguarda, ainda que para isso seja necessário participar na criação de novas "geringonças" que pragmaticamente garantam o acesso ao poder e o ganha-pão das suas clientelas.

Sabíamos, pelo passado recente, que a coerência não era um forte deste PSD de Passos Coelho. Quanto a esse ponto não há nada de novo. Contudo, seria interessante desde já saber até onde irão o perdão e o acto de contrição e se, por hipótese, Marco Almeida resolver incluir na sua lista alguns dos que foram antes expulsos, convidando de novo, por exemplo, António Capucho, o histórico ex-militante e fundador do PSD, para encabeçar a lista para a Assembleia Municipal de Sintra, se ainda assim o PSD o apoiará. Ou, quem sabe, se o nome desse e de outros ex-militantes, como é agora o de Marco Almeida, que saiu do partido e encabeçou uma lista contra Pedro Pinto, é também negociável em nome do tal "projecto".

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por Sérgio de Almeida Correia

Segunda-feira, 22.08.16

português

"[N]ão é o facto de haver muitos chineses a aprenderem português nas universidades ou a frequentarem os cursos promovidos pelo IPOR ou por qualquer outra instituição que vai alterar o estatuto de insignificância, desprezo e menorização a que na prática a língua portuguesa está actualmente votada em Macau. Não vale a pena disfarçar."

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por Sérgio de Almeida Correia

Quarta-feira, 17.08.16

inglês

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"There's no regret more painful than the regret of things that never were." (Fernando Pessoa, Portuguese poet translated by Richard Zenith, Lisbon 2006)

 

Em inglês, para os deputados perceberem.

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por Sérgio de Almeida Correia

Sexta-feira, 05.08.16

fong

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O Sr. Fong, conhecido como Fong Soi Kun, é um funcionário público da RAEM, como milhares de tantos outros. Daquilo que sei, é um indivíduo íntegro, preparado e trabalhador. Pode não ser, e não é, um bom comunicador, mas tem a grande virtude de falar português, melhor do que eu alguma vez falarei chinês, ser esforçado e genuíno. Provavelmente terá muitos defeitos, e outras qualidades, que nós desconhecemos. O que não lhe pode ser apontado é o pecado do exibicionismo, em que são pródigos tantos dos que por aí andam pela administração pública e pelos tribunais da RAEM, nem a falta de autenticidade. Eu estava à espera, depois daquilo que ouvi na tarde da chegada do tufão Nida, que entre as vinte e duas e as duas horas fosse içado o sinal 8. Estava à espera mas não aconteceu.

Eu vi da minha janela as árvores agitando-se, vi motociclistas em dificuldades, senti o vento sibilar a noite toda, a chuva bater violentamente contra a enorme superfície vidrada do meu quarto, mas nada. Não havia notícias, pelo menos para portugueses, em português. Nem na rádio, nem na televisão. Quando de manhã ouvi as primeiras notícias percebi que o sinal 3 continuava içado. Na minha modesta opinião, o sinal 8 devia ter sido içado durante a noite. Não foi, paciência. Não houve acidentes pessoais, a coisa passou sem danos de maior.

Nada do que ocorreu justifica um pedido de demissão do Sr. Fong. Explicou, como pôde e da melhor forma que soube, o que se tinha passado. Assumiu as suas responsabilidades. Eu nunca vi outros profissionais, alguns exercendo funções mais elevadas do que o Sr. Fong, assumirem as suas responsabilidades por decisões mais graves. A meteorologia não é uma ciência exacta, apesar de ter pretensões a sê-lo. E aqui há uns meses o Sr. Fong e os serviços que dirige foram criticados por causa de dois avisos de chuvas fortes que na altura, felizmente, não ocorreram nos termos que haviam sido previstos. Nessa ocasião houve papás e mamãs que se queixaram, muito incomodados, porque tinham tido que ir buscar os petizes à escola, não tinham com quem deixá-los e afinal não choveu o anunciado. Quando agora o criticaram por não ter sido içado o sinal 8, todos se esqueceram disso.

O Sr. Fong está sempre no olho do tufão. Ou da chuvada. Um dia quis ser previdente, evitar que as pessoas fossem apanhadas desprevenidas, foi criticado. Agora optou por seguir os critérios do manual e foi de novo criticado. Justificou-o. Falou à imprensa, foi à televisão.

Nada do que aconteceu justifica que se peça a sua demissão, mas até a isto o Sr. Fong respondeu, dizendo que está ali para servir e que se quiserem afastá-lo poderão fazê-lo.   

O Sr. Fong pode ter muitos defeitos. Pode não perceber nada de meteorologia (eu também não percebo, é tudo a olho). Mas o Sr. Fong é um homem sério. O Sr. Fong é um homem em quem se pode confiar, mesmo que depois o tempo lhe pregue algumas partidas. Eu gostava que a Administração de Macau tivesse tantos homens e mulheres tão sérios quanto o Sr. Fong. Gente que dê a cara nos momentos de sucesso e de insucesso, que decida, que assuma os seus próprios erros, que seja bilingue e fale uma linguagem compreensível para os portugueses, gente que não se esconda atrás do chefe, que não tenha medo dos poderes informais, que não receie os gritos estridentes da populaça e dos paus-mandados, que não seja fala-barata.

Gente séria merece o meu respeito. O Sr. Fong tem o meu respeito. E desta vez, também, a minha compreensão.

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por Sérgio de Almeida Correia

Quinta-feira, 04.08.16

mártir

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Da próxima vez que voltar a embarcar num avião da Emirates lembrar-me-ei dele. Porque mártir não é o estafermo que se faz explodir sem sentido, cobardemente ceifando vidas inocentes e tornando inútil toda e qualquer fé. Mártir é o que morre no cumprimento do dever, salvando vidas alheias, sem se preocupar com a sua e sem outra recompensa que não seja a expressão, através da sua atitude, de um sentimento de gratidão aos outros. Não há forma mais digna e honrosa de morrer do que esta. Pelo que ela ainda representa de esperança no futuro da Humanidade. Fico triste por saber que foi assim, mas satisfeito por ver que o seu sacrifício, o seu sentido do dever e a sua crença no bem ao próximo não foram em vão. Curvo-me respeitosamente, pequenino e agradecido, perante a memória de Jassim Issa Al Balooshi. Porque é o exemplo e a coragem de homens como ele, nos dias difíceis que atravessamos, que nos ilumina e nos guia, que nos ajuda a suportar a dor e o sofrimento e dá dimensão e sentido aos nossos dias. Aos meus dias.

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por Sérgio de Almeida Correia




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